Rádio Observador

Marte

O que aconteceu à atmosfera de Marte? Foi soprada pelos ventos solares

Marte já foi quente e teve rios e mares de água líquida, mas a perda de atmosfera devido à força dos ventos solares tornou-o um planeta seco e frio. O anúncio foi feito esta quinta-feira pela NASA.

Representação artística dos ventos solares a atingirem as camadas superiores da atmosfera de Marte

NASA/GSFC

Atualizado às 21h30.

Para responder à questão: ‘O que aconteceu à atmosfera de Marte?’, vou citar Bob Dylan”, disse Michael Meyer, que lidera o Programa de Exploração em Marte da NASA. “The answer, my friend, is blowin’ in the wind” (“A resposta, meu amigo, está a ser soprada pelo vento”, um verso da música “Blowing In The Wind”).

Marte perdeu a atmosfera original, que lhe permitia manter uma temperatura amena e água no estado líquido, e transformou-se num planeta seco e frio devido aos ventos solares, conforme revelaram os cientistas esta quinta-feira no quartel-general da NASA (agência espacial norte-americana) em Washington.

Os dados da missão MAVEN permitiram criar uma simulação de como os ventos solares expulsa os iões da atmosfera marciana para o espaço.

Ao contrário da Terra, o planeta vermelho já não tem um campo magnético que lhe sirva de escudo contra a ação dos ventos solares – um fluxo de partículas carregadas vindas do Sol –, explicou Jasper Halekas, responsável pelo instrumento que mede os iões dos ventos solares na Universidade do Iowa, e por isso terá perdido grande parte da atmosfera. As partículas carregadas vindas dos ventos solares conseguem empurrar alguns iões para camadas mais profundas da atmosfera, mas arrancam outros das camadas mais exteriores para fora da ação do planeta.

Todos os planetas do sistema solar sofrem a influência do Sol: um fluxo de partículas carregadas (ou ventos solares), que podem viajar a uma velocidade de um milhão de milhas por hora (1,6 milhões de quilómetros por hora).

A Terra está a perder algumas partículas, mas a um ritmo muito mais pequeno que Marte.

Dave Brain, investigador no Laboratório para a Física Atmosférica e Espacial (LASP, na sigla em inglês) da Universidade do Colorado, admitiu que caso a Terra perdesse o campo magnético que atualmente lhe serve de escudo contra os ventos solares, poderia transformar-se numa grande versão de Marte – a Terra tem quase o dobro do tamanho de Marte.

Uma das perguntas dos seguidores no Twitter: “O campo magnético da Terra ajudou o planeta a sobreviver. Marte teve um? Se não, porquê? Se sim, o que lhe aconteceu?”

Houve uma altura em que também Marte teve um campo magnético que lhe permitiu proteger-se contra os ventos solares e manter a atmosfera e água no estado líquido. O motivo e a altura em que perdeu esse campo magnético ainda não é conhecido, mas terá acontecido há muito tempo, provavelmente pouco depois da formação do sistema solar quando o Sol estava mais ativo.

Os dados recolhidos pela missão MAVEN (na sigla em inglês para Mars Atmosphere and Volatile Evolution) e agora publicados na revista científica Science and Geophysical Research Letters, mostram que os ventos solares arrancam atualmente cerca de 100 gramas de gases da atmosfera marciana a cada segundo. Mas uma tempestade solar pode fazer aumentar este fator 10 ou 20 vezes. Os investigadores ligados à missão MAVEN tiveram uma pequena demonstração deste fenómeno quando tempestades solares fortes atingiram a superfície de Marte em março de 2015.

Como o roubo de umas quantas moedas da caixa registadora todos os dias, a perda torna-se significativa ao longo do tempo”, disse Bruce Jakosky, investigador principal no LASP – um dos laboratórios que participa na missão MAVEN. “Vimos que a erosão atmosférica aumenta significativamente durante as tempestades solares, por isso pensamos que as perdas eram muito maiores há milhares de milhões de anos, quando o Sol era mais novo e estava mais ativo.”

A missão MAVEN, lançada em novembro de 2013, pretende estudar a atmosfera superior, a ionosfera e as interações desta com o Sol e com os ventos solares, em particular as perdas de atmosfera para o espaço. Esta perda de atmosfera pode explicar as mudanças climáticas que aconteceram no planeta vermelha nos últimos milhares de milhões de anos. Porque neste espaço de tempo, Marte passou de um planeta onde havia água no estado líquido a correr dos rios até aos lagos e mares para um planeta seco e frio, como conta a NASA no blogue oficial.

Mas as várias missões em Marte não estão isoladas. Por um lado, os resultados da missão MAVEN podem ajudar a explicar porque é tão difícil encontrar água no estado líquido em Marte, embora esse seja um dos focos principais da missão a Marte. Por outro, os dados da missão MAVEN podem ser combinados com os dados que estão a ser recolhidos pelo rover Curiosity sobre a radiação que chega à superfície do planeta – as partículas que chegam à superfície são as mesmas que atingem as camadas mais exteriores da atmosfera. 

Se quiser colocar algumas questões à NASA pode usar a hashtag #AskNASA nas redes sociais.

Quanto tempo passa entre uma nova descoberta e a sua comunicação ao público em geral?

Haverá formas de vida em Marte que nos estão a esconder?

É possível que Marte tenha fósseis de vida pré-histórica? Se sim, poderemos escavar à procura de fósseis em Marte?

Existe alguma forma de vida na Terra que pudesse sobreviver com as condições da atmosfera marciana?

Lembramos ainda que no início desta semana, na conferência Sociedade Geológica Americana, Shoshanna Cole, cientista planetária e doutoranda na Universidade Cornell, mostrou que tinha encontrado indícios de que Marte teria ocasionalmente nevoeiros ácidos que provocavam a erosão das rochas e transformação dos minerais nelas presentes.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: vnovais@observador.pt
Filosofia Política

A doença mental chamada Amazónia

Gabriel Mithá Ribeiro

Resta decretar o estado de emergência climática que, na prática, se traduz no combate ao capitalismo em nome do socialismo, mas na condição daquele disponibilizar muitos mil milhões de dólares a este.

Trabalho

Ficção coletiva, diz Nadim /premium

Laurinda Alves

Começar reuniões a horas e aprender a dizer mais coisas em menos minutos é uma estratégia que permite inverter a tendência atual para ficarmos mais tempo do que é preciso no local de trabalho.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)