“Allons enfants de la Patrie”.

Ergam-se. Ponham-se em pé, com o peito inchado pelo orgulho, de cabeça bem alta. O primeiro verso da Marselhesa não diz tudo isto, tão pouco dá todas estas ordens. Apenas pede aos filhos da pátria que se ergam e explica porquê no resto do hino nacional francês. Mas Lassana Diarra fá-lo a custo. Está de pé, com os braços envoltos no torso dos colegas, mas a cabeça parece não ter a vida do resto do corpo: mantém-na baixa, presa pelo pescoço, como se de um peso morto se tratasse. Tem os olhos abertos, focados na relva e assim fica durante o minuto em que o hino nacional francês toca pelo Estádio de Wembley. Todos, homens, mulheres e crianças, ingleses ou gauleses, o entoam. Mas os lábios de Lass não mexem, a cara continua fixada na relva. É o único que está assim.

Porque foi ele o único que, há quatro dias, chorou lágrimas de sofrimento pela perda de alguém próximo. Da prima cuja vida ficou dentro do Bataclan, em Paris, uma das 89 encurraladas pelas balas disparadas por terroristas. Por isso Lass não ergue a cabeça para olhar em frente, não canta. Os outros jogadores franceses fazem tudo o que o médio do Marselha não faz, embora, como ele, também não esbocem uma reação na cara. Não estão ali por quererem, mas porque o presidente da federação que manda no futebol francês decidiu que teriam de estar. Que teriam de jogar para ganhar um jogo quatro dias depois de toda a gente no país perder com o choque.

during the International Friendly match between England and France at Wembley Stadium on November 17, 2015 in London, England.

Foto: Paul Gilham/Getty Images

O estádio e as mais de 80 mil pessoas que tem dentro sabe-o. Por isso cantam, dão o melhor. Veem-se ingleses com o olhar centrado nos ecrãs gigantes, atentos à letra da Marselhesa, para agigantarem a voz que se queria uníssona, a cantar o hino francês. Os adeptos aceleraram um pouco, ultrapassaram o ritmo que a banda tocava, no relvado. Ficou o momento, a homenagem, a união entre cidadãos de dois países que a história nos diz que sempre foram rivais, mas que ali se unem num hino que fala de guerra e revolta. “Ao decidir jogar, a França mostra aos terroristas que se vão manter fortes contra eles. E nós temos que apoiar isso”, defende Wayne Rooney, o capitão inglês, quando fala antes do jogo. Fala também de solidariedade, de paz, de “união para o mundo de ver”, de coisas que um futebolista nunca tem de falar na antevisão de um jogo.

Mas, desta vez, não lhes pedem para falar de outra coisa. Na sexta-feira, nem um jornalista se atreve a perguntar algo sobre o jogo a Didier Deschamps ou Hugo Lloris. O selecionador e capitão gauleses não falam sobre táticas nem jogadores. Le bleu, le blanc, le rouge. O “orgulho que será maior que nunca em representar” as cores da bandeira francesa, diz Deschamps, compensará a “dificuldade em arranjar palavras para descrever um ato tão bárbaro”. Talvez por isso Wembley cumpra o minuto de silêncio como se deveriam cumprir todos — impecavelmente, sem um som que se oiça, além do ruído causado pelo helicóptero de segurança que paira sobre o estádio. Passam 60 segundos, mesmo, e quando se contam 10 minutos de bola a rolar na relva, o estádio intervém. Começa-se a ouvir a Marselhesa de novo, não entoada por todos, mas por bem mais do que os cerca e 1.700 franceses que estavam em Wembley. 

“Marchons, marchons!”

As vozes carregam, insistem em berrar e gritar nesta parte. Que o jogo corra, que a bola role, que todos marchem. Isso acontece, mas a custo, num dos lados. Os franceses não sorriem, não mostram os dentes. Correm muito, embora a vontade não seja a de sempre. O cabisbaixo não se nota mais porque a bola para pouco quieta. O jogo tem poucas faltas, o ritmo só acelera quando os ingleses esquecem, por momentos, que o adversário é feito de homens que representam uma França a sarar as feridas de uma tragédia. Uma que nem os ramos de flores depositados pelo Príncipe William no relvado, antes do encontro, podem ajudar a curar. Os adeptos nada fazem para piorar isto: não se ouvem assobios ou gritos de indignação quando os franceses têm a bola. Nunca.

LONDON, ENGLAND - NOVEMBER 17: Both teams stand together for a moment of applause prior to the International Friendly match between England and France at Wembley Stadium on November 17, 2015 in London, England. (Photo by Paul Gilham/Getty Images)

Foto: Paul Gilham/Getty Images

Mas ouvem-se as palmas, muitas delas, quando os 57 minutos de jogo deixam Lassana Diarra entrar em campo. O público aplaude e tenta dar um som de contentamento a quem menos motivos tem para estar feliz. Mais aplausos se ouvem minutos volvidos, quando ao relvado chega Antoine Griezmann, o francês cuja irmã a tragédia poupa por nenhuma das balas disparadas no Bataclan lhe tocar — estava dentro da sala de concertos parisiense, na noite de sexta-feira. Mais palmas se batem, embora tímidas, por cada jogador gaulês que vai a jogo no Estádio de Wembley. Nenhum recebe um assobio, jamais.

Com o tempo a passar o encontro murcha na memória, fica como outro qualquer. A bola a rolar parece hipnotizar-nos para a ideia de que este é só mais um jogo de futebol, sem importância. E talvez seja mesmo. Porque “a nação francesa é mais importante que o futebol francês neste momento”, como diz Hugo Lloris, antes da partida.

Os filhos da Pátria, por quem a Marselhesa puxa, ergueram-se por ela. Porque equiparam-se, calçaram as chuteiras e jogaram quando todas as razões havia para não o fazerem. Por terem estado hora e meia a jogarem o desporto que lhes paga o ordenado quando talvez quisessem estar junto dos seus. Os franceses, como todos, são humanos, e a “falta de agressividade e concentração” que Lloris reconheceu no final do jogo serve para o provar. Importava “mostrar caráter”, solidariedade e mostrar o quão a união se engrandece quando futebol lhe dá um palco para o fazer. Por isso os franceses se ergueram e os ingleses lhes fizeram companhia. E o resultado, o que menos interessava, ficou nos 2-0 feitos por Dele Alli e Wayne Rooney. Mas não será isto que a recordação guardará da primeira vez que a seleção francesa jogou depois de uma tragédia roubar 129 vidas em Paris.

“Nous aurons le sublime orgueil
De les venger ou de les suivre.”