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Os debates pré-eleitorais servem para alguma coisa? A pergunta não é nova e daria azo a discussões prolongadas. Não nos arrogamos a dar uma resposta, mas deixamos um dado: o líder do Partido Popular (PP) e primeiro-ministro espanhol ainda não tinha participado em qualquer debate e todas as sondagens lhe dão a vitória nas eleições legislativas que se realizam no domingo que vem. Mais: no dia em que Mariano Rajoy apareceu finalmente na televisão para discutir com o líder do Partido Socialista (PSOE), o PP surge isolado nos estudos de opinião e deixa a concorrência a uma distância considerável.

O debate desta segunda-feira foi agressivo, quase violento. Mas de acordo com uma sondagem feita pela Atresmedia, nenhum dos dois líderes partidários ganhou. À pergunta “No seu entender, quem ganhou o debate?”, 28,8% escolheu Rajoy e 33,7% escolheu Sánchez. Mas a opção “nenhum dos dois” recolheu 34,5% das opções. Já antes, também na segunda-feira, tinham sido divulgadas oito sondagens. Percentagens à parte, quase todas mostram a mesma coisa: o partido de Rajoy vence, mas longe da maioria absoluta; o PSOE fica em segundo lugar, mas seguido de muito perto pelo Ciudadanos, que somente num dos inquéritos consegue ultrapassar os socialistas; já o Podemos aparece em quarto lugar, exceto em duas das sondagens, em que surge à frente dos naranjas (Ciudadanos). Conclusão? Dado este saco de gatos, o resultado das eleições é absolutamente imprevisível.

Média de todas as sondagens

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PP: 27,48%

PSOE: 20,59%

Ciudadanos: 19,51%

Podemos: 16,96%

 

Há exatamente quinze dias, na última grande sondagem que o El País divulgou, PP, PSOE e Ciudadanos apareciam praticamente empatados nas intenções de voto, a rondar os 22,5%. Hoje, o mesmo jornal mostra que a distância entre os três partidos se alargou e que o tão anunciado fim do bipartidarismo poderá não se concretizar plenamente.

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Isso não significa que o sistema político espanhol não se vai alterar, porque parece inevitável haver mudanças importantes. Em 2011, depois de sete anos de governação do socialista Zapatero — que apareceu apenas cinco minutos na campanha eleitoral deste ano –, o PP conseguiu uma maioria absoluta confortável que deixou o PSOE a 76 deputados de distância. Muito se passou entretanto: o governo viu-se obrigado a tomar medidas de austeridade, os movimentos de contestação popular deram origem a partidos como o Podemos, vários escândalos de corrupção abalaram o PP e, mais recentemente, algumas câmaras municipais emblemáticas foram conquistadas por recém-chegados à política. Assim, a crer nas sondagens e na melhor das hipóteses, os populares conseguirão este ano entre 114 e 119 deputados, enquanto o PSOE alcança entre 81 e 94 eleitos. Ou seja, pela primeira vez na história política espanhola pode mesmo ser preciso uma coligação para haver governo.

Governo à portuguesa?

A acontecer, uma coligação seria algo inédito em Espanha, onde a expressão “bipartidarismo” não existe por acaso. Ao mesmo tempo que Mariano Rajoy e Pedro Sánchez dramatizam o discurso e apelam ao voto útil, não deixam de saber que o futuro político espanhol pode estar nas mãos de Albert Rivera (Ciudadanos) ou de Pablo Iglesias (Podemos), que disputam o terceiro lugar taco-a-taco e têm aspirações a ser a segunda força mais votada.

No início de novembro, o líder do Ciudadanos disse em entrevista que só iria governar se ganhasse as eleições, caso contrário ia para a oposição. Pouco menos de um mês depois, Mariano Rajoy foi a um programa televisivo responder diretamente às perguntas dos espanhóis e agitou um papão até aí desconhecido. “Espero que não haja um tripartido. Isso seria um disparate para Espanha”, disse o ainda chefe de governo, aludindo à hipótese de PSOE, Ciudadanos e Podemos se coligarem depois das eleições — mesmo se o PP for o partido mais votado.

No dia seguinte, Albert Rivera já tinha um discurso diferente do que tinha tido em novembro: admitia a hipótese de ser primeiro-ministro em coligação com o PSOE e o Podemos, mas só se estes dois partidos aceitassem o programa do Ciudadanos como programa de governo. Uma situação muito semelhante, portanto, à que aconteceu em Portugal.

La remontada

Tenha a votação que tiver, parece certo que o anúncio da morte do Podemos foi manifestamente exagerado. Mais uma vez, os números: em princípios de novembro, a formação de Pablo Iglesias não convencia mais do que 12 ou 13% dos eleitores espanhóis, o que parecia indicar que o movimento de protesto saído das ruas de Madrid se estava a esfumar. Um mês depois, o Podemos fez uma verdadeira remontada e já tem percentagens estimadas de voto a rondar os 19%, o que se poderá traduzir em cerca de 60 deputados no parlamento espanhol. Para um partido que se apresenta pela primeira vez às legislativas, é um resultado histórico — mas longínquo do objetivo de fazer de Iglesias o próximo primeiro-ministro.

As boas prestações do líder do Podemos nos debates televisivos justificam, em parte, esta subida nas intenções de voto. Outro motivo que ajuda a explicar o fenómeno é a situação económica espanhola. Apesar de se esperar que a economia cresça 2,8% este ano, o desemprego continua muito alto: em outubro afetava 21,6% das pessoas, a segunda maior taxa da zona euro. E essa é uma população fundamental para o Podemos, que surgiu precisamente por não concordar com a austeridade e por defender uma viragem à esquerda nas políticas económicas e sociais.

A “renovação democrática” ou a “regeneração” é outro dos temas dominantes da campanha eleitoral que tem ajudado à subida do Podemos e do Ciudadanos nas sondagens. É o chavão que todos os partidos, sem exceção, usam para convencer os eleitores: é preciso acabar de vez com a corrupção na política e tornar o sistema mais acessível e democrático. Se os espanhóis podem desconfiar destas intenções vindas do PP ou do PSOE, que se substituem ciclicamente no poder há 40 anos, o Podemos e o Ciudadanos aparecem virgens perante o eleitorado, uma vez que nunca ocuparam o poder. E isso é uma das coisas em que vão tentar cavalgar ao máximo até ao próximo domingo. O que temem alguns analistas é que, no fim, aconteça aquilo que acontecia n’O Leopardo: “É preciso que tudo mude para que tudo fique na mesma.”