Longe vão os tempos em que a candidatura de Donald Trump era tida como uma piada ou uma espécie de momento cómico nas eleições primárias norte-americanas. Neste momento, o milionário nova-iorquino está à frente tanto no número de delegados conquistados nos estados que já foram a votos, como nas sondagens daqueles que ainda estão para vir. Já não é piada — agora, é o “fenómeno Trump”. E foi exatamente essa expressão que o embaixador dos EUA em Portugal, Robert A. Sherman, usou para descrever as improváveis primárias do Partido Republicano a um grupo de jornalistas portugueses.

“O que estamos a ver no Partido Republicano é uma viragem para os outsiders do partido onde o establishment republicano não tem qualquer voz. Penso que isto significa que o partido está desordenado”, disse. “Tem-se falado muito sobre a procura de um candidato do establishment, mas ao mesmo tempo os eleitores das primárias republicanas não têm demonstrado até agora uma grande vontade em votar no establishment, eles estão a votar fora dele.”

Ainda assim, Sherman, que fez parte do grupo de campanha que se reuniu pela primeira vez para promover uma candidatura presidencial de Barack Obama em 2008, deixa entender que não antevê uma vitória de Trump caso este venha a ser o nomeado republicano para as eleições de 8 de novembro. “Nas eleições presidenciais, o eleitorado americano tem uma tendência para ser centrista e muito mais moderado do que nas primárias”, disse, numa sala da embaixada dos EUA em Lisboa. “E eu acho que mensagens que são fraturantes, intolerantes e desrespeitosas não vão apelar aos eleitores das eleições presidenciais”, disse. Mais à frente, sublinhou a ideia: “Tenho muita fé no eleitorado americano para reconhecer os valores com que se construiu o nosso país e para escolher um candidato que reflete esses valores”.

“O nosso país foi construído por imigrantes. Eu sei isso de experiência própria. O meu pai nasceu em Kiev e a minha mãe nasceu em Odessa. Os meus pais eram russos. Eu sei o que é alguém chegar aos EUA para tentar construir uma vida melhor para a sua família. E penso que uma postura anti-imigração vai contra a maneira como o nosso país foi fundado.”

Para Sherman, o maior desafio que o Partido Republicano tem pela frente tem apenas um nome que, ao contrário do que se pode pensar, não é Clinton nem Sanders. É, isso sim, a demografia. “Quando olhamos para alguns swing states [estados onde os votos são mais disputados entre os dois partidos], como a Florida, Colorado, New Mexico e Nevada, todos têm uma grande população hispânica”, disse, referindo-se depois a esta sondagem da Washington Post e da Univision: “Donald Trump tem uma taxa desaprovação de 80% e 70% destes classificam-no como ‘muito desfavorável'”. O mesmo estudo indicava ainda que Hillary Clinton — claramente à frente nas primárias do Partido Democrata — tem 73% de aprovação entre hispânicos quando comparada a Trump, que se fica pelos 16%.

“Para ter alguma hipótese de vitória nesses estados é preciso ter 45% do voto hispânico”, referiu o embaixador norte-americano. “Por isso eu acho que a retórica afiada, a conversa em torno de se construírem muros em vez de pontes, dificultam-lhe [Trump] uma viragem para uma posição moderada no que diz respeito à imigração ou a assuntos que interessam aos eleitores hispânicos nos swing states. Isso vai ser um grande desafio.”

“Hillary Clinton pode pegar na discurso de Sanders se for nomeada”

Do lado dos democratas, Robert A. Sherman refere que “a matemática sugere que não é provável que Sanders vença”. Ainda assim, o embaixador norte-americano acredita que o senador do Vermont vai continuar até ao fim da campanha, agendado entre 25 e 28 de julho, os dias da convenção do Partido Democrata. E, até lá, Sanders deverá continuar a insistir no seu tema de eleição: “O discurso dele tem sido sobre desigualdade económica e eu penso que esse discurso colhe junto de muitos democratas. Esta ideia de que a classe média, que construiu o nosso país, tem estado a perder e que precisa de ser revitalizada é uma mensagem importante. Portanto eu consigo imaginar que Hillary Clinton pode pegar no discurso de Sanders se for nomeada”.

O embaixador referiu ainda que, ao centrar-se no tema das desigualdades económicas, Sanders “trouxe um assunto e uma mensagem importantes e ele fê-lo de uma forma muito responsável e razoável”.

Neste momento, parece ser praticamente certo que será Hillary Clinton a pessoa escolhida para representar o Partido Democrata nas eleições de 8 de novembro. Isto porque está claramente à frente na contagem de delegados a levar à convenção de 25 de julho — no total, são 4765, sendo que são precisos 2383 para vencer a nomeação. Segundo The New York Times, a ex-secretária de Estado tem 1221 delegados — incluindo os superdelegados, isto é, delegados não-eleitos e que consistem em membros de destaque do partido, entre eles senadores, governadores e congressistas –, contra os 571 de Bernie Sanders.

Talvez por isso, Robert Sherman já prevê uma entrada de Barack Obama na campanha de Hillary Clinton no caso provável de esta ser nomeada pelo partido em julho. A confirmar-se, esta seria uma nova demonstração de união entre dois políticos que, em 2008, travaram uma dura campanha para as eleições primárias do Partido Democrata, das quais Obama saiu vencedor. Apesar de tudo, pouco depois, já enquanto Presidente, Obama escolheu a sua rival para secretária de Estado — um cachimbo da paz que poucos poderiam adivinhar durante a acrimónia da campanha nas primárias.

“Não quer dizer que Hillary Clinton concorde com tudo o que Barack Obama fez, ela é uma pessoa livre e tem as suas ideias. Mas o que é mais importante para o povo americano, por oposição às disfunção e às brigas que há no Congresso, é verem dois rivais a unirem-se para o bem do país”, disse o embaixador. “Se ela for a nomeada, espero ver Barack Obama a fazer uma campanha ativa por ela.”