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Telefonaram-lhe a dizer que tinha chegado a 32ª semana e que era hora de a criança nascer. Miguel Ângelo tinha passado quase quatro meses sem saber se o primeiro filho vingaria na barriga da companheira, em morte cerebral desde fevereiro. No dia marcado, ficou na sala ao lado daquela onde a equipa médica do Hospital de São José fez a cesariana. E assim que os médicos chegaram com o bebé, chorou e pensou: “É agora que vou dar um rumo à minha vida”.

Foi no dia 20 de fevereiro último que tudo aconteceu. Miguel Ângelo, 38 anos, estava com a namorada Sandra, na casa dela, nas Bragadas, Póvoa de Santa Iria, quando ela começou a sentir-se mal. Sentia dores fortes na cabeça e tinha vontade de vomitar. “Chamámos o 112 e ela foi levada para Vila Franca de Xira”, recorda ao Observador. Lá, o diagnóstico: uma hemorragia intracerebral e a necessidade de ser transferida de urgência para o Hospital de São José, em Lisboa.

Sandra Pedro, 37 anos, chegou em coma profundo e depois de uma avaliação clínica foi declarada morta. Sandra Magalhães, sua amiga e ex-patroa, recorda-se do que disseram à família na altura. “Que ela estava em morte cerebral e que devíamos começar a preparar as coisas para o funeral”, conta ao Observador.

A funerária já estava a tratar de tudo para seguir o desejo de Sandra: ser cremada. Sim, a morte era por vezes assunto entre amigos. Mas um telefonema dos médicos de São José viria a ditar outro rumo: o bebé de Sandra, um rapaz, estava vivo. Queriam salvá-lo. “Primeiro disseram-nos que o bebé podia nascer com problemas. Não era garantido que fosse um bebé saudável. Por isso a mãe e a irmã recearam sempre o nascimento”, conta o pai. “Depois chamaram-me à parte e garantiram-me que se houvesse algum problema com o bebé, que me avisariam e que desligariam as máquinas”, conta, nervoso. “Eu não devia falar sobre isto. Tenho muitas coisas para tratar”.

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Miguel Ângelo diz que acompanhou todo o processo. Até ao dia em que o chamaram para o parto. “A família ficou numa sala ao lado. Ninguém podia assistir. Depois vieram mostrar-nos o bebé”, recorda. Quando lhe disseram que estava tudo bem, ele suspirou. “Pensei em todas as coisas más que me aconteceram na vida, tinha finalmente acontecido algo de bom.”

O pai do bebé registou a criança. Chamou-lhe Lourenço Salvador. Lourenço era o nome escolhido pela mãe, mal soube pela amniocentese que era um rapaz. Sandra era já mãe de um menino, fruto de outro relacionamento, e que tem agora 12 anos. Miguel Ângelo acrescentou o segundo nome, Salvador. “Ele conseguiu salvar-se”, desabafou, emocionado. E, de certa forma, salvou-lhe também a vida.

Miguel Ângelo, que trabalha numa empresa sueca de automóveis, já foi visitar o bebé aos Cuidados Intensivos de Neonatologia da Maternidade Alfredo da Costa, na quarta-feira. Voltará a visitar o filho ainda esta quinta-feira. “Já fui à Segurança Social, estou a tratar de tudo com a minha irmã”, diz. Entretanto, o hospital já informou que Lourenço se encontra estável e já respira sozinho.

Poder paternal vai ser discutido em tribunal

O pai de Lourenço Salvador está a tratar de tudo e espera levar o filho para casa, mal ele tenha alta hospitalar. Quer cuidar dele. Mas não é o único.

Durante os últimos meses, os pais de Sandra sofreram a sua morte sem conseguir fazer o luto. O funeral só se realizou esta quarta-feira, um dia após o nascimento de Lourenço. Consumidos pela dor da perda de uma filha, querem agora ser eles a criar o bebé, permitindo ao pai que o visite com regularidade.

Já Miguel Ângelo quer ser ele a cuidar do filho. Diz que alimentou sempre a esperança de que ele nasceria bem e que queria cuidar dele. Mesmo contra a vontade dos pais da companheira, com quem namorou pouco mais de um ano.

Fonte da família de Sandra disse ao Observador que os pais dela já estão à procura de um advogado. E que vão pôr uma ação de regulação do poder paternal em tribunal. Miguel Ângelo diz não ter cabeça para pensar nisso agora. Aliás, os amigos dele dizem que nas últimas semanas ele “andava em baixo”. O nascimento de Lourenço veio mudar-lhe a vida.