O país está melhor? Não há Governo em funções que responda de forma negativa à questão. O PS assumiu o Governo há sete meses e, claro, não foge à regra, ainda que admita que os portugueses partem para férias com algumas “incertezas” e “preocupações”.

Eduardo Cabrita, ministro-adjunto do primeiro-ministro, mostra-se confiante e até sereno, em declarações ao Observador, quanto a eventuais tumultos europeus que possam exigir medidas extra, que abalem uma estrutura que tem funcionado. Acredita que o Executivo tem vários pontos a seu favor, por mérito próprio. O que corre menos bem, é justificado com o abrandamento da economia internacional e também com a herança deixada por quem ocupou a cadeira imediatamente antes. O estado da nação, pelo socialista Eduardo Cabrita, resume-se numa ideia:

Os portugueses vão para férias com margens de incerteza e preocupações reais sobre o ritmo de crescimento da economia, sobre o sistema financeiro, mas com uma tranquilidade que não existia desde o início da grande crise financeira internacional.”

Voltemos, então à pergunta inicial: O país está melhor? Sim. Podia estar melhor do que isso? Sim. Por que não está? Aqui o dedo do governante aponta para fora, mas também para trás: “Incerteza europeia, incerteza em alguns dos principais mercados relevantes de Portugal (como o Brasil e Angola), a incerteza sobre o sistema financeiro e a necessidade de recuperar rapidamente os dois anos de atraso na utilização de fundos europeus”.

É quando fala da “instabilidade do sistema financeiro” — a outra preocupação que acredita ir na mala de férias dos portugueses — que o ministro aponta o dedo ao Governo anterior. Esse foi, segundo Cabrita, “o maior fracasso de gestão política do Governo do PSD/CDS. Havia outros, como o económico, o social, o conflito com o Estado de Direito, mas o fracasso da gestão do setor financeiro não era conhecido na sua dimensão. Aliás, foi uma matéria escondida em larga medida”, acusa. “É um fator de incerteza” que se junta a outros, como é o caso “da travagem da economia que se verificou já desde meio deste ano”, admite o ministro-adjunto de António Costa.

Aqui não há volta a dar. Até o ministro das Finanças já demonstrou que a desaceleração vai trazer consequências para previsões que, como sublinhou aos deputados na semana passada, foram traçadas quando “a procura externa crescia 4,6%”. Neste momento, as organizações internacionais preveem um crescimento de 3,2% para a procura externa — que não é afetada pelas políticas do Governo português e estamos a falar de choques muito importantes como a situação em Angola, na China, no Brasil e agora o Brexit –, detalhou Mário Centeno. Nas suas contas, esse abrandamento “tem um impacto de 0,36 pontos percentuais no crescimento”. Neste quadro, a ação do Governo vai passar pela mobilização, o quanto antes, dos fundos comunitários. “Devem ser rapidamente mobilizados para a economia”, define Eduardo Cabrita.

Depois, há também toda a parte política, que no caso deste Executivo, toma a dianteira do palco. Afinal, depende do equilibrismo constante entre quatro forças partidárias. PCP, Bloco de Esquerda e Verdes reúnem-se várias vezes por semana no Parlamento com o PS, para acertar a estratégia da — já incontornável — “geringonça”. A estrutura tem alguns pontos sensíveis, como por exemplo a divergência em matérias europeias. E o assunto que não é um pormenor nos dias que correm, com Portugal à beira de sanções por ter ultrapassado o limite de 3% do défice (em duas décimas) em 2015, e a esquerda à esquerda do PS a avisar que tem de haver uma condenação clara de uma decisão nesse sentido por partes dos decisores europeus.

O Governo tem desvalorizado a questão, garantindo uma confiança na solução governativa que se mostra até mais firme do que quando o acordo foi firmado. Eduardo Cabrita acredita mesmo que “Portugal é hoje um referencial de estabilidade política”, com uma solução que “na sua estabilidade e solidez tem ultrapassado todas as expectativas”.

Assim, é no capítulo da política que o ministro encontra as mudanças mais significativas, face ao estado da nação de há um ano. “Houve um virar de página relativamente aos anos marcados pela crispação, conflito com o Estado de Direito, a prática sucessiva e deliberada de conflito com a Constituição, com orçamentos e várias leis inconstitucionais”.

Nunca mais se falou do Tribunal Constitucional, o que é uma boa notícia. Saiu do debate político.”

Eduardo Cabrita continua o elogio do entendimento a quatro: “Hoje vivemos num quadro em que existe, em primeiro lugar, um exercício de maturidade democrática e isso foi um ganho que se deve a esta solução política”. Vai mesmo mais além, garantindo que os portugueses têm um “sentimento de alívio”, por tudo isto, ainda que “num quadro marcado por dificuldades objetivas”.

O que todos sentem, até os que não gostam do Governo, é que este Executivo ganhou o teste da estabilidade e da solidez. E que, no respeito pela diferença, os partidos políticos que dão apoio parlamentar ao governo têm sabido distinguir o que é estrutural do que é acessório.”

Sobre eventuais abanões de uma estrutura que se mostra frágil quando é a Europa que está em debate, o ministro Adjunto do primeiro-ministro adota a estratégia a que o Governo tem recorrido quando é confrontado com as fragilidades da “geringonça”: aponta o copo meio cheio, ou seja, as convergências e não as muitas divergências entre as partes. E sobre a Europa, em concreto, Cabrita diz que “não é um problema, é uma matéria muito clara. Todos compreendem que o país ganhou ao passar a ter um Governo que defende uma voz própria de Portugal no quadro europeu”. Há todo um mundo de posições mais radicais — com pedidos de rutura e até de referendo ao Tratado Orçamental europeu — em que o Governo prefere não concentrar o seu discurso nesta altura. “Se existiam dúvidas de que tínhamos um governo firmemente comprometido com o projeto europeu, essas dúvidas estão ultrapassadas”, garante o ministro. Estarão?