A única unidade pública que faz cirurgias de mudança de sexo, em Coimbra, precisa de criar um lista de espera específica para os utentes e tem de reforçar o tempo dedicado pela equipa cirúrgica, conclui a Inspeção-geral da Saúde.

A Inspeção-geral das Atividades em Saúde (IGAS) realizou uma auditoria à Unidade Reconstrutiva Génito-Urinária e Sexual (URGUS), do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC), a única pública em Portugal.

No seu relatório, a que a agência Lusa teve acesso a apenas uma parte, a IGAS aponta como insuficiências ou dificuldade da unidade a “inexistência de consulta específica no âmbito de cada especialidade para os utentes com disforia de género (transexualidade) “. Estes doentes encontram-se, segundo a IGAS, dispersos nos ficheiros clínicos da consulta externa de cada especialidade, “misturados com os restantes doentes”.

A IGAS detetou igualmente falta de lista de espera específica da URGUS, que permite ter dados em tempo real, bem como ausência de lista de espera cirúrgica específica (informática) dos utentes da unidade. A lista de espera cirúrgica, cuja criação a IGAS recomenda, pode evitar que os utentes da URGUS se encontrem integrados nas listas de espera das várias especialidades cirúrgicas.

A IGAS considera ainda insuficiente o tempo afeto à equipa multidisciplinar de cirurgia, “tendo em conta que os cirurgiões de ginecologia, urologia e cirurgia plástica desempenham as suas funções normais nos respetivos serviços a que pertencem, tendo muitas outras tarefas a seu cargo”.

Assim, a inspeção recomenda um reforço da equipa de cirurgia através do aumento do tempo afeto à unidade. É ainda aconselhado que seja dado mais tempo à equipa multidisciplinar da URGUS para discutir e avaliar os casos clínicos.

No excerto de relatório a que a Lusa teve acesso, a inspeção concluiu haver dificuldades de reunir todos os elementos da equipa da unidade para discutir e avaliar casos, o que só tem sido possível depois do horário normal de trabalho (uma vez por mês, das 21h30 às 00h00, de forma não remunerada).

Por outro lado, a equipa da unidade é unânime em que não existem constrangimento de bloco operatório nem dificuldades com compra e fornecimento de material clínico específico para cada tipo de cirurgia.

A IGAS recomenda também que seja alterado um ponto do regulamento da URGUS para clarificar que a unidade “recebe utentes referenciados” por serviços e entidades de todo o país (e não exclusivamente de origem interna, como está plasmado)”.

Em fevereiro deste ano, o jornal público noticiou que a IGAS estava a realizar uma auditoria à única unidade pública que realiza cirurgias de mudança de sexo, depois de algumas queixas terem sido apresentadas à Ordem dos Médicos por pessoas com disforia de género.