Na passada quarta-feira, Rúben Cavaco, jovem de 15 anos, foi brutalmente agredido em Ponte de Sor. Foi transportado de emergência para o Hospital de Santa Maria, em Lisboa. Esteve, até esta terça-feira, em coma induzido. Os seus agressores terão sido os filhos do embaixador do Iraque em Portugal. O crime está a ser investigado, mas os autores não podem ser acusados porque gozam de imunidade diplomática. Por enquanto, vão-se juntando as peças do puzzle, à medida que são desvendadas.

Os vários testemunhos vão permitindo, aos poucos, fazer uma reconstrução do que se terá passado, mas há algumas incoerências nas várias versões apresentadas.

Na quarta-feira à noite, Rúben e alguns amigos, todos adolescentes, juntaram-se no bar Koppus para “comer tostas”, como referiram os dois amigos que prestaram declarações à SIC. Também os irmãos Haider e Ridha escolheram aquele estabelecimento para conviver com amigos. A certa altura, Haider terá tirado uma perna das calças para mostrar a um dos seus amigos uma tatuagem que tem na coxa. Aqui, começam as discrepâncias na história.

Segundo o jovem iraquiano, o grupo de Rúben terá levado o gesto a mal e começou a agir de forma agressiva e a dirigir-lhe insultos que, por terem sido proferidos em português, Haider não compreendeu. Instalou-se um pequeno conflito, que levou os dois irmãos a saírem do bar.

Mas um dos jovens que estava com Rúben conta uma versão ligeiramente diferente. Em entrevista à SIC, diz que o momento em que Haider tirou as calças foi uma provocação que se devia ao seu estado de embriaguez e que ninguém do grupo respondeu à provocação. Mas o iraquiano insistia em gerar conflito e terá feito “gestos impróprios”. Conta ainda que um dos gémeos lhe deu um encontrão enquanto ia buscar uma bebida, mas que voltou a ignorar o desafio.

Haider diz que Ridha estava embriagado, mas que ele fez um teste de alcoolemia que tinha acusado apenas 0,58 (o limite máximo é de 0,50 para quem conduz), tentando deitar por terra a acusação de que teria agido por influência do álcool.

O amigo de Rúben Cavaco continua o relato dizendo que, quando alguns dos membros do grupo saíram do bar para ir fumar, terão sido vítimas de agressão por parte de um dos gémeos e diz, até, que a namorada de um amigo dele terá também sido agredida.

Este é um facto que outro dos amigos, que prestou também declarações à SIC, omite. O jovem admite que houve um pequeno confronto entre os dois grupos, mas que os rapazes de Ponte de Sor terão agido em defesa própria.

Explicou que os dois irmãos lhes fizeram uma espera fora do bar. Um deles estaria dentro do carro e o outro fora. Cruzando com a história contada pelos gémeos, Haider estaria dentro do carro e Ridha fora. Nessa altura, um dos gémeos ter-se-á dirigido “ao Rúben e ao Diogo”. Um dos dois rapazes — não especifica qual deles — estaria a gesticular normalmente enquanto falava e o irmão que o chamou, provavelmente Ridha, ter-lhe-á dado uma chapada nas mãos. Um outro membro do grupo dos jovens de Ponte de Sor terá agarrado as mãos do iraquiano que respondeu tentando agarrar-lhe no pescoço.

Haider também menciona um momento em que alguém lhe agarrou as mãos, mas diz que aconteceu ainda dentro do bar, aliás, terá sido esse o momento em que decidiram sair, e diz que um amigo seu terá tentado separar os dois grupos.

Ridha tem uma versão diferente da do jovem de Ponte de Sor. O rapaz de 17 anos diz que quando ia a entrar no carro foi rodeado por cinco ou seis pessoas que lhe dirigiram insultos em português. Um dos jovens quereria agredir o seu irmão, Haider, e Ridha tentava impedi-lo fazendo uma barreira, mas acabou por ser agredido.

Independentemente da versão, terá sido junto ao carro que começou a “pequena briga”, como caracterizou um dos jovens de Ponte de Sor, que levou à intervenção dos outros clientes do bar Koppus, que tentaram separar as duas partes.

Nessa altura, a GNR foi chamada ao local, e o grupo de Ponte de Sor desertou. Um dos amigos de Rúben Cavaco admite que fê-lo porque já tinha tido problemas com a justiça. Esse facto foi também mencionado pelos irmãos iraquianos, que tinham tido conhecimento de que o grupo de Rúben seria problemático.

Esse amigo de Rúben diz que depois da briga um dos irmãos iraquiano abandonou o local de carro e o outro terá ficado para trás.

Já os irmãos dizem que saíram ambos depois do sucedido, mas regressaram poucos minutos depois. Nessa altura já lá estava a GNR. Prestaram declarações. Na altura, os sinais de agressão na cara de Haider eram evidentes e Ridha tinha o nariz e um pé fraturado. As autoridades deram-lhes boleia até casa e aconselharam-nos a apresentar queixa no dia seguinte.

Foi depois disso que voltaram ao local onde tudo se passou, alegadamente para ir buscar objetos que terão caído durante a confusão, e acabaram por encontrar Rúben. Foi então que o agrediram brutalmente.

Rúben e o resto do grupo tinham ido para casa de um amigo. A certa altura, Rúben foi ter com a namorada. Às 3h45, mandou uma mensagem a um amigo a informar que iria dormir na casa dele e a dizer que estava a caminho para se encontrar com ele. O amigo voltou a tentar contactá-lo, mas não conseguiu.