A Taça de Portugal está aí e damos volta à cabeça para encontrar um homem para a “Questão do Forno Interno”. A primeira ideia até é Careca, o tal pintado por Sousa Cintra como meio Eusébio meio Pelé. Lembra-se? Pois bem, o brasileiro jogou no Sporting e depois no Famalicão. Como esta noite há Famalicão-Sporting, seria um convidado ilustre e convincente. Só que nenhum dos dois números de Careca funciona. Nem que lhe acrescentemos um 9 depois dos códigos internacional e regional. Bom, já estamos carecas de saber destas armadilhas. Amuamos (ligeiramente) e passamos (rapidamente) a página à frente. Folheamos o jornal desportivo Off-Side. Até que encontramos esta pérola na edição de 10 de fevereiro 1983.

Nome: António Augusto Gomes Sousa. Local de nascimento: São João da Madeira. Data de nascimento: 28 Abril 1957. Estado civil: casado. Carro: BMW. Clube: FC Porto. Clube anterior: Beira-Mar. Actividade anterior: Empregado de armazém. Alcunha: Solas. Melhor jogador: Rummenigge. Jogador de futuro: Maradona. Ídolo de infância: Eusébio. Ídolo internacional de infância: Cruijff. Equipa-ideal: Bento; Gabriel, Humberto, Eurico e Pietra; Carlos Manuel, Alves, Sousa e Costa; Nené e Gomes. A melhor recordação no futebol: ter deixado o Beira-Mar na 1.ª divisão. A maior decepção no futebol: não ter sido campeão nacional pelo Porto no primeiro ano. O melhor estádio: Santiago Bernabéu, em Madrid. Cançonestistas que mais aprecia: Julio Iglésias e Rui Veloso. Actor e actriz preferidos: Amália Rodrigues. O filme da sua vida: Jesus Cristo Superstar.

Sousa, António Sousa. Claro que sim, o herói do Beira-Mar. É ele o treinador naquela inédita conquista em 1999, na final com o Campomaiorense. É ele o autor de um golo numa final europeia (Porto-Juventus 1984). É ele o autor de um golo no Euro-84 (vs. Espanha). É ele uma série de coisas. É de entrevistá-lo. E começamos pelo ídolo em 1983, o alemão Karl-Heinz Rummenigge.

Boa noite Sousa, tudo bem? Daqui Rui Miguel Tovar, do Observador.
Diga Rui, diga coisas. Esteja à vontade.

Lembra-se do jornal Off-Side?
Isso já foi há um tempo. Muito muito tempo.

Pois é, tenho aqui um exemplar de 1983. A rubrica chama-se craques ao raio-x e o Sousa aparece a apontar Rummenigge como ídolo.
E está certíssimo [risos contidos]. No primeiro jogo do Euro-84, com a RFA, troquei de camisola com ele. Fui eu que lhe pedi porque tenho um sobrinho que o adorava. No final do jogo, aproximei-me dele e lá trocámos. Com a Espanha, não troquei com ninguém. Não sei bem porquê.

A euforia, não? Quer dizer, o Sousa acabara de marcar o primeiro golo de Portugal na história dos Europeus.
Apercebi-me do adiantamento do Arconada e meti-lhe a bola mais em jeito do que em força, ao contrário do que costumava fazer. Foi um golo excelente, espectacular, ao alcance dos grandes génios.

Apercebe-se do adiantamento do Arconada no momento?
Visionámos alguns jogos da selecção espanhola e deu para perceber que o guarda-redes costumava adiantar-se. No momento em que recebi a bola, olhei para a baliza e vi-o tal e qual como nos vídeos, pelo que optei pela colocação da bola em vez da força.

Como na final da Taça das Taças desse ano, com a Juventus?
Exactamente. Ao Tacconi, foi um tiraço de raiva. Ao Arconada, foi uma habilidade.

E como é que lhe sai uma coisa dessas?
Aquela selecção estava inspirada. Não era sou eu, éramos todos. A nossa moral estava em alta, havia satisfação e orgulho pelo que alcançáramos e queríamos mais. Aquela geração estava a cumprir um capítulo glorioso. Repare numa coisa: havia 10 jogadores do FC Porto entre os 22 convocados. E oito do Benfica! Só de pontas-de-lança tínhamos o Nené, o Jordão e o Gomes. O Manuel Fernandes ficou de fora, imagine lá a nossa qualidade. No meio-campo, havia artistas de todas as formas e feitios: Diamantino, Frasco, Carlos Manuel, Jaime Pacheco, Chalana… E o Shéu de fora, veja lá bem. Outro aspecto importante desse Europeu foi a adesão dos emigrantes. Parecíamos que estávamos a jogar em casa. Apareciam-nos aos montes, no hotel e nos treinos. Falar com eles era uma emoção, tanto para nós como para eles. Eram de facto outros tempos. Havia muito mais abertura da organização. Eles estavam lá no estádio com uma alma enorme e o prazer deles era muito maior do que qualquer português que estivesse cá.

Nos jogos particulares com a Jugoslávia e o Luxemburgo, o Sousa não é titular. Começa o Europeu e o Sousa no onze. Porquê?
Sim, tenho noção disso. No último jogo com o Luxemburgo, entrei bem na segunda parte e talvez isso tenha contribuído para essa alteração de que fala. Mas também lhe digo que fui falar com o senhor Fernando Cabrita, o seleccionador, e expliquei-lhe que não estava ali a brincar e tinha valor para ser titular. Quando me foi comunicado que ia jogar, fiquei satisfeitíssimo.

E porquê o número 13? Superstição?
Não, não, nada disso. Como não havia consenso nem acordo entre os jogadores e os números, fomos a sorteio. A mim, calhou-me o 13. O número do Eusébio no Mundial-66. Não é o meu número mas só por representar tanto para o país fiquei a achar-me com sorte. Ah é verdade, no final desse jogo com a Espanha, em que marquei o tal golo ao Arconada, não troquei de camisola com ninguém porque o Eusébio pediu-me a camisola.

A sua camisola, o número 13?
Sim senhor. Está a ver o Eusébio a pedir-me a camisola? Claro que dei, sem pestanejar.

Eusébio. Já o conhecia bem, não?
Como jogador, sim. Como sabe, nasci em São João da Madeira. Tinha uns nove/dez anos quando a Sanjoanense jogou na 1.ª divisão. E fui ver o jogo com o Benfica. Esse jogo foi anulado e a federação decidiu-se por uma repetição. Lembro-me perfeitamente, como se fosse hoje, que o treinador brasileiro Otto Glória disse que só voltaria a São João da Madeira depois de ir à Lua. A verdade é que o Benfica veio mesmo cá fazer o jogo de repetição e apanhou um ambiente daqueles. Jesus, aquilo era só panfletos com a frase da Lua do Otto Glória.

Quem ganhou?
O Benfica, 1-0. Nesse dia, jogou o Eusébio.

Depois, cruzou-se com o Eusébio no Beira-Mar.
Nem me diga nada. Quando nos disseram que o Eusébio ia jogar no Beira-Mar, nem acreditámos. Quero dizer, eu não acreditei. Só acreditei quando o vi a entrar no estádio.

E que tal?
Que maravilha. Aquilo foi uma experiência para a vida. Eu só tinha 19 anos e está a imaginar o que é jogar com o ídolo de infância? Não se explica, sente-se. E senti a sua dinâmica.

Conviviam juntos?
Não, nem por isso. Só nos estágios. De resto, cada um ia à sua vida nos dias de treino. O Eusébio morava no Hotel Imperador, em Aveiro. Eu morava em São João da Madeira.

O Eusébio ensinou-lhe muitas coisas?
Claro que sim. Primeiro que tudo, havia respeito da parte dele para todos nós. Tratava toda a gente por você, nunca conseguiu largar isso. Já no Benfica era o sr. Coluna, não é? No Beira-Mar, era também assim. Muito respeito. E muita admiração. Dele por nós. E, claro, nossa por ele. Ele é o monstro. Sagrado.

Naquele célebre jogo com Benfica, em que Eusébio recusa-se a marcar o livre, o Sousa tem alguma memória?
Então não tenho?! Mal o árbitro apitou a falta, ele saiu de cena a dizer ‘marca tu, Sousa, marca tu’. Foi, digamos, um gesto simpático. Quem sou eu para fazer uma consideração ou outra. Achei um gesto giro, simpático. Ele era do Benfica e não quis marcar aquele livre.

Foi o Sousa?
Fui, sim senhor.

Já aí se treinava livres?
Não muito, sabe. O Eusébio é que me puxou para esse lado. Eu já tinha um pontapé forte, era só uma questão de prática. Ele disse-me como bater a bola, como posicionar o corpo para fazer aquele efeito ou outro, como observar as movimentações da barreira e do guarda-redes. Ensinou-me muitas coisas. Às tantas, eu já treinava antes ou depois dos treinos, a tentar meter a bola no ângulo. Mais tarde, já com o Eusébio fora do Beira-Mar, era costume encontrarmo-nos durante as férias, no Algarve, ali em Montechoro e o Eusébio estava sempre a meter-se comigo: ‘Lembra-te que fui que te ensinei a bater livres’. Era uma risota.

Tem assim um livre mais perfeito que todos os outros?
Olhe, lembro-me de um ao Real Madrid, nas Antas. Na baliza, o Buyo. Meti uma trivela e a bola entrou com categoria. Foi o 1-0, resultado ao intervalo. Na segunda parte, o Real deu-nos a volta e 2-1. Tenho mais memória desse porque foi ao Real, tem mais mediatismo. Se me perguntar um livre que nem sei como fiz, aí tenho de dizer um em Faro, com o Farense, para a Taça de Portugal. Aquilo foi a uns 35/40 metros. Sem exagero, hã? Repito-lhe: nem sei como fiz aquilo. Dei uma sapatada na bola de tal maneira que ela entrou no lado do guarda-redes com uma força e uma colocação nunca vistas. Nessa tarde, ganhámos 2-0 e eu também marquei o segundo, de penálti.

Já está a falar do Porto. Como é que deu o salto de Aveiro para o Porto?
Pouco antes do final do campeonato 1978-79. O Porto está a caminho do bi e eu estou no Beira-Mar quando recebo a proposta do Porto. O Sporting também me quer, através do seu treinador Milorad Pavic, e até me oferece o triplo. No Porto, 100 contos por mês. No Sporting, 300. Como vê, o dinheiro não me move por aí além. A pressão também não. O Beira-Mar pressiona-me para aceitar a proposta do Sporting, que lhes covinha mais, mas eu queria ir para o Porto. E fui. O Pinto da Costa, na altura ainda chefe do departamento do futebol, telefonou-me, combinámos uma hora e um ponto de encontro em São João da Madeira e negócio fechado.

Porquê o Porto?
Por proximidade, sobretudo. A jogar no Porto, podia fazer a minha vida de sempre. Não tinha de levar a família atrás. A minha mulher era professora de educação física numa escola em São João da Madeira e continuou a sê-lo. Eu ia e vinha ao Porto para os treinos e, claro, jogos. Daí o Porto.

É no Porto que ganha a alcunha de Solas?
É, sim senhor. Foi o Fonseca, o guarda-redes.

Solas, então porquê?
Faça lá as contas: sou de São João da Madeira, calçado e tal. Olhe, deu solas.

Aaaah, ’tá boa. Nessa sua primeira época no Porto, é o Sporting o campeão nacional. Isso mói?
Então não mói?! Mói e muito. Era o ano do tri, estávamos bem lançados para isso mas aquele empate em casa com o Sporting estragou tudo.

Um-um?
Sim senhor. O nosso golo é um penálti do Oliveira, defendido pelo Vaz, com recarga de Romeu. Se ganhássemos, ficávamos com uma boa vantagem. Como empatámos, aquilo ficou equilibrado. Na semana seguinte, empatámos 0-0 na Póvoa e foi um desastre. O Sporting aproveitou e foi campeão nacional.

Sporting, esse, que seria o próximo clube do Sousa.
Exacto. Saí do Porto para o Sporting em 1984.

Foi o Sousa e o Jaime Pacheco para o Sporting e, acto contínuo, o Porto foi buscar o Futre ao Sporting ou o contrário?
Antes de mais, foram tempos marcantes. Como esquecer tudo isso? Faz parte da história.

Como é que dois jogadores saem do Porto para o Sporting, assim de repente?
O João Rocha, presidente do Sporting, era muito interventivo e criativo. O seu amor pelo Sporting esteve sempre à vista de toda a gente. Por isso, queria sempre o melhor para a equipa. Nesse Verão, abordou primeiro o Jaime Pacheco. Depois, eu.

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Jornal desportivo Off-Side, edição de 10 de fevereiro 1983, rubrica Os Craques ao Raio X

Outros tempos, imagino.
Sim, não havia telemóveis nem empresários. O contacto era directo, por telefone. Fiquei a pensar na proposta.

Mas como? Afinal, o FC Porto acabara de chegar à primeira final europeia e o Sousa até marcara o golo à Juventus.
É impossível esquecer-me disso. Foi um remate de raiva, cheio de intenção. Foi o empate, e aí julgávamos que podíamos dar a volta ao marcador. Tal não aconteceu.

O Porto estava em grande e o Sousa saiu?
Havia muitas pressões.

Então?
Calma, pressões boas. De amigos do peito. De um e do outro lado. Às tantas decidi-me pelo Sporting.

E o Porto?
O presidente Pinto da Costa quis que eu ficasse, mas eu queria mudar para o Sporting.

Era dinheiro?
Não, nada disso. Faltava-me um ano de contrato com o FC Porto e aleguei pressões psicológicas para rescindir. Na altura podia fazer-se isso. O João Rocha estava apostado em fazer uma grande equipa e quis fazer parte desse projecto. Nesse Verão, o Sporting contratara o Jaime Pacheco e ainda o Damas, que voltava do Portimonense. Dos juniores subiram à primeira equipa Litos e Fernando Mendes. Estava ali uma equipa cheia de força, com boas perspectivas de sucesso.

Nesses dois anos no Sporting, do que se lembra mais?
Do primeiro dia em Alvalade, cheio de adeptos à porta da 10-A. Quando entrámos eu e o Jaime Pacheco…

Não foram apresentados?
Isso é uma modernice. Na altura, o primeiro dia dos trabalhos marcava a nossa apresentação. Chegámos lá e ouvimos aplausos e mais aplausos.

Ainda chegou a treinar-se com o Futre?
Não, ele foi logo para o Porto. Foi a resposta de Pinto da Costa.

E o João Rocha?
Eish, não me lembro. Só me lembro do seu amor pelo Sporting e dos seus cozinhados.

Como assim?
Quando assinei pelo Sporting, foi assim: entrei no meu carro no Porto e desci até Lisboa. No Estádio José Alvalade esperava-me um homem do Sporting que me levou a casa do presidente. Aí, jantei uma parrillada de marisco.

Feita pelo João Rocha?
Sim senhor, era um excelente cozinheiro e um anfitrião melhor ainda. Aquele jantar estava bem servido, bem temperado. Falámos sobre tudo e mais alguma coisa antes de acertamos a transferência.

Assim, fácil?
Assim mesmo. [Em 1984, Sousa diz que o único dirigente portista com quem falou foi Teles Roxo. “A determinada altura aconselhou-me a ir para o Sporting, alegando que o FC Porto não estava a atravessar um grande momento financeiro. Dissera-me ainda que a única forma de resolver o problema era ficar no clube para que o FC Porto me mandasse para o estrangeiro. Perante isto, respondi-lhe que não era peixe enlatado para exportação e, por isso, fui para o Sporting.”]

Como foram os tempos em Lisboa?
Gostei de viver em Lisboa. Levei mulher e filhos.

Mas havia diferenças para o Porto?
Claro que sim, são dois mundos. Já aí o FC Porto era uma máquina trituradora de resultados. A vitória era uma obrigação do dia-a-dia. Se perdêssemos, íamos dormir para casa e ficávamos uma semana a curar a derrota. Em Lisboa, era diferente. Em caso de derrota jantava-se fora e entrava-se em discotecas. O insucesso não causava revolta no grupo nem no adepto comum. Isso faz a diferença.

Fazia assim tanta diferença também nas cidades?
Em Lisboa, as pessoas pensam mais em si. No Porto, as pessoas são mais abertas, mais do convívio. Basta dizer que não conheci os meus vizinhos em Lisboa e joguei dois anos no Sporting.

Vivia onde?
Ali na Quinta do Lambert. Podia ir a pé para o treino.

Lembra-se de algum jogo especial no Sporting?
Salta-me logo à memória o 3-0 ao Athletic Bilbao, para a Taça UEFA. Tínhamos perdido 2-1 no País Basco e demos a volta à eliminatória. Fiz uma assistência e marquei o 3-0, num remate de fora da área.

E como foi o regresso às Antas?
Deixei os jogadores do Sporting entrar e depois entrei sozinho em campo para ouvir todos os assobios. Mal o jogo começou, nem percebi mais nada. Ficou 0-0.

O Sporting nada ganhou nesses dois anos do Sousa e do Jaime Pacheco.
É verdade [o Porto até é bicampeão].

Volta ao Porto em 1986. Porquê?
Queria vencer, estava com saudades de ganhar. O João Rocha ofereceu-me muito dinheiro para renovar por três anos, mas não quis. Como vê, não me movia por dinheiro. Quando fui para o Sporting foi com o interesse de triunfar numa outra equipa. Como tal não aconteceu, voltei ao FC Porto. Que me acolheu de braços abertos.

A tempo ainda de participar em quatro finais internacionais.

É verdade. Mais quatro a juntar àquela da Taça das Taças-1984.

Desculpe interrompê-lo mas ainda agora revi o seu festejo no golo à Juventus é em, tudo semelhante, aos festejos do golo do seu filho na final da Taça de Portugal-1999.
Quem diria, a mesma alegria 15 anos depois. São momentos marcantes. São tão poucas as equipas com o seu nome no palmarès da Taça de Portugal que incluir lá o Beira-Mar é uma honra. Ainda que tenha dito, nessa altura, que preferia ter ficado na 1.ª divisão do que ganhar a Taça no Jamor. Agora, já não penso assim. Ganhar a Taça é um marco na história de todos.

O Beira-Mar tinha descido?
Três semanas antes da final, empatámos 4-4 com o Salgueiros. Estivemos a ganhar 1-0, 3-2 e 4-3. Perto do fim, sofremos o 4-4 e descemos à 2.ª divisão. Quem se salvou foi o Alverca, então presidido pelo Luís Filipe Vieira. De imediato, dei quatro dias de folga aos meus jogadores e comecei a preparar a final. Foram três semanas impossíveis. Conviver com aquela realidade da descida de divisão foi um tormento.

Mas o Sousa até já tinha descido de divisão pelo Beira-Mar, como jogador.
Sim, mas aí era muito novo e, se calhar, não compreendia totalmente as coisas. Vive-se de outra maneira quando se tem 18/19 anos. Na época seguinte, subimos e tudo voltou à normalidade. Ali, foi diferente. Viver a descida de divisão e depois a final da Taça.

Quem tem um filho assim…
O Ricardo. Que golo belíssimo. Ainda hoje me lembro bem. Livre ali do meio-campo, a bola vai para ele, fura entre dois defesas e atira, mais em jeito do que em força, à entrada da área. A bola entra junto ao poste. Entrei em campo e, como já disse, festejei como o golo à Juventus. Há cenas que fazemos e nem damos conta. Se não houvesse imagens, eu até o questionaria pela comparação. Vistas as imagens, pergunto-me ‘o que me deu na cabeça para entrar em campo a festejar daquela forma’. Foi divertido.

Quem era o presidente da República?
Huuuum, essa é fácil: Jorge Sampaio. Ele mesmo.

O que sentiu quando lhe entregou a Taça no cimo daquelas escadas?
Nesse ano, a cerimónia foi cá em baixo, no relvado. O sentimento é sempre de dever cumprido, de uma alegria enorme. Levar o Beira-Mar à conquista da Taça de Portugal é um feito inédito. Ainda hoje. Por aí também se vê a grandeza do momento. Isso e o chegar a Aveiro. Nunca vi tanta gente lá como naquele dia. Tudo à nossa espera. E nós, completamente ansiosos por chegar à cidade. Acho que nunca uma viagem Lisboa-Aveiro demorou tanto. Olhei para o relógio umas mil vezes, recebi mensagens de apoio mais telefonemas de gente eufórica, fora de si. Essa experiência é única.

É a sua maior alegria?
Como treinador, sem dúvida. Na vida desportiva, só a final da Taça dos Campeões é que a ultrapassa.

1987, Bayern.
Isso mesmo. Foi uma luta impressionante. Contra o azar. Primeiro, o Lima Pereira lesionou-se. Depois, foi a vez do Gomes. Assim, de repente, ficámos sem os capitães. O que é isso para nós? Nós, Porto, éramos um todo e isso provou-se autenticamente em Viena. Jogámos como um todo. Foi fantástico, aquela vitória.

Na ausência do Gomes, quem vestiu o número 9 foi o Sousa.
Era o único número livre. O 8 era do Madjer e o 10 do Futre. Sobrou o 9. Lá fui.

Por falar em luta impressionante, imagino que a final da Taça Intercontinental também tenha sido um daqueles jogos para a história.
Nem me lembre, foi o pior jogo da minha vida. Em condições atmosféricas, digo. Começámos o jogo com luvas e, aos cinco minutos, já todos nós as tínhamos atirado para o banco. Menos o Mlynarczyk, claro. Aliás, ele devia ser o único a curtir aquele frio [risos fortes]. Era melhor jogar com as mãos ao ar livre do que metidas dentro de luvas. Que sofrimento que frio, que jogo. Aquilo era pontapé para a frente e pouco mais. Quem tivesse mais coração, mais determinação e mais garra, ganhava. Fomos nós, mais uma vez. Ainda por cima, com prolongamento.