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Onde anda o Diabo? PSD às voltas para não mudar discurso

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O Diabo não chegou, mas direção do PSD não deverá mudar o discurso. As notícias são boas, mas foram conseguidas à custa das exportações. E essa sempre foi a receita da direita, dizem.

CARLOS BARROSO/LUSA

Os ventos estão a soprar a favor do Governo. A maré favorável começou na semana passada, com o Instituto Nacional de Estatística a divulgar dados positivos ao nível da descida do desemprego e da subida das exportações, e continuou esta semana: Bruxelas deu luz verde à proposta de Orçamento do Estado para 2017, sem pedir alterações ou medidas adicionais, disse que Portugal deverá mesmo sair do procedimento por défices excessivos este ano; decidiu não sancionar o país com a suspensão dos fundos comunitários. E, surpresa das surpresas, a estimativa rápida do INE revelou que a economia cresceu 0,8% no terceiro trimestre deste ano, alcançando o melhor resultado dos últimos três anos e o melhor resultado de toda a zona euro. Então, onde anda o Diabo invocado por Pedro Passos Coelho, que chegaria em setembro?

Não anda, nem parece prestes a chegar, mas não é por isso que o PSD vai mudar a narrativa de que “é a economia que vai provar que o modelo do PS não funciona”. Só que para isso tem que dar algumas voltas e afinar os detalhes do argumento. A direção do PSD reconhece que as boas notícias “são sempre melhor para o país do que as más” mas lembra que o bom resultado do crescimento económico do terceiro trimestre foi acelerado pelo crescimento das exportações, que aumentaram 6,6% face ao ano passado, e não pelo investimento e o consumo interno — que era a fórmula mágica dos socialistas.

Pedro Passos Coelho passou esta quarta-feira no terreno. Primeiro, em Oeiras, depois, na Ericeira, tendo sido várias vezes questionado pelos jornalistas sobre os bons ventos que sopram a favor do Governo. “Não podemos senão mostrar satisfação quando as coisas correm melhor do que aquilo que se esperava”, começou por dizer, notando depois que o maior crescimento de julho a setembro se deveu ao maior crescimento das exportações e menor das importações. “Isso é bom” porque “o país só pode crescer sustentadamente para futuro se o fizer alavancado pelas exportações e não baseado no consumo interno, como o Governo defendia”. E o PSD “sempre disse que as exportações tinham de ser o motor do crescimento económico e o investimento tinha de ser o fator de consolidação desse crescimento”, sublinha uma fonte social-democrata ao Observador.

Os dados da estimativa rápida divulgados pelo INE esta terça-feira mostram que economia cresceu 0,8% entre julho e setembro, e 1,6% em relação ao mesmo trimestre do ano passado, o que torna a meta de crescimento do Governo para o fim do ano alcançável. O Governo previa um crescimento de 1,8% em 2016, tendo depois revisto em baixa para 1,2%, em linha com a estimativa da Comissão Europeia. É essa meta que agora espera alcançar, mas que o PSD lembra que, mesmo assim, fica abaixo do crescimento de 1,6% conseguido no final de 2015.

Antes, já o líder parlamentar do PSD, Luís Montenegro, tinha ensaiado esse discurso: os números surpreendentes do crescimento económico do terceiro trimestre são uma “boa notícia para o país”, e “é positivo”, mas é preciso ir à raiz e perceber os porquês. “Queremos ver os dados desagregados e perceber se há uma base que possa sustentar um crescimento económico superior ao que é proposto pelo próprio Governo”, disse Montenegro, evidenciando que é preciso ver se há ou não condições para atrair e estimular o investimento, porque só assim se poderá “de forma sustentada marcar um ciclo de crescimento económico que seja duradouro”.

Estes números mostram que a economia no terceiro trimestre andou bastante melhor daquilo que era a expetativa e daquilo que resultaria da estratégia que o Governo decidiu”, disse Passos esta quarta-feira, insistindo na ideia de que Portugal está “a crescer por razões diversas daquelas que o Governo previu”.

Eis a afinação discursiva do PSD: o Diabo não vem por causa do atual Governo, o Diabo vem se o Governo insistir no modelo económico de crescimento por via da procura interna. Isto quer dizer que o Governo está a mudar e a “emendar a mão” como várias vezes Passos Coelho e outros dirigentes sociais-democratas sugeriram que fizesse? Nem por isso. “É cedo para dizer, mas se isto servir para o Governo perceber que deve emendar a mão, melhor”, ouve o Observador de uma fonte social-democrata. O rótulo de “melhor crescimento da zona euro” com que Portugal agora ficou na sequência dos resultados do terceiro trimestre deste ano baseia-se apenas numa estimativa rápida do INE, pelo que todos concordam que é preciso esperar por “dados mais concretos” e perceber se foi ou não um caso pontual.

Entre os sociais-democratas ouvidos pelo Observador, reina a lógica de que não vai haver mudança de discurso por causa de resultados de uma estimativa rápida do INE relativos a um trimestre, porque o fundo da questão se mantém. António Leitão Amaro, vice-presidente da bancada social-democrata e responsável pela área financeira, afirma que a forma de medir o sucesso do modelo de um Governo é: primeiro, ver se Governo cumpre as metas; depois, ver se o modelo e a receita que passou funciona; finalmente, verificar se o desempenho é melhor do que o do ano anterior. “A meta não pode ser não ter um novo resgate, a meta tem de ser melhorar em relação ao ano anterior”, diz, sublinhando que o crescimento económico em 2015 foi de 1,6% e que, mesmo com o crescimento de 0,8% no terceiro trimestre, a melhor perspetiva do Governo é chegar ao final do ano com um crescimento de 1,2%.

“Se antes íamos de mota, agora vamos de bicicleta, devagarinho, devagarinho”, diz Leitão Amaro. É tudo uma questão de expectativas e de ambição. “Se a expectativa for baixa, se for apenas não chumbar, é uma coisa, mas se a ambição for fazer melhor do que no ano passado, é outra coisa diferente”, sublinha.

Luz verde ao Orçamento, uma questão de expectativa e ambição

No dia em que se soube dos dados favoráveis do crescimento económico, soube-se também que o Conselho de Finanças Públicas alertava para o risco de incumprimento do Orçamento do Estado, que o Presidente da República preferiu desvalorizar, olhando para o copo meio cheio. Esta quarta-feira o copo encheu: Bruxelas deu luz verde ao Orçamento do Estado para 2017 sem pedir alterações nem medidas adicionais, assim como decidiu não suspender os fundos comunitários e manteve-se confiante de que Portugal sairá este ano do procedimento por défices excessivos.

No comunicado que emitiu sobre o Orçamento português, a Comissão Europeia carimbou o documento mas sublinhou que pode estar em risco de incumprimento. Quer isto dizer que o orçamento passou, por pouco, no crivo de Bruxelas, e que as autoridades europeias convidam o Governo a tomar medidas, se for necessário, para garantir que a meta do défice e a redução do défice estrutural ficam em linha com o acordado.

Boas notícias, mas nada que não fosse “expectável”, disse Passos Coelho esta quarta-feira. Tudo depende da ambição e das expectativas, dizem os sociais-democratas. “Nenhum Orçamento foi até agora chumbado em Bruxelas, era o que faltava se este fosse”, diz fonte social-democrata, sublinhando que a ambição não pode ser apenas não chumbar e não andar para trás. Deve ser fazer melhor do que antes, “e isso não está a acontecer. Não andámos para trás, ótimo, mas também não estamos a andar para a frente”, afirma.

A verdade é que o próprio PSD reconhece que o Governo do PS sempre alinhou as expectativas por baixo, e foi “mestre nisso”, e o PSD sempre se recusou a acreditar que, por este caminho, o Governo conseguiria cumprir as metas do défice e do crescimento económico. Em agosto, na última reunião da bancada parlamentar antes das férias, Passos Coelho diria, à porta fechada e num registo informal, que em setembro “viria o Diabo”, e pouco depois, defenderia que o Governo não ia conseguir chegar ao fim do ano com um défice menor que o de 2015, ou seja 3%. Poderá não ser bem assim.

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Sebastião Bugalho
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Rui Rio homenageia Sá Carneiro falando de piscinas municipais e dos seus processos como arguido na Câmara do Porto e ninguém se levanta para sair da sala. Foi uma vergonha. Repito: foi uma ver-go-nha.

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