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O “sonho” estava a 30 quilómetros. Mas “acabou esta madrugada”, nas palavras do presidente da Associação Chapecoense, Plínio David de Nes Filho, depois do trágico acidente de aviação que vitimou pelo menos 71 pessoas, do total de 77 passageiros e tripulantes que seguiam a bordo do avião quando caiu e se partiu em três, já perto do aeroporto José María Córdova, em Medellín, Colômbia. No interior do aparelho seguia toda a delegação do clube de futebol brasileiro Chapecoense, que se preparava para ir jogar a final da Taça Sul-Americana, frente ao Atlético Nacional da Colômbia. Assim como duas dezenas de jornalistas brasileiros, que iriam fazer a cobertura do jogo de futebol.

Sobreviveram seis pessoas. Na verdade sete, mas o sétimo passageiro acabaria por não resistir aos ferimentos e morreria a caminho do hospital. A tragédia está a chocar o Brasil e o mundo, sobretudo o mundo do futebol, onde a solidariedade está a ser manifestada das mais diversas formas.

O que se sabe até agora?

O desvio

A equipa brasileira de futebol viria a mudar o plano de viagem por imposição da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC). O plano inicial passava por alugar um avião a partir de São Paulo (do aeroporto de Guarulhos, mais concretamente), direto para Medellín, mas o regulador de aviação civil não autorizou a aterragem naquela cidade colombiana, uma vez que o avião que os transportava pertencia à companhia aérea boliviana Lamia, e alegadamente os acordos entre os serviços aéreos dos dois países não permitiam aquela operação.

Assim sendo, a delegação do clube de futebol brasileiro fez uma paragem na Bolívia onde se viu obrigada a fretar uma aeronave, que partiu esta segunda-feira do aeroporto de Viru Viru, em Santa Cruz de la Sierra, com destino a Medellín. Foi aí, quando sobrevoava La Ceja, a apenas 30 quilómetros do destino, que o avião terá perdido o contacto com a torre de controlo e, depois de o comandante ter dado sinal de emergência por uma suposta “avaria técnica”, tentou uma aterragem de emergência naquela zona montanhosa.

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O avião partiu-se em três partes mas não explodiu totalmente como costuma acontecer nos acidentes de aviação deste género. De um total de 77 pessoas a bordo, nove tripulantes e 68 passageiros, sete pessoas sobreviveram ao impacto — sendo que uma delas, pelo menos, não resistiu aos ferimentos.

Os motivos

Desconhecem-se ainda as causas do acidente, mas as principais teorias apontam para o facto de a aeronave ter ficado sem combustível ou ter sofrido problemas elétricos. As duas caixas do avião já foram entretanto encontradas, e em “perfeito estado”, segundo a Aeronáutica Civil da Colômbia, pelo que deverão fornecer mais informações sobre os motivos que levaram à falha técnica.

Segundo a imprensa brasileira, que cita Alfredo Bocanegra, diretor da Aviação Civil colombiana, todos os registos da comunicação estabelecida entre o avião e os funcionários de aviação da Bolívia sugerem falha elétrica. Mas há outros testemunhos, nomeadamente de um dos sobreviventes, que apontam para a o facto de a falta de combustível ter desencadeado o problema.

Outra das possibilidades que está a ser avançada é a de que o avião possa ter sido forçado a dar voltas ao aeroporto por causa de um pedido de prioridade de outra aeronave, que teria declarado estado de emergência.

A empresa aérea que transportava a delegação é a Lamia, da Bolívia, e , segundo a Aviação Civil boliviana, a aeronave foi inspecionada no aeroporto de Viru Viru, em Santa Cruz de la Sierra, antes do embarque da Chapecoense, e não apresentou problemas.

As vítimas: 68 passageiros brasileiros, 9 tripulantes bolivianos

Inicialmente falou-se em 81 pessoas a bordo, entre passageiros e tripulação, mas, com o avançar da investigação, a Unidade Nacional para a Gestão de Risco de Desastres da Colômbia informou que, após confrontar os dados, “o total de pessoas que viajavam para a Colômbia era de 77 passageiros e não 81, como inicialmente aparecia nos registos”. Ou seja, depois de uma avaliação mais cuidada às listas de embarque dos passageiros no Brasil, na Bolívia e na Colômbia, chegou-se à conclusão de que “apenas embarcaram no voo 68 passageiros de origem brasileira e nove membros da tripulação de origem boliviana”.

Das 77 pessoas a bordo, morreram 71: todos os corpos já foram resgatados. Seis pessoas sobreviveram e pelo menos duas estão em estado classificado como muito crítico. De acordo com informações da Unidade Nacional para a Gestão de Risco de Desastres da Colômbia, as entidades de socorro deram por terminada a fase de recuperação de vítimas.

Apesar das largas dezenas de mortos, o facto de ter havido sobreviventes foi louvado por todos. O presidente da câmara de Medellin, Frederico Gutiérrez Zuluaga, elogiou, mesmo, a atuação célere das equipas de resgate: foi “graças a eles que os sobreviventes foram transportados para os hospitais mais próximos. No meio de todo esta sombra encontrar vida é muito importante”, disse.

Entre os 68 passageiros, duas dezenas eram jornalistas, outras duas dezenas eram jogadores da Associação Chapecoense, e os restantes faziam parte da equipa técnica. Todos de nacionalidade brasileira. Fora os membros da tripulação, estes naturais da Bolívia. O processo de identificação de todos os corpos das vítimas deve demorar cerca de três dias.

O Presidente do Brasil, Michel Temer, decretou três dias de luto nacional.

Os sobreviventes

Segundo a Aviação Civil colombiana, apesar dos 71 mortos, seis pessoas sobreviveram à queda do avião: três jogadores, Follmann, Neto e Alan Ruschel; um jornalista da Rádio Oeste Capital, Rafael Henzel; e dois tripulantes, Jimena Suárez e Erwin Tumiri.

A imprensa brasileira dá conta de que o guarda-redes suplente Jackson Follmann foi sujeito a uma intervenção cirúrgica e ficou com uma perna amputada, enquanto o lateral Alan Ruschel está em estado grave, mas estável, tendo sofrido uma fratura numa vértebra da coluna, o que envolve o risco de ficar paraplégico. O defesa central Helio Hermito Zampier Neto foi o último a ser resgatado com vida do local do acidente e também chegou em estado grave ao hospital, com um traumatismo craniano e fraturas expostas.

Um outro jogador, o guarda-redes Marcos Danilo Padilha, foi também resgatado com vida, tendo a Cruz Vermelha divulgado inicialmente uma lista com o nome do atleta entre os sobreviventes, mas não resistiu aos ferimentos e morreu a caminho do hospital.

A solidariedade desportiva

A Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol) cancelou aquele que iria ser o jogo decisivo para apurar o vencedor da Copa Sul-Americana e o Atlético Nacional da Colômbia, que iria disputar a partida com os brasileiros da Chapecoense, pediu à organização que o troféu fosse entregue ao clube vitimado pela tragédia. “Da nossa parte, e para sempre, a Chapecoence é campeã da Taça Sul-Americana 2016”, escreveu o clube na sua página na internet.

A partida jogar-se-ia esta quarta-feira e o clube colombiano já anunciou que fará uma homenagem à Associação Chapecoense no horário em que o jogo iria ter lugar.

Entretanto, vários foram os clubes brasileiros que anunciaram que vão emprestar jogadores de forma gratuita para a Chapecoense poder prosseguir o campeonato para o ano. O Corinthians, o São Paulo, o Santos e o Palmeiras fazem parte do leque, sendo que o Palmeiras, que no domingo passado se sagrou campeão, pediu já à Confederação Brasileira de Futebol para disputar a última jornada do campeonato com a camisola da Chapecoense, igualmente em tons de verde.

É que no último domingo o Palmeiras sagrou-se campeão depois de uma vitória (por 1-0) precisamente frente ao Chapecoense.

A mobilização dos clubes brasileiros foi também no sentido de pedir à Confederação Brasileira de Futebol que o clube do estado de Santa Catarina seja impedido de descer de divisão nas próximas três épocas, independentemente da sua posição na tabela.

De resto, foram várias as mensagens de solidariedade, nomeadamente da parte de Cristiano Ronaldo, que se mostrou, via Facebook, “chocado com a tragédia que aconteceu ao Chapecoense”. E “solidário com as famílias e amigos de todas as vítimas”. “Um abraço para o clube e para todo o futebol brasileiro”, escreveu. Também o treinador do Sporting, Jorge Jesus, que era amigo pessoal do treinador brasileiro Caio Júnior, que morreu no acidente, mostrou-se muito consternado com a tragédia. “Triste não só pelos desportistas, mas também pelo treinador, é um grande amigo meu, fez um estágio comigo em Portugal, estive várias vezes no Brasil com ele”, recordou.