O novo responsável da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) em Portugal afirmou este domingo que a iniciativa brasileira “Fome Zero” inspirou várias agências da ONU e outros países no combate à fome e, de forma geral, o projeto brasileiro obteve êxitos.

“O trabalho das últimas décadas no Brasil (no combate à fome) foi, de facto, uma fonte de inspiração muito importante para o conjunto das agências da ONU”, declarou à Lusa Francisco Sarmento, representante da FAO em Portugal e junto da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

O “Fome Zero” foi uma iniciativa governamental brasileira, criada em 2003, composta por vários programas para o combate à fome e à miséria no Brasil durante o Governo do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2003 a 2011). Desde 2012, o brasileiro José Graziano da Silva, um dos responsáveis pela implementação do ‘Fome Zero’ no Brasil, é o diretor-geral da FAO.

“Eu fiz uma análise há seis anos sobre o tema, no âmbito de uma avaliação da cooperação da FAO com o Brasil, e verifiquei que os programas desenvolvidos pelo país influenciaram fortemente, não só a realidade brasileira, mas também os próprios programas da FAO” desde a década de 2000, disse Sarmento, que assumiu o cargo de representante da FAO em dezembro.

O responsável afirmou que uma das agências que se inspirou no ‘Fome Zero’ foi o Programa Alimentar Mundial (PAM), que sempre apoiou, por exemplo, os programas de alimentação escolar e “passou a fazê-lo com uma outra abordagem”.

“[O PAM] envolveu as populações locais no fornecimento de alimentos para a alimentação escolar, algo que foi testado no Brasil e que deu certo em alguns locais, mas em outros não”, referindo que há sempre especificidades que devem ser observadas.

“O padrão cultural comum, sendo o Brasil o país mais africano das Américas, facilitou a transposição para África de ensinamentos, de experiência e ainda o desenvolvimento de laços de confiança”, disse, referindo-se a muitos Governos africanos que resolveram implementar medidas inspiradas no “Fome Zero’.

A iniciativa brasileira também teve o seu impacto e influenciou medidas de combate à fome nos países da CPLP, de acordo com Francisco Sarmento.

“Penso que a nossa análise tem de ser feita de um ponto de vista mais macro, pois até a tentativa de implementação do ‘Fome Zero’, o mundo estava muito carente de uma liderança política que colocasse a fome no centro do processo do desenvolvimento e isso aconteceu, de facto, no Brasil”, disse.

Segundo Sarmento, os programas desenvolveram-se com razoável sucesso no Brasil, já que 30 milhões de pessoas deixaram de estar no mapa da fome e, ao ver a trajetória história do país, considerou que “foi positivo e talvez tenha sido um grande legado”.

“Temos de ter em conta que o Brasil é quase um continente e os programas do ‘Fome Zero’ podem ter dado certo num estado e noutro não, podem der dado mais certo num município e do que noutro”, indicou, referindo que isto também pode acontecer nos outros países que se inspiraram na iniciativa.

“A implementação do conjunto de programas do ‘Fome Zero’ deveu-se a uma prioridade política do tema no Brasil. Se essa prioridade política deixar de existir, naturalmente, podemos ter algum receio de que a iniciativa possa mudar de rumo ou eventualmente perder alguma da força que tinha. Isso, só o futuro dirá”, avaliou.