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Não há quem, nos últimos anos, já tenha conduzido um Porsche ou, pelo menos, observado atentamente o seu interior, que não tenha reparado que a chave de ignição, que coloca em marcha o motor, tem de ser inserida à esquerda do volante. Ou seja, no local exactamente oposto ao que habitualmente se encontra na esmagadora maioria dos automóveis.

Tudo terá começado em 1951, ano da primeira participação da Porsche nas célebres 24 Horas de Le Mans, então por iniciativa do seu importador francês, que decidiu inscrever um 356 SL na mítica corrida de resistência. À época, os pilotos não iniciavam a prova dentro dos carros, alinhados na diagonal de um dos lados da recta da meta, respeitando a ordem dos tempos obtidos nos treinos. Antes, e ao sinal de partida, tinham de correr do lado oposto da referida recta, atravessar a pista, entrar nos seus bólides, que os aguardavam com o motor desligado, accionar a ignição e partir rumo à maratona de 24 horas.

Como se imaginará, este sui generis procedimento de partida acabava por ser fundamental para ganhar posições na dianteira e conquistar um bom lugar no início da corrida. E foi a análise desse elemento que levou os engenheiros da Porsche a trocar a posição da ignição, colocando-a à esquerda do volante.

As vantagens eram óbvias: uma vez ocupado o seu posto, o piloto podia rodar a chave com a mão esquerda e, ao mesmo tempo, pressionar a embraiagem e, com a mão direita, engrenar a primeira velocidade, estando assim pronto para arrancar. Uma solução que permitia ganhar segundos preciosos, não tanto pelo ganho temporal em si mesmo, mas pelo momento decisivo em que tal ocorria.

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Ao que parece, terá sido logo em 1952, apenas um ano depois da sua estreia em Le Mans, que a Porsche decidiu trocar a posição da ignição nos seus carros de corrida, de forma a desfrutar desta pequena vantagem competitiva face aos seus rivais. E se é certo que não terá sido devido apenas a esse detalhe, a verdade é que, sobretudo ao mais alto nível, os pormenores tendem a fazer a diferença e, hoje, a Porsche continua a ser uma das marcas mais bem-sucedidas no automobilismo, no seu palmarés se incluindo nada menos do que 18 vitórias na incomparável maratona francesa.

Conhecendo-se o ADN desportivo da Porsche, é fácil concluir que daí à adopção da ignição à esquerda também nos modelos de produção em série tenha sido um passo. Mas desenganem-se os que possam pensar que todos os modelos da marca, de então para cá, passaram a exibir esta característica.

Durante bastante tempo, foi ao 911 que coube perpetuar esta tradição (logo na sua primeira geração já exibia a ignição à esquerda do volante, o que se manteve até hoje), pois propostas como os 914, 924, 944 e 968 tinham o canhão de ignição montado à direita do volante (porventura por terem sido desenvolvidos em conjunto com modelos do Grupo Volkswagen), e o próprio 917, um dos automóveis de competição mais célebres de todos os tempos, contava com um botão no tablier para colocar em marcha o motor.

Provavelmente com o intuito de alardear a sua propalada desportividade, o facto é que, com o passar dos tempos, a marca de Estugarda foi introduzindo este atributo em outros modelos de produção em série, e hoje não há Porsche que saia da fábrica que não tenha a ignição do lado esquerdo do volante. Excepção feita, claro, às versões com volante à direita, destinadas aqueles países em que se conduz do lado ‘errado’ da estrada, e em que a ignição está, pois, à direita do volante…

Outra curiosidade de todos os actuais Porsche é não existir um botão que substitua a chave na sua função de accionar o arranque do motor, mesmo nos modelos equipados com um sistema de acesso “mãos-livres”, daqueles que permitem abrir as portas através da simples detecção da presença da chave electrónica dentro de um raio de acção determinado. É sempre necessário introduzir a chave na ranhura, e rodá-la ligeiramente no sentido dos ponteiros do relógio – excepção feita para o Panamera. Um gesto que remete para as origens do automóvel, e que poderá ser considerado como um daqueles pormenores que marcam o carácter das marcas mais prestigiadas.