É a própria carta que o procurador especial Robert Mueller enviou à Casa Branca que o afirma: a informação relativa à reunião de oito pessoas na Trump Tower “é relevante para a investigação” da influência da Rússia nas eleições presidenciais norte-americanas. Mas que reunião é esta e o que já se sabe sobre ela?

Quando e onde aconteceu?

A reunião aconteceu na manhã do dia 9 de junho do ano passado, duas semanas depois de Donald Trump ter sido nomeado candidato do Partido Republicano nas eleições presidenciais dos Estados Unidos, a 26 de maio de 2016. A informação de que esta reunião aconteceu foi dada por representantes do filho e do genro de Donald Trump ao The New York Times.

O local escolhido foi a Trump Tower, um arranha-céus fundado e construído por Donald Trump, e localizado na ilha de Manhattan, no estado norte-americano de Nova Iorque.

Quem eram as pessoas que estavam na reunião?

O número de pessoas e quem elas eram não foi uma informação divulgada logo após se ter tomado conhecimento da existência desta reunião. Antes, essas informações foram sendo divulgadas aos poucos.

Estiveram presentes oito pessoas na reunião. Do lado norte-americano estiveram três associados de Trump: Donald Trump Jr., o filho mais velho do presidente dos EUA, Jared Kushner, conselheiro e genro de Donald Trump e Paul Manafort, antigo gestor da campanha de Trump às eleições presidenciais. Do lado russo, estiveram as restantes 5 pessoas: Natalia Veselnitskaya, advogada russa com ligações ao Kremlin, Rinat Akhmetshin, ex-espião russo nascido na Rússia mas com dupla nacionalidade (russa e norte-americana), Anatoli Samochornov, tradutor, Rob Goldstone, publicitário, e Ike Kaveladze, vice-presidente sénior da Crocus Group, uma imobiliária criada pelo russo Aras Agalarov.

Que significado tem esta reunião?

Esta reunião é a primeira confirmada e da qual se tem a certeza que aconteceu entre associados de Trump e da Rússia. É também a primeira vez que se sabe que o filho de Donald Trump esteve envolvido numa reunião deste género.

Apesar de muito ainda estar para apurar, a reunião e os pormenores que entretanto foram sendo descobertos suscitaram ainda mais dúvidas acerca da coordenação de Donald Trump com a Rússia e desencadearam uma série de desenvolvimentos na investigação sobre a possível interferência russa nas eleições presidenciais norte-americanas de 2016.

De quem partiu a iniciativa?

A reunião foi proposta pelo filho mais velho do presidente norte-americano, Donald Trump Jr., à advogada russa Natalia Veselnitskaya, que tem ligações à residência oficial do presidente russo, Vladimir Putin.

Ao filho de Donald Trump “foram prometidas informações prejudiciais sobre Hillary Clinton antes de concordar em se encontrar com a advogado russa”, explicou ao The New York Times. Donald Trump Jr. explicou à CNN que tomou conhecimento da existência destas informações através de uma pessoa que conheceu no concurso Miss Universo de 2013, que foi realizado na capital russa de Moscovo.

Como é que uma reunião de duas pessoas se transformou numa reunião de oito?

Também à CNN, o filho mais velho de Donald Trump disse que convidou o genro e conselheiro de Trump, Jared Kushner, e o então gestor de campanha do pai, Paul Manafort, informando-os que não era nada de “substancial”. Depois de feitos os convites, a advogada Natalia Veselnitskaya disse que podia comprovar que o Comité Nacional Democrata estava a ser financiado por russo e que Hillary Clinton estava a ser apoiada pelas mesmas pessoas.

As suas declarações eram vagas, ambíguas e não faziam sentido. Nenhum detalhe ou informação de apoio foi fornecido ou mesmo oferecido. Rapidamente ficou claro que ela não tinha informações significativas”, disse o filho de Trump num comunicado enviado à CNN.

Donald Trump Jr. revelou que a advogada começou a mostrar interesse em discutir outros e que terá usado as supostas informações sobre Clinton como pretexto para se encontrar com ele. A reunião terá acontecido, durou entre 20 a 30 minutos e foi uma perda de tempo, segundo Trump Jr.

Advogada que se encontrou com Trump Jr. trabalhou para os serviços secretos russos durante vários anos

Natalia Veselnitskaya corroborou o argumento do filho mais velho de Trump ao The New York Times, ao dizer que “nada foi discutido sobre a campanha das eleições presidenciais norte-americanas”.

Nunca agi em nome do governo russo e nunca discuti nenhum desses assuntos com nenhum representante do governo russo”, acrescentou ainda a advogada.

Mas já se sabem que estiveram oito pessoas na reunião, pelo que a história não pode ter sido esta. De facto, o filho mais velho do presidente norte-americano tomou conhecimento da existência destas informações antes da reunião acontecer. É aqui que entra a quinta pessoa. Donald Trump Jr. terá sido informado por email da existência das informações pelo publicitário Rob Goldstone, conta o The New York Times.

A 11 de julho, o filho de Donald Trump publicou até no seu Twitter os emails trocados para tentar esclarecer as dúvidas. Mas não resultou já que nos emails Trump Jr. descreve a Veselnitskaya como “uma advogada do governo russo” e descreve a informação que ela teria como “parte de um esforço do seu país para ajudar a eleger Donald Trump”.

É através de Goldstone que se percebe a presença de Ike Kaveladze. É que Goldstone é o publicitário que representa a cantor Emin Agalarov que é filho de Aras Agalarov, fundador da imobiliária Crocus Group onde Kaveladze é vice-presidente sénior. Ike Kaveladze participou da reunião como representante de Aras e Emin Agalarov, a pedido do próprio Aras Agalarov.

Fica a faltar dois: Rinat Akhmetshin e Anatoli Samochornov. A explicação é igual: estiveram na reunião porque vieram acompanhar a advogada.

Quem é a família Agalarov e porque é que entram no cenário?

Os Agalarov conhecem os Trump há anos. Aras Agalarov é o fundador de uma empresa imobiliária que foi representado por Ike Kaveladze na reunião. O ponto a reter é que o fundador é bastante próximo de Vladimir Putin que é nada mais nada menos do que o presidente da Rússia.

Para além disso, foi Aras e Emin Agalarov que hospedaram o concurso Miss Universo em 2013, em Moscovo, o concurso onde o filho de Donald Trump terá conhecido uma pessoa que lhe terá informado acerca da existência de informações prejudiciais a Hillary Trump.

O que tem o pai Trump a dizer sobre isto?

À CNN, o filho mais velho de Donald Trump disse que o pai não sabia da existência da reunião. Durante a visita oficial que fez a Paris nos dias 13 e 14 de julho, o presidente norte-americano teceu comentários sobre a reunião (entre outros assuntos polémicos).

De um ponto de vista muito prático, a maioria das pessoas teriam acedido a um encontro deste tipo. A política não é o negócio mais bonzinho do mundo, mas este comportamento é muito comum, qualquer pessoa que se movimente nos meios políticos o faria”, disse na altura.

O presidente dos Estados Unidos defendeu o filho mais velho ao dizer que este tipo de reuniões são perfeitamente normais no mundo da política. Trump alertou para o facto de ter sido um encontro “rápido, muito, muito rápido” que aconteceu “com uma advogada russa, e não com uma advogada do governo russo”. Donald Trump aproveitou ainda para elogiar o filho, “um fantástico jovem”.

Trump volta a defender filho na polémica do encontro com advogada russa e abre porta a discussões sobre ambiente

E agora?

Na passada quarta-feira, o conselheiro da Casa Branca, Don McGahn, reencaminhou uma carta a todos os funcionários. Mensagens e chamadas telefónicas, emails, notas escritas ou documentos. No fundo, “quaisquer assuntos discutidos” e “quaisquer decisões tomadas” na reunião deverão ser guardados e preservados pela Casa Branca, noticia a CNN esta sexta-feira. O pedido foi feito por Robert Mueller, o procurador especial da investigação sobre a possível interferência russa nas eleições presidenciais norte-americanas.

Filho e genro de Donald Trump chamados ao Senado

Mas há mais. Jared Kushner, conselheiro e genro de Donald Trump, vai ser ouvido à porta fechada na próxima segunda-feira na Comissão dos Serviços Secretos do Senado. Quarta-feira é a vez do filho do presidente norte-americano e de Paul Manafort, ex-chefe da campanha das eleições presidenciais, que serão ouvidos pela Comissão Judicial do Senado. O pedido do Senado para ouvir estes três depoimentos acontece na sequência da descoberta da reunião.

De acordo com Scott Balber, advogado dos Agalarovs, citado pelo The Washington Post, Ike Kaveladze, um dos presentes na reunião terá recebido um telefonema de um representante Robert Mueller, a solicitá-lo para uma entrevista. Kaveladze terá concordado.

Texto editado por João Cândido da Silva