Numa época em que os SUV se mantêm como a última moda na indústria automóvel, com tudo o que é modelo “de calças arregaçadas” a coleccionar fãs e adeptos mais depressa do que a maioria das pessoas adiciona amigos no Facebook, também as pickup parecem querer seguir o mesmo caminho. Depois de várias décadas encaradas como meros instrumentos de trabalho, enormes, básicas e desconfortáveis, a paixão que hoje em dia grande parte dos condutores parece ter descoberto pelos veículos de aspecto aventureiro ameaça não só civilizá-las, como torná-las meras recordações daquilo que ainda são: verdadeiros todo-o-terreno, capazes de nos levar por lugares onde a grande maioria dos SUV modernos já não consegue ir e, ainda assim, transportar uma tonelada “às costas”, ou rebocar este mundo e o outro.

A culpa desta “ameaça”, ainda imberbe, é não apenas dos consumidores, mas também das marcas. Que, deslumbradas com o novo filão dos SUV, decidiram agora virar-se para as pickup. Com o interesse neste mercado a cingir-se já não apenas àquelas que eram as marcas tradicionais neste segmento, como a Toyota, Nissan, Isuzu ou Mitsubishi, mas a alargar-se, inclusivamente, a construtores premium, como a Mercedes. Cuja filial portuguesa acaba de lançar, no mercado nacional, a primeira pickup com o emblema da estrela – a Classe X. E que, embora à venda entre nós desde o passado dia 4 de Novembro, só agora tivemos oportunidade de conhecer. E conduzir.

Qual é a primeira impressão?

Na verdade, bastante boa. A começar, desde logo, pelo aspecto estético, com a Classe X a mostrar-se mais atraente ao vivo do que nas fotos já divulgadas. Mas, alto aí; vamos por partes…

Apesar de já não ser propriamente uma novidade (já o escrevemos aqui, e várias vezes…), é preciso dizer que a Classe X não é uma criação genuinamente Mercedes. Sendo, sim, uma proposta que tem por base um modelo – a Navara -, de um outro construtor – a Nissan -, que a marca da estrela apimentou com uma carroçaria deveras atraente e com a imagem típica do construtor de Estugarda, a começar pela generosa estrela que embeleza a grelha.

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Apesar de manter o mesmo chassi de longarinas do modelo japonês, a Classe X é 2 cm mais comprida (5,3 m), 2 cm mais alta (1,8 m) e 7 cm mais larga (2,1 m), sendo construída numa fábrica do construtor japonês, em mais uma colaboração que aproxima cada vez mais o Grupo Daimler e a Aliança Renault-Nissan.

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Ostentando linhas exteriores que, especialmente na secção frontal, não escondem as semelhanças com aquela que é a imagem dos SUV da Mercedes, a que próprio fabricante chama “Design SUV 3.0”, e do qual fazem parte uma grelha Mercedes-Benz de duas lamelas, faróis que podem ser em LED High Performance e capot de design desportivo (elementos propostos de série apenas na versão mais equipada), a pickup alemã destaca-se assim e face à japonesa, por uma primeira imagem mais atraente e até estatutária. Quase conseguindo fazer esquecer que, lá mais para trás, depois de uma cabine de quatro portas (não existe variante de cabine curta), está uma caixa metálica de carga, onde se pode colocar 1,1 toneladas de carga, fruto dos 2,1 metros quadrados de área total que oferece. A qual, não só diferencia a nova pickup dos SUV da Mercedes-Benz, como a aproxima do mundo rural… e da própria irmã Navara.

Apresentada como um modelo que procura conjugar a robustez das pickup com a sofisticação dos veículos de passageiros, e destinada a públicos que vão desde o empresário e o trabalhador rural, até ao aventureiro e às famílias, do modelo japonês, a Classe X só terá retido, em termos de elementos exteriores e segundo os seus responsáveis, três elementos: os puxadores das portas, os braços dos espelhos retrovisores e a tranca do portão da caixa. Isto, claro está, além do motor (à excepção do V6), caixa, caixa de transferências, suspensões e chassi. Mas nenhum destes elementos está à vista.

No capítulo das partilhas, podemos mesmo acrescentar um outro: a chave que o proprietário apenas tem de guardar no bolso. Não fora a pequena estrela aplicada numa das superfícies, e seria exactamente igual, por exemplo, à do Nissan Micra.

Então, e por dentro?

Por dentro, as diferenças são bem maiores, com a Classe X a ostentar não apenas uma construção mais cuidada e de maior qualidade, como também materiais bastante mais agradáveis, particularmente, na versão de topo de gama. É o caso, por exemplo, do tejadilho e pilares revestidos a tecido e das muitas aplicações em metal, além dos revestimentos do tablier, portas e bancos, que podem ser em couro e com pespontos salientes.

A isto podemos aliar um design similar ao que podemos encontrar em qualquer proposta de passageiros Mercedes, do volante multifunções de três braços e cromado, ao painel de instrumentos com velocímetro e conta-rotações independentes, passando pelas saídas de ar com ajuste interior em metal, o ecrã a cores destacado do tablier e o joystick com botão rotativo, ambos parte integrante do intuitivo sistema de infoentretenimento.

Igualmente convincente é a habitabilidade, suficiente para cinco ocupantes, ainda que o banco traseiro proponha um assento substancialmente mais alto. Fazendo mesmo com que, ocupantes com mais de 1,75 m, viajem com a cabeça encostada ao tecto.

Num habitáculo que não deixa de apresentar diferenças substanciais consoante o nível de equipamento escolhido – Pure, claramente vocacionado para o trabalho; Progressive, já com alguns elementos de distinção; e Power, a versão que verdadeiramente se destaca -, merecedora de críticas é a colocação algo escondida do botão Start e, principalmente, a gritante falta de espaços de arrumação. É que além do porta-luvas, de um pequeno alçapão debaixo do encosto de braço dianteiro e das bolsas nas portas, nem sequer há um local para colocar o telemóvel ou a carteira!

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E já que estamos a apontar aspectos negativos, uma palavra igualmente para o facto do volante, embora de excelente pega, só ajustar em altura e não em profundidade. Algo que, ainda assim, não prejudica grandemente a posição de condução, assumidamente alta e a procurar favorecer a visibilidade exterior.

O sistema de câmaras que permite ter uma visibilidade completa em redor do carro – o que se saúda, tanto mais que o vidro traseiro, embora com um curioso sistema eléctrico que permite abrir uma espécie de janela ao centro -, pouco ou nada ajuda neste capítulo.

Em equipamento, está à altura dos SUV?

Quanto a isso, não temos dúvidas. Até porque a Mercedes fez questão de aplicar, a esta pickup, os mesmos princípios já conhecidos dos modelos de passageiros convencionais. Além dos diferentes níveis de equipamento, bastante distintos e com vocações diferentes entre si, surge a tradicionalmente extensa e onerosa lista de opcionais e acessórios, que é habitual na marca.

Assim e assumindo que o nível de entrada, Pure, pouca procura terá (esse é, pelo menos, o entendimento dos responsáveis da marca), basta citar como exemplo o caso do intermédio Progressive. Este ostenta, de série, elementos como a suspensão conforto, jantes em liga leve de 17″, faróis de nevoeiro em halogéneo, vidros eléctricos dianteiros e traseiros, retrovisores aquecidos e de regulação eléctrica, espelho retrovisor interior anti-encandeamento, áudio 20 USB com oito colunas, estofos em tecido preto e chamada de emergência Mercedes-Benz. Além de, já no domínio do apoio à condução e segurança, o assistente de sinais de trânsito, assistente de faixa de rodagem, fecho centralizado com comando, sistema de assistência no arranque, cruise control, sensor de chuva, sistema de travagem com ABS e ASR, Active Brake Assist, sistema de monitorização da pressão dos pneus, ESP com assistência à estabilização do atrelado e sete airbags.

Já o topo de gama Power acresce a esta lista, entre outros argumentos, as jantes em liga leve de 18″, faróis e sistema de luzes inteligente em LED, sistema de acesso e arranque da ignição sem chave Keyless Go, banco do condutor ajustável electricamente, estofos em pele Artico/Dinamica e tecido, ar condicionado automático Thermotronic e a regulação de velocidade em descida (DSR).

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Finalmente, entre os opcionais e os acessórios, além de vários packs, figuram soluções importantes como o bloqueio do diferencial traseiro (por 750,30€), a suspensão com aumento da distância ao solo em mais 20 mm, de forma a atingir 221 mm, algo que nem a Navara oferece (332,10€), câmara de marcha-atrás (492,00€) e o já referido pack Parking, sinónimo de câmaras a garantirem visibilidade de 360º em redor da viatura (1.389,90€). Sem esquecer as barras de tejadilho em aço polido (741€) ou, para a caixa de carga, a capota rígida e alta (4.199€), a tampa rígida (2.132€) ou a cobertura tipo persiana (2.032€). Valores a que depois é ainda necessário juntar o IVA. Ou seja, não faltam motivos para que a conta final suba praticamente à mesma velocidade a que a Classe X vai ganhando sex-appeal!

E quanto a motores?

Ora aí está um aspecto em que as semelhanças entre Classe X e Navara se voltam a estreitar. Desde logo porque, a exemplo do chassi, também neste capítulo a Mercedes preferiu manter as soluções já conhecidas e de créditos firmados, propondo assim a sua pickup, pelo menos numa fase inicial, com (basicamente) os mesmos motores do modelo nipónico.

Assim e já a partir do lançamento, duas motorizações, X 220d e X 250d, ambas tendo por base o mesmo quatro cilindros de 2.298 cc. que equipa a Nissan Navara, nas versões de 163 cv (403 Nm de binário) e de 190 cv (450 Nm). Sendo que, enquanto o X 220d apenas pode acoplar caixa manual de seis velocidades e sistema de tracção 4×2, com 4×4 comutável, o X 250d já pode optar entre transmissão manual ou automática de sete relações, mantendo o sistema de tracção traseira, embora com 4×4 seleccionável.

Lá mais para frente, mais precisamente no segundo semestre de 2018, chegará então o conjunto motor/caixa de velocidades verdadeiramente made by Mercedes: um V6 3,0 litros turbodiesel de 258 cv e 550 Nm de binário, associado à caixa 7G-Tronic Plus e com sistema de tracção 4×4 permanente, a que será dada a designação comercial X 350d 4Matic. Motor, aliás, já conhecido de vários outros modelos da marca, do Classe G ao Classe E, e que, nesta Classe X, só estará disponível com os níveis de equipamento Progressive e Power.

Já conduziram algum destes motores?

Na verdade, sim. Mais concretamente, a versão mais potente do quatro cilindros com 2,3 litros disponibilizado pela Nissan, com 190 cv e caixa automática. Com a experiência a revelar um propulsor progressivo e com boa aceleração, mas também um pouco ruidoso, em particular nos regimes mais elevados.

No entanto, a culpa terá de ser também assacada à caixa automática de sete velocidades. Solução que, não raras vezes, teima em obrigar o propulsor a trabalhar em regimes acima do necessário, acabando mesmo por deixá-lo “respirar” melhor quando operada em modo semi-automático, com engrenagem das relações através da alavanca (não tem patilhas no volante), do que propriamente em modo totalmente automático.

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Também na questão dos consumos, os resultados acabaram não sendo propriamente satisfatórios. Com a Classe X a terminar um dia atípico, em que foi submetida não só aos mais diversos tipos de trajectos (estradas nacionais, auto-estradas, caminhos de terra e até um circuito offroad), como também às mais variadas formas de condução (descontraída, desportiva, fora-de-estrada…), com médias nunca abaixo dos 12 litros. Talvez com alguma contenção e utilização mais regrada seja possível descer abaixo dos 10 litros, mas ainda assim…

Pelo contrário, muito positivo e até surpreendente, mostrou-se o desempenho, com a pickup alemã a confirmar a validade das alterações feitas pelos engenheiros da Mercedes no chassi de longarinas e molas helicoidais à frente e atrás, que o modelo partilha com a Navara. Para a eficácia contribui também a suspensão dianteira independente, o eixo rígido traseiro, mantido no sítio por uma solução multi-link, e até mesmo a disponibilização de um bloqueio de diferencial traseiro.

Equipada com a uma direcção de assistência hidráulica ligeiramente pesada, a verdade é que, até mesmo na versão com maior altura ao solo (221 mm), como era o caso da unidade que nos calhou em sorte, a Classe X não deixou de revelar um comportamento extremamente estável e seguro, sem quaisquer sinais de maior leveza da parte do eixo traseiro. Mais parecendo um SUV na forma como se entrega à estrada, do que uma daquelas carrinhas de caixa aberta, que nunca conseguem estar em total comunhão com o alcatrão.

Surpreendente no alcatrão, onde até mesmo a curvar consegue revelar uma estabilidade e precisão notáveis para um modelo do género, a Classe X revela postura idêntica quando fora dele, com a suspensão a conseguir enfrentar a maior parte dos terrenos mais irregulares, sem beliscar fortemente o conforto. Isto, ao mesmo tempo que a eficácia surge garantida através de mais-valias como o sistema de tracção integral accionável através de botão rotativo e com redutoras idêntico ao da Navara, ou do sistema de ajuda em descidas íngremes. O qual pode ser utilizado quando a velocidades até 8 km/h, mesmo com a tracção integral accionada, ou então até aos 5 km/h, quando com as redutoras engrenadas.

De resto, na pista offroad concebida especialmente para colocar à prova a Classe X, não deixou de impressionar a aptidão da pickup alemã para enfrentar os obstáculos mais complicados, graças também a um ângulo de ataque de 30,1 graus, um ângulo ventral de 22 graus, uma capacidade de submersão até 600 mm, uma inclinação lateral máxima de 48 graus e um capacidade máxima de subida de 100%. Argumentos, só por si, suficientes para não ficarmos imobilizados em qualquer caminho quando nos depararmos com dificuldades.

Os preços também são “à Mercedes”?

Naturalmente! Aliás e porque “a estrela paga-se”, tudo começa nos 38.086€ – preço para a motorização X 220d com caixa manual, tracção 4×2 e nível de equipamento Pure. Sendo que a inclusão da tracção integral 4Matic faz disparar o preço para os 46.705€. Ao passo que optar pelo nível de equipamento Progressive significa um acréscimo de mais 1.700€.

Falando da motorização X 250d, os preços começam nos 41.137,31€, já com nível de equipamento Progressive, enquanto a mesma versão, mas com 4Matic, orça em 47.676,95€.

As vendas? Já começaram, e de forma bastante auspiciosa. Com os responsáveis nacionais da Mercedes a recordarem a iniciativa online feita a 28 de Julho, em que foi colocada à disposição dos clientes a reserva, mediante o pagamento de um sinal de 1.000€, das primeiras 30 unidades da Classe X a chegarem a Portugal. Com os veículos a desaparecerem em apenas 23 dias! Sucesso que os mesmos responsáveis esperam agora conseguir reproduzir, num ano completo de vendas, estimando um total de 200 unidades. A ver vamos…

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