Rui Rio e Pedro Santana Lopes estiveram em simultâneo no distrito de Lisboa, separados por apenas 28 quilómetros na noite desta quarta-feira. Um tinha encontro marcado com a JSD, em Loures, às nove da noite. Quinze minutos depois, o outro falava em Oeiras para militantes do distrito. Mostraram ter mais em comum do que aparentam: ambos se atrasaram, começaram a falar só com quatro minutos de diferença e os dois voltaram a enaltecer que são por Sá Carneiro e que querem acordos de regime. Santana jogava em casa, literalmente, e justificou o atraso de quase 40 minutos com o facto de… estar em casa. “Vocês desculpem mas agora de cada vez que venho a Lisboa sou tomado por muitos, muitos assuntos, muitas reuniões atrás de reuniões”, disse à plateia de jovens lisboetas que tinha pela frente. Santana diz que “soube pela televisão” que o adversário estava ali ao lado…

O ex-autarca do Porto começou a falar às 21h50 e o ex-provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa quatro minutos depois. Rio falou 57 minutos. Santana ficou-se pela meia hora. Rui Rio tinha à sua espera uma sala cheia, com mais de cem militantes, no Salão Nobre dos Bombeiros Voluntários de Paço de Arcos; Santana uma sala no Auditório da Assembleia Municipal de Loures com toda a estrutura da JSD de Lisboa, que se orgulha de dizer que é para já a única estrutura da jota que tem unanimidade: todas as concelhias apoiam o ex-primeiro-ministro. Uma unanimidade que existia em Loures, mas que à mesma hora estaria a ser questionada em Oeiras. Gabriel Albuquerque, um membro do conselho distrital da JSD/Lisboa, quis destacar essa ideia quando se dirigiu a Rui Rio, antes de lhe colocar uma questão na parte da sessão de esclarecimentos a militantes, à porta fechada. O membro da JSD começou por lembrar que “nos últimos tempos foi comunicado nos jornais que a JSD de Lisboa apoiava a campanha de Santana Lopes. No entanto, este termo unânime, é preciso interpretá-lo com bastantes reticências porque surge numa reunião da Comissão Política onde não estiveram todos os membros da Comissão Política“.

Gabriel Albuquerque acrescentou ainda que “mais tarde, quando esse termo unânime podia ser revogado no Conselho Distrital”, Santana Lopes marcou presença nesse conselho distrital, realizado à mesma hora da inicitiva de Rui Rio em Oeiras. O militante da “jota” acrescentou depois, em declarações ao Observador, que “a maior prova que não existe unanimidade na JSD de Lisboa é que estavam 20 militantes da jota a apoiar Rui Rio na sala“.

Como convencer os jovens? Santana levou proximidade, Rio levou a promessa de um futuro melhor

Os eventos eram diferentes. Se Santana foi ter apenas com jovens, que já estão do seu lado, Rio quis uma demonstração de força, onde aparentemente teria menos: numa concelhia (Oeiras, cujo líder, Ângelo Pereira, apoia Santana) e num distrito (Lisboa, cujo líder, Pedro Pinto, apoia também Santana) mais difíceis. Contou para isso com um apoio de peso: a família Gonçalves e a rede de cacique do PSD/Lisboa.

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Na plateia, Rio contou com apoiantes como Rodrigo Gonçalves, o líder interino do PSD/Lisboa, e o seu pai, Daniel Gonçalves, ex-presidente da junta das Avenidas Novas (que o partido recusou candidatar). A capacidade de mobilização da família Gonçalves ainda é bastante eficaz: Rio pode não ter a distrital, mas mostra força na concelhia, que ainda é dominada por Rodrigo Gonçalves.

Na primeira fila podia ainda ver-se Tiago Fernandes, o presidente da Associação de Bombeiros onde decorreu a sessão, que é vogal da concelhia do PSD/Oeiras e também o diretor operacional da campanha de Isaltino Morais nas últimas autárquicas. Havia outras caras do PSD dos tempos de Isaltino na sala. Os deputados António Topa, Rubina Berardo e o ex-ministro David Justino também não faltaram. O mesmo aconteceu com José Amaral Lopes, ex-secretário de Estado da Cultura de Durão Barroso (e de Santana Lopes) e com Arménio Santos, ex-secretário-geral dos TSD. É certo que não apareceram “barões” do distrito como Ferreira Leite ou Morais Sarmento, mas o aparelho foi mobilizado em território adverso.

Rio com os olhos postos nas autárquicas de 2021

Rui Rio tentou passar um sinal aos militantes de que quer uma liderança para lá das legislativas de 2019, mesmo que perca as eleições para António Costa. O candidato do PSD assumiu perante os militantes que “as autárquicas de 2021 são uma prioridade para o partido”, porque é nas autarquias que se assegura a “implantação” de um partido. À mesma hora, mas para uma plateia diferente, mais jovem, Santana apenas se referiu às autárquicas “que não correram bem” para enquadrar o partido no “momento difícil que atravessa”. E para dizer que é preciso “ousadia” para dar a volta por cima.

O ex-autarca do Porto lembrou que um partido “na Assembleia da República” cresce ou decresce “muito rápido” e que nas próximas eleições pode ter “70 ou 100 deputados”, mas que — se houver implantação nas autarquias — “o partido não cai”. Lembrou por exemplo, que o partido caiu de 157 presidências de câmara não em quatro anos, mas desde 1997 a 2017. Ou seja: em 20. E sugeriu um trabalho de formiga, concelho a concelho nos próximos quatro anos nas autarquias. Quando falava sobre Matosinhos (Rio fez, ao longo do discurso, várias alusões à sua realidade de autarca), o candidato lembrava que era uma oportunidade o PSD ganhar ali porque houve três candidaturas da área do PS. Mas o partido ficou em quarto: “Nem dá para ir à Liga Europa”.

Era Rio que estava no quartel de bombeiros, mas foi Santana que voltou a falar dos acontecimentos “trágicos” dos incêndios para, a par de outros casos “mórbidos”, como o do jantar do Panteão, ou “insólitos”, como o da ordem do Ministério Público para interromper velórios de vítimas do surto da legionela, e mostrar que esse estado de “desordem” é o “resultado” de um governo que tem “natureza contraditória”. O Governo da “geringonça” (termo que Santana não gosta), é que é o alvo principal. O adversário, Rui Rio, é sempre apelidado de “o outro candidato”. E Santana continua a dizer que não é um adversário para a vida. “Isto não é a guerra do Vietname, são eleições dentro do mesmo partido”, sublinhou em jeito de auxiliar de memória aos jovens da JSD, a quem pediu envolvimento e participação ativa. “Mesmo quando estamos na oposição”.

“Era bom que os militantes pagassem as quotas”

Logo ao início da noite, Rui Rio lembrou que já era “uma vitória” ter uma sala cheia num dia de semana, uma vez que há cada vez menos militantes a frequentar as sedes e as ações do partido. Criticou depois os militantes alheados e a falta de pagamento de quotas, falando dos militantes que “nem eles sabem se são” e deixou ainda uma tirada, que a muitos deve ter lembrado os tempos austeros que impôs como secretário-geral: “Era bom que [esses militantes] pagassem as quotas.” À mesma hora, Santana chamava a esses tempos “o tempo da Maria Caxuxa”. “Votos, quotas, regularização de militantes, isso é tudo do tempo da Maria Caxuxa, precisamos é de modernização, de instituir o voto eletrónico, de ter uma, duas, três apps do partido”, disse, ciente da plateia sub30 que tinha à volta, a quem desafiou a ter um papel “liderante” no processo de modernização do partido.

Perante uma plateia mais sénior, Rio não teve pudor em criticar os militantes do partido, falando na necessidade de existirem “militantes capazes e sabedores”, desconsiderando até os atuais membros do PSD, quando disse que a nível de quadros o partido “é hoje uma sombra do que o PSD foi ao longo dos tempos”. Santana só deu uma pequena lição sobre o que deve um partido fazer quando está na oposição: “Todos temos de tomar conta do partido a que pertencemos, e quando lideramos um partido de oposição o que temos de fazer é marcar bem as diferenças face ao partido que está no Governo“, disse.

Rio revelou-se ainda preocupado com as sondagens nacionais, que dão “intenções de voto do PSD que andam na ordem dos 21,22,24 por cento. Não é relevante se é 21 ou 24, mas é relevante que todas as sondagens apontem para níveis destes.” E aproveitou para mandar uma indireta a Santana Lopes, lembrando o pior resultado do partido em legislativas: “O PS só teve uma maioria. O pior que o PSD teve foi 28%. E agora estamos abaixo (…) Mas não é tempo de baixarmos os braços, é tempo de agir”.

Sobre as sondagens, Rio não escondeu o sorriso quando falou nas internas. Começou por dizer: “Ganhei poucas sondagens, mas ganhei eleições”. E acrescentou: “Estas eleições são as únicas em que ganho nas sondagens também. Eu até me sinto mal em agora ganhar nas sondagens.” A este propósito, voltou a apelar aos militantes que “oiçam o país”, os amigos e que os portugueses dizem no café. E que escolham o candidato que o país preferir.

PPD, de proximidade e das “entranhas”. “Não sou do PPD, nem do PSD, sou do Sá Carneiro”

Santana Lopes diz que tem “falado pouco” de Sá Carneiro nesta campanha, mas a verdade é que é dos políticos que mais fala de Sá Carneiro na política portuguesa. Não é por isso, contudo, que o seu adversário abdica de o fazer. Rui Rio voltou a repetir que “o PSD não é um partido de direita. Porque se for de direita deixa de ser o PSD para ser outra coisa qualquer”. Rio disse ainda que se o PSD for “um partido de direita”, então não estaria “aqui a fazer nada”. Lembrou que já antes de 1974, seguia Sá Carneiro” e que quando o líder histórico fundou o partido, decidiu segui-lo. E afirmou mesmo: “Também não sou do PPD, nem do PSD, sou do dr.Sá Carneiro. Sá Carneiro era um social-democrata, de sempre, com pendor de centro-esquerda.”

O ex-autarca do Porto voltou a defender acordos estruturais, de regime, em áreas como a Justiça. Diz que não vai deixar de defender acordos de regime (com o PS), mesmo que isso lhe custe dissabores eleitorais: “Se cair, caio para o lado”. Rejeita, no entanto, a ideia de um Governo de Bloco Central, admitindo acordos de incidência parlamentar com os socialistas: “Quando falo em acordos, não tem a ver com Governos, tem a ver com acordos parlamentares”, explicou para que não restassem dúvidas.

Santana pode até dizer que não tem falado muito de Sá Carneiro, mas vai sempre buscar histórias do final da década de 70 para atrair a audiência. Como aquela, que só ele ou Conceição Monteiro, a secretária de Sá Carneiro, poderiam contar (porque eram os únicos que estavam na sala), em que Sá Carneiro preferiu a célebre frase: “Nunca estive tão sozinho e nunca tive tanta certeza de que tenho razão”. Três meses depois ganharia eleições. A moral da história, segundo Santana: é preciso ousadia para chegar longe. “Às vezes parece que estamos a ir por um caminho mais difícil mas se tivermos a certeza de que é por aí, temos de ir, por isso é que o PSD sobreviveu sempre como o maior partido e por isso é que eu estou aqui hoje”, disse.

Santana Lopes diz que não concebe “nenhuma sociedade democrática em que as pessoas não tenham direito a uma segunda oportunidade”, mas garante que não quer “compaixão” ou apenas “afeto” dos seus pares por ter tido um dos governos mais caricatos da história, depois de Jorge Sampaio ter decidido dar posse a Santana como primeiro-ministro, no lugar de Durão Barroso, e meses depois ter dissolvido a Assembleia. Quer “razão” no processo de escolha dos militantes. E isso faz lembrar Rui Rio, o homem da razão e do rigor que contrapõe com o homem do PPD, que recorre ao P de “proximidade” e que explica a origem do partido como vindo das “entranhas” da sociedade portuguesa. Mas não seria a ele que se estava a referir.