Estados Unidos da América

Charles Manson, o assassino mais infame do mundo, morreu. Tinha 83 anos, passou os últimos 46 na prisão

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Sharon Tate, grávida de 8 meses, foi a vítima mais célebre da seita que liderava e que no verão de 1969 assassinou brutalmente sete pessoas. Morreu este domingo num hospital na Califórnia.

AFP/Getty Images

“O recluso Charles Manson, 83, morreu de causas naturais às 20h13 de domingo, 19 de novembro de 2017, num hospital do condado de Kern.”

Foi assim que o Departamento de Correção e Reabilitação da Califórnia revelou ao mundo a notícia da morte do mais infame assassino do mundo, que no verão de 1969 espalhou o terror em Los Angeles e ordenou a morte de pelo menos sete pessoas — a mais célebre foi a atriz Sharon Tate, então com apenas 26 anos, casada com o realizador Roman Polanski e grávida de oito meses e meio. Charles Manson tinha sido internado, em estado grave, durante a semana passada.

[Veja o vídeo com as excentricidades de Charles Manson]

Foi na madrugada do dia 9 de agosto de 1969 que a casa em Beverly Hills da atriz e do realizador, que na altura estava fora dos Estados Unidos, foi invadida pelos seguidores de Charles Manson. Para além dela, foram igual e brutalmente assassinados, a golpes de faca e a tiro, o cabeleireiro Jay Sebring; Voytek Frykowski, um amigo polaco de Polanski; a sua namorada, Abigail Folger, herdeira do império de café com o mesmo nome; e Steven Parent, um rapaz que fazia entregas, de apenas 18 anos. Na noite seguinte foram executados da mesma forma, pelas mesmas pessoas, Leno LaBianca, dono de uma pequena cadeia de supermercados, e a mulher, Rosemary. Os crimes ficariam conhecidos como os “Assassínios Tate-LaBianca”. Nas paredes e nas portas de cada uma das casas onde foram cometidos os homicídios, foram escritas, com sangue das vítimas, frases como “Death to Pigs” (“Morte aos Porcos”).

Em tribunal ficou provado que Charles Manson, líder de uma seita de hippies a que chamava “Família”, nunca assassinou efetivamente ninguém. “Ele era o ditador da família, o rei, o marajá. E os membros da familia eram-lhe servilmente obedientes”, explicou em 2015, em entrevista à CNN, Victor Bugliosi, o procurador responsável pelo caso e mais tarde autor de “Helter Skelter: A Verdadeira História dos Crimes da Família Manson”.

O título da música dos Beatles, Helter Skelter, a 23ª do disco duplo que ficou conhecido como Álbum Branco, foi escrita no frigorífico do casal LaBianca, a sangue (com uma gralha: “healter” em vez de “helter”). Em tribunal, Bugliosi explicou que, para Manson, essa como outras canções do disco, eram o prenúncio de uma guerra racial apocalíptica. E que foi por esse confronto final tardar tanto em começar, que o líder do culto decidiu dar o tiro de partida com os sete homicídios de 9 e 10 de agosto de 1969. O objetivo, alegou a acusação em tribunal, seria culpar a comunidade afro-americana pelos crimes, dando assim origem à tal batalha final entre raças.

A suástica que cravou na própria testa não existia nesta altura: foi feita apenas em 1971 e exibida publicamente aquando da leitura da sentença. Meses antes, o psicopata, que excentricamente gritou, urrou, dançou e fez caretas nas audiências em tribunal e exibiu um comportamento semelhante sempre que aceitou dar entrevistas, tinha aparecido com um “X” marcado na testa. Nunca demonstrou arrependimento ou remorso. Pior: chegou até a dizer que devia ter matado mais. “Talvez devesse ter assassinado 400 ou 500 pessoas, aí ter-me-ia sentido melhor. Teria sentido que tinha dado realmente alguma coisa à sociedade.”

Nascido a 12 de novembro de 1934 em Cincinnati, no Ohio, Charles Milles Maddox (Manson foi o apelido que adotou mais tarde, emprestado pelo padrasto) foi institucionalizado pela primeira vez com apenas 12 anos. Filho de uma rapariga de apenas 16 anos, Kathleen Maddox, e de um pai que nunca conheceu, foi enviado para um reformatório, depois de ter sido apanhado a roubar. Passou os 20 anos seguintes a entrar e a sair do sistema: “Passei a melhor parte da minha vida em internatos, prisões e reformatórios porque não tinha ninguém”, disse em 1987 à CNN.

Pelo meio, e antes de se mudar para a Califórnia, em 1967, Charles Manson casou-se e divorciou-se duas vezes. Chegou a São Francisco sozinho no final de março desse ano, após ser mais uma vez libertado da prisão. “Oh não, não posso ir lá para fora… Sei que não vou conseguir ajustar-me ao mundo, não depois de ter passado toda a vida trancado e com a minha mente em liberdade”, terá dito aos guardas que o libertaram. Acabou por instalar-se no Spahn Ranch, uma quinta abandonada nos arredores de Los Angeles onde rapidamente reuniu algumas dezenas de seguidores (e, sobretudo, seguidoras), a quem dizia que era Jesus Cristo e o Diabo, tudo em um, e pregava o fim do mundo e o sexo livre — com muito LSD à mistura. “Eles veneravam o Charlie como a um deus”, explicou anos depois dos crimes uma antiga integrante da seita à CNN. Charles Manson, por seu turno, diria que tinha sido ele a criar o próprio Deus.

Charles Manson tinha 83 anos e vivia definitivamente atrás das grades desde os 37. Juntamente com três mulheres da “Família”, foi condenado à morte em 1971 por sete crimes de homicídio de primeiro grau e mais um de conspiração para cometer homicídio. Aproveitando a abolição temporária da pena de morte no Estado da Califórnia, logo após a sua sentença, cumpria pena de prisão perpétua há 46 anos. Em 2014, aos 79, foi notícia a sua intenção de casar com uma rapariga de 26, uma das muitas fãs que continuou a acumular até à morte — acabou por não acontecer.

Tentou sair em liberdade condicional uma dúzia de vezes entre 1978 e 2012, também nunca conseguiu realizar o desejo. Em 2027 voltaria a ser elegível para repetir o pedido.

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