Derek Niemann, escritor de profissão, inglês, e a mulher, Sarah, estavam de visita a Berlim para participar numa conferência. Num dos tempos livres, Derek aproveitou para visitar o local onde o pai tinha crescido. A casa, habitada desde o final da Segunda Guerra Mundial por uma família judia, tinha-lhes sido entregue como indemnização num processo judicial pós-holocausto. Mas no sótão ainda estavam as memórias de Karl Niemann, avô de Derek: sobretudo fotografias, algumas centenas, e outros documentos antigos.

Quando revolveu tudo aquilo, Derek Niemann recostou-se na cadeira e confidenciou, desolado, a Sarah: “Acabei de encontrar o meu avô…” Karl Niemann tinha sido, afinal, um oficial nazi, passado que a família sempre escondeu de Derek.

O escritor continuou, incrédulo, a pesquisar sobre o passado do avô, primeiro em arquivos, depois visitando outros familiares na Alemanha. O pai de Derek, Rudi, sempre descreveu este avô como um “burocrata de escritório”. Karl Niemann era, na verdade, o responsável por organizar a mão-de-obra escrava nos campos de concentração nazis, dirigindo igualmente uma fábrica de móveis e outra de material de guerra (utilizando sempre trabalho escravo) do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães.

Alguma dessa mão-de-obra escrava, descobriu Derek, fazia também outros pequenos trabalhos na casa dos Niemann. Altura em que a avó, Minna, aproveitava para os alimentar, mesmo contra a vontade do avô.

Derek e Minna Niemann numa fotografia encontrada pelo neto Derek na antiga casa de Berlim (Créditos: Derek Niemann)

Ao analisar os documentos contabilísticos do avô nas fábricas onde trabalhava, Derek Niemann percebeu que ele se mostrava insatisfeito sempre que um “trabalhador” morria — pois teria despesas ao preparar um enterro. “O meu avô era um medíocre, um fracassado. Acabou por ser demitido do trabalho. Acho que ele se dececionou com a vida que teve. Acreditava que vestir um uniforme glamoroso e ‘ser alguém’ era atrativo. Mas chegou a ter um chauffeur que o levava ao trabalho. Era um homem de poder e gostava disso”, explicou à BBC.

Tal como outros oficiais nazis, e após o fim da Segunda Guerra Mundial, Karl Niemann foi levado para um campo de prisioneiros de guerra, no caso o de Landsberg, na Alemanha. Era suspeito de crimes de guerra e contra a humanidade. Mas acabaria por ser apenas condenado por um crime menor, o de pertencer ao Partido Nazi. Três anos depois foi libertado e procurou apagar o passado. Mas nunca se terá arrependido.

É Derek Niemann quem o garante: “O meu avô, assim como outros oficiais das SS, foi submetido a um intenso ‘exercício’ de lavagem cerebral. Nenhum deles, nenhum, manifestou remorso. Seria possível que meu avô não soubesse o que se estava a passar? Seria possível ir aos campos de concentração todos os dias, ver figuras esqueléticas, ver agressões, gente a ser morta e não saber o que se estava a passar? Não”.