Foram precisas décadas de impasses, disputas judiciais, uma expropriação polémica e uma obra de cerca de 20 milhões de euros para transformar um dos edifícios mais controversos da Áustria num símbolo do Estado de direito. A partir de agora, a casa onde Adolf Hitler nasceu, em Braunau am Inn, é uma esquadra da polícia. As autoridades austríacas pretendem assim esvaziar o local de qualquer carga simbólica, evitando que se torne numa atração para neonazis.
Na cerimónia de inauguração nesta quarta-feira, o ministro do Interior austríaco (equivalente ao ministro da Administração Interna português) afirmou que o edifício passa agora a representar “a democracia, o Estado de direito, a segurança, a liberdade e a dignidade humana”. Ao mesmo tempo, Gerhard Karner garantiu que a memória histórica não será apagada: a pedra memorial colocada em frente ao edifício, proveniente do antigo campo de concentração de Mauthausen, permanecerá no local, com a inscrição: “Pela paz, liberdade e democracia. Fascismo nunca mais. Milhões de mortos avisam.”
Austria is inaugurating Hitler's birthplace in Braunau as a police station, ten years after the government seized the three-story building to stop it from becoming a neo-Nazi pilgrimage site pic.twitter.com/nI6aOxeHA5
— Reuters (@Reuters) July 21, 2026
Também o presidente da câmara de Braunau am Inn, Johannes Waidbacher, considerou que a transformação demonstra que a cidade está finalmente a assumir a responsabilidade pelo seu passado. “Espero que mostre que estamos a enfrentar a nossa história”, afirmou durante a cerimónia, acrescentando que a abertura da esquadra traz “alguma tranquilidade” aos habitantes da cidade.
???????? Austria Turns Hitler’s Birthplace Into a Police Station
The fate of the three-storey house in Braunau am Inn had been the subject of controversy for years. Until 2011, it housed workshops for people with disabilities. The building later stood empty because its owner refused… pic.twitter.com/aSBXnGDlpi
— NEXTA (@nexta_tv) July 22, 2026
Deputado russo quis comprá-la para depois a demolir
O edifício, situado junto à fronteira com a Alemanha, pouco conserva da imagem inicial. O projeto de arquitetura, assinado pelo atelier austríaco Marte, alterou radicalmente o seu aspeto exterior. A antiga fachada amarelo-ocre deu lugar a um tom branco minimalista e as formas das janelas foram simplificadas, aproximando o aspeto do prédio à sua traça do século XVIII e eliminando os elementos visuais associados ao período do Terceiro Reich. Aliás, como medida de proteção adicional contra o comércio ilícito de artigos de cariz ideológico, as autoridades determinaram mesmo a destruição ou o depósito em local secreto de todos os entulhos resultantes da obra.
No interior, foram criados escritórios, salas de formação, garagem subterrânea, zonas de descanso e até celas. A esquadra acolhe cerca de 45 agentes e o comando da polícia do distrito, responsável, entre outras funções, pelo combate ao tráfico de droga, descreve o jornal austríaco Der Standard.
A transformação pretende cumprir a recomendação de uma comissão independente de especialistas criada pelo Governo austríaco. O grupo concluiu que uma utilização administrativa ou ligada ao Estado seria a melhor forma de “neutralizar” o edifício, evitando que continuasse a funcionar como local de peregrinação para grupos neonazis.
A ideia da criação de um museu foi rejeitada por poder aumentar esse risco. Do mesmo modo, também foi afastada a proposta para a sua destruição. Em 2016, de acordo com a BBC, o antigo ministro austríaco do Interior Wolfgang Sobotka sugeriu avançar para a demolição do edifício, inspirado na proposta de 2012 de Frantz Klintsevich, na altura deputado russo. A opção pela demolição foi descartada por historiadores e especialistas, que defenderam a necessidade de manter o espaço como forma de confronto com a memória histórica e com o papel do país nos crimes do regime nazi.
“O objetivo principal é evitar qualquer associação a Hitler”, explicou Stephen Mlczoch, responsável pelo departamento de História do Ministério do Interior austríaco, citado pela Reuters.
Décadas de disputa e uma remodelação de 20 milhões de euros
A decisão agora concretizada encerra um longo processo político e judicial. A estrutura, cuja origem remonta ao século XVII, foi adquirida pela família Pommer em 1912. Adolf Hitler nasceu ali a 20 de abril de 1889, mas viveu na casa apenas as primeiras semanas de vida, antes de a família se mudar para Passau e, mais tarde, para a região de Linz. Apesar disso, o edifício tornou-se um dos locais mais simbólicos para admiradores do ditador nazi.
Durante o Terceiro Reich, foi um “Museu do Führer” e, ainda antes da anexação da Áustria pela Alemanha nazi, em 1938, o edifício já servia de ponto de encontro para simpatizantes do nacional-socialismo. Após a Segunda Guerra Mundial, regressou à posse da família proprietária e o Estado austríaco tornou-se arrendatário, em 1972, para controlar a utilização do espaço.
Nas décadas seguintes, o edifício acolheu uma escola técnica e, entre os anos 1970 e 2011, uma instituição de apoio a pessoas com deficiência — um detalhe carregado de simbolismo, uma vez que este grupo foi também alvo da política de extermínio do regime nazi.
Depois da saída da instituição, o imóvel permaneceu vazio durante anos. A então proprietária, Gerlinde Pommer, recusou sucessivamente vendê-lo ao Estado ou aceitar propostas para a sua reutilização. Perante o impasse, o Parlamento austríaco aprovou, em 2016, uma lei que permitiu a expropriação do edifício. A compra, no valor de cerca de 810 mil euros, só viria a ser definitivamente validada pelo Supremo Tribunal austríaco em 2019, depois de vários recursos apresentados pela proprietária.
A remodelação, inicialmente prevista para estar concluída em 2023, acabou por terminar apenas este ano, com cerca de três anos de atraso. Segundo a imprensa austríaca, a renovação do edifício terá custado cerca de 20 milhões de euros.
Es ist so weit: Adolf Hitlers Geburtshaus in Braunau am Inn wird ab heute als Polizeidienststelle geführt. Nach 15 Jahren voller Diskussionen, Streit, Parolen und Demonstrationen ist klar, wer gewonnen hat: unsere Polizei und der Rechtsstaat. Ein starkes Signal der Vernunft -… pic.twitter.com/yN77DIQEho
— PROPOLIZEI????????????????♂️ (@ProPolizeiOE) July 22, 2026
Um passado incómodo e o Google Maps manipulado
O Anschluss, ou anexação, do território austríaco à Alemanha nazi, em 1938, chegou a ser visto como positivo para a nação austríaca, tendo em conta a perda de território na dissolução do Império Austro-Húngaro e a consequente crise económica em que se encontrava.
Depois da integração em território alemão, o país mobilizou, no total, cerca de 950 mil soldados para o exército de Hitler. Foi também responsável por inúmeros crimes de guerra, a maioria dos quais ocorridos no campo de concentração de Mauthausen. No decurso do Holocausto, cerca de 65 mil judeus austríacos foram mortos e mais de 130 mil forçados ao exílio.
Atualmente, o país diz ter sido “vítima” do regime nazi, sem esconder que também ajudou a perpetrar crimes de guerra, a maioria dos quais ocorridos no campo de concentração de Mauthausen. No entanto, recusa estender-se mais neste aspeto, pelo que, ao longo dos anos, tem vindo a ser criticado por não assumir o papel que teve no Holocausto que matou seis milhões de judeus, 1,8 milhões de polacos, milhares de ciganos e de pessoas com deficiência e homossexuais, bem como mais de três milhões de soldados russos.
O Comité Internacional de Mauthausen, responsável pela sensibilização sobre o que se passou nesse campo de concentração, avisou que quer “ações concretas” para chamar a atenção sobre os crimes praticados pelos nazis. Partiu deste grupo a ideia de colocar a pedra com as inscrições em frente à casa, que nunca deixou de ser destino de peregrinação de alguns neonazis.
Aliás, ainda na semana passada o semanário alemão Der Spiegel, a poucos dias da reabertura do novo edifício, noticiou que organizações envolvidas em crimes informáticos manipularam a aplicação Google Maps com o número da porta deste edifício. Substituíram o número 15 da rua Salzburger Vorstadt pelo número 88. Ora, este é considerado um código nazi para “Heil Hitler” — a letra H é a oitava do alfabeto. Quando se pesquisava o número 88 nas aplicações digitais, aparecia um mapa identificado como “HH88”. Ou seja, a sigla para “Heil Hitler 88”.
O presidente da câmara de Braunau am Inn, Johannes Waidbacher, afirma que, no geral, as pessoas têm conseguido adaptar-se à mudança. Waidbacher fez parte de uma comissão que recomendava o uso do edifício para efeitos de caridade ou como edifício administrativo. Mas entendeu-se que, em última análise, uma instituição de solidariedade social iria expor demasiado o edifício ao público, colocando-o em perigo de eventuais investidas de grupos neonazis.
Assim, agora o único vestígio de Adolf Hitler nas imediações do imóvel é a pedra inscrita, que apesar de não mencionar o ditador, faz rapidamente a ligação histórica entre os dois.
Vários turistas e pessoas curiosas têm passado pela casa para tirar fotografias, mas, segundo as autoridades locais, podem não conhecer exatamente o seu peso histórico. Admitem também alguns incidentes nas imediações, mas garantem estar a diminuir.
Apesar do objetivo do Governo austríaco ser o de evitar a presença de extremistas no local, historiadores como Florian Kotanko, ouvido pela Reuters, acreditam que a história e o impacto do local não irão desaparecer, mesmo que menos neonazis passem pela casa.
Texto editado por Dulce Neto