Foram precisas décadas de impasses, disputas judiciais, uma expropriação polémica e uma obra de cerca de 20 milhões de euros para transformar um dos edifícios mais controversos da Áustria num símbolo do Estado de direito. A partir de agora, a casa onde Adolf Hitler nasceu, em Braunau am Inn, é uma esquadra da polícia. As autoridades austríacas pretendem assim esvaziar o local de qualquer carga simbólica, evitando que se torne numa atração para neonazis.

Na cerimónia de inauguração nesta quarta-feira, o ministro do Interior austríaco (equivalente ao ministro da Administração Interna português) afirmou que o edifício passa agora a representar “a democracia, o Estado de direito, a segurança, a liberdade e a dignidade humana”. Ao mesmo tempo, Gerhard Karner garantiu que a memória histórica não será apagada: a pedra memorial colocada em frente ao edifício, proveniente do antigo campo de concentração de Mauthausen, permanecerá no local, com a inscrição: “Pela paz, liberdade e democracia. Fascismo nunca mais. Milhões de mortos avisam.”

Também o presidente da câmara de Braunau am Inn, Johannes Waidbacher, considerou que a transformação demonstra que a cidade está finalmente a assumir a responsabilidade pelo seu passado. “Espero que mostre que estamos a enfrentar a nossa história”, afirmou durante a cerimónia, acrescentando que a abertura da esquadra traz “alguma tranquilidade” aos habitantes da cidade.

Deputado russo quis comprá-la para depois a demolir

O edifício, situado junto à fronteira com a Alemanha, pouco conserva da imagem inicial. O projeto de arquitetura, assinado pelo atelier austríaco Marte, alterou radicalmente o seu aspeto exterior. A antiga fachada amarelo-ocre deu lugar a um tom branco minimalista e as formas das janelas foram simplificadas, aproximando o aspeto do prédio à sua traça do século XVIII e eliminando os elementos visuais associados ao período do Terceiro Reich. Aliás, como medida de proteção adicional contra o comércio ilícito de artigos de cariz ideológico, as autoridades determinaram mesmo a destruição ou o depósito em local secreto de todos os entulhos resultantes da obra.

No interior, foram criados escritórios, salas de formação, garagem subterrânea, zonas de descanso e até celas. A esquadra acolhe cerca de 45 agentes e o comando da polícia do distrito, responsável, entre outras funções, pelo combate ao tráfico de droga, descreve o jornal austríaco Der Standard.

A transformação pretende cumprir a recomendação de uma comissão independente de especialistas criada pelo Governo austríaco. O grupo concluiu que uma utilização administrativa ou ligada ao Estado seria a melhor forma de “neutralizar” o edifício, evitando que continuasse a funcionar como local de peregrinação para grupos neonazis.

A ideia da criação de um museu foi rejeitada por poder aumentar esse risco. Do mesmo modo, também foi afastada a proposta para a sua destruição. Em 2016, de acordo com a BBC, o antigo ministro austríaco do Interior Wolfgang Sobotka sugeriu avançar para a demolição do edifício, inspirado na proposta de 2012 de Frantz Klintsevich, na altura deputado russo. A opção pela demolição foi descartada por historiadores e especialistas, que defenderam a necessidade de manter o espaço como forma de confronto com a memória histórica e com o papel do país nos crimes do regime nazi. 

“O objetivo principal é evitar qualquer associação a Hitler”, explicou Stephen Mlczoch, responsável pelo departamento de História do Ministério do Interior austríaco, citado pela Reuters.

Décadas de disputa e uma remodelação de 20 milhões de euros

A decisão agora concretizada encerra um longo processo político e judicial. A estrutura, cuja origem remonta ao século XVII, foi adquirida pela família Pommer em 1912. Adolf Hitler nasceu ali a 20 de abril de 1889, mas viveu na casa apenas as primeiras semanas de vida, antes de a família se mudar para Passau e, mais tarde, para a região de Linz. Apesar disso, o edifício tornou-se um dos locais mais simbólicos para admiradores do ditador nazi.

Durante o Terceiro Reich, foi um “Museu do Führer” e, ainda antes da anexação da Áustria pela Alemanha nazi, em 1938, o edifício já servia de ponto de encontro para simpatizantes do nacional-socialismo. Após a Segunda Guerra Mundial, regressou à posse da família proprietária e o Estado austríaco tornou-se arrendatário, em 1972, para controlar a utilização do espaço.

Nas décadas seguintes, o edifício acolheu uma escola técnica e, entre os anos 1970 e 2011, uma instituição de apoio a pessoas com deficiência — um detalhe carregado de simbolismo, uma vez que este grupo foi também alvo da política de extermínio do regime nazi.

Depois da saída da instituição, o imóvel permaneceu vazio durante anos. A então proprietária, Gerlinde Pommer, recusou sucessivamente vendê-lo ao Estado ou aceitar propostas para a sua reutilização. Perante o impasse, o Parlamento austríaco aprovou, em 2016, uma lei que permitiu a expropriação do edifício. A compra, no valor de cerca de 810 mil euros, só viria a ser definitivamente validada pelo Supremo Tribunal austríaco em 2019, depois de vários recursos apresentados pela proprietária.

A remodelação, inicialmente prevista para estar concluída em 2023, acabou por terminar apenas este ano, com cerca de três anos de atraso. Segundo a imprensa austríaca, a renovação do edifício terá custado cerca de 20 milhões de euros.

Um passado incómodo e o Google Maps manipulado

O Anschluss, ou anexação, do território austríaco à Alemanha nazi, em 1938, chegou a ser visto como positivo para a nação austríaca, tendo em conta a perda de território na dissolução do Império Austro-Húngaro e a consequente crise económica em que se encontrava.

Depois da integração em território alemão, o país mobilizou, no total, cerca de 950 mil soldados para o exército de Hitler. Foi também responsável por inúmeros crimes de guerra, a maioria dos quais ocorridos no campo de concentração de Mauthausen. No decurso do Holocausto, cerca de 65 mil judeus austríacos foram mortos e mais de 130 mil forçados ao exílio.

Atualmente, o país diz ter sido “vítima” do regime nazi, sem esconder que também ajudou a perpetrar crimes de guerra, a maioria dos quais ocorridos no campo de concentração de Mauthausen. No entanto, recusa estender-se mais neste aspeto, pelo que, ao longo dos anos, tem vindo a ser criticado por não assumir o papel que teve no Holocausto que matou seis milhões de judeus, 1,8 milhões de polacos, milhares de ciganos e de pessoas com deficiência e homossexuais, bem como mais de três milhões de soldados russos.

O Comité Internacional de Mauthausen, responsável pela sensibilização sobre o que se passou nesse campo de concentração, avisou que quer “ações concretas” para chamar a atenção sobre os crimes praticados pelos nazis. Partiu deste grupo a ideia de colocar a pedra com as inscrições em frente à casa, que nunca deixou de ser destino de peregrinação de alguns neonazis.

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Aliás, ainda na semana passada o semanário alemão Der Spiegel, a poucos dias da reabertura do novo edifício, noticiou que organizações envolvidas em crimes informáticos manipularam a aplicação Google Maps com o número da porta deste edifício. Substituíram o número 15 da rua Salzburger Vorstadt pelo número 88. Ora, este é considerado um código nazi para “Heil Hitler” — a letra H é a oitava do alfabeto. Quando se pesquisava o número 88 nas aplicações digitais, aparecia um mapa identificado como “HH88”. Ou seja, a sigla para “Heil Hitler 88”.

O presidente da câmara de Braunau am Inn, Johannes Waidbacher, afirma que, no geral, as pessoas têm conseguido adaptar-se à mudança. Waidbacher fez parte de uma comissão que recomendava o uso do edifício para efeitos de caridade ou como edifício administrativo. Mas entendeu-se que, em última análise, uma instituição de solidariedade social iria expor demasiado o edifício ao público, colocando-o em perigo de eventuais investidas de grupos neonazis.

Assim, agora o único vestígio de Adolf Hitler nas imediações do imóvel é a pedra inscrita, que apesar de não mencionar o ditador, faz rapidamente a ligação histórica entre os dois.

Vários turistas e pessoas curiosas têm passado pela casa para tirar fotografias, mas, segundo as autoridades locais, podem não conhecer exatamente o seu peso histórico. Admitem também alguns incidentes nas imediações, mas garantem estar a diminuir.

Apesar do objetivo do Governo austríaco ser o de evitar a presença de extremistas no local, historiadores como Florian Kotanko, ouvido pela Reuters, acreditam que a história e o impacto do local não irão desaparecer, mesmo que menos neonazis passem pela casa.

Texto editado por Dulce Neto