Os ecos que iam chegando do Cazaquistão davam aquela ideia de Astana como um território quase principesco, que ainda está a ser construído (o projeto global pensado pelo presidente do país só ficará encerrado em 2030) mas que tem um investimento no desporto fora do comum. E não é só no futebol, porque também há o ciclismo (o português Sérgio Paulinho, medalha de prata nos Jogos Olímpicos de 2004, passou por lá), o basquetebol ou o voleibol. Depois, a Astana Arena… Uau! A relva é sintética, mas existe a capacidade para fechar o recinto e enganar as temperaturas negativas no exterior por uns agradáveis 15 graus positivos dentro do recinto. Tudo em bom, tudo à grande. Mas o dinheiro ainda não faz nascer talento.

É por isso que muitos dos que leem este texto, incluindo aquele que o escreve, se recordam do Cazaquistão através de Borat, a cómica e trapalhona personagem interpretada por Sacha Baron Cohen que decide ir conhecer a realidade dos Estados Unidos para aprender qualquer coisa sobre a vida real fora do país (para quem ache que foi um filme mau, aqui fica um número: teve 18 milhões de dólares de orçamento e conseguiu um total de 261 milhões em receitas de bilheteira). Esta noite também houve um Borat em campo mas pelas piores razões: Logvinenko, um central internacional cazaque de 29 anos que resumiu um jogo que até estava a ser complicado para o Sporting (até agarrar no comando das operações) a uma curta metragem de 15 minutos.

15 minutos porque foi esse o tempo que os jogadores verde e brancos tiveram de descanso antes de fazerem aquilo que nunca tinham feito em termos históricos: inverter uma desvantagem ao intervalo numa partida como visitante a contar para as provas europeias. 15 minutos porque foi esse o tempo entre a grande penalidade cometida de forma desnecessária por Logvinenko e a expulsão, pouco depois da hora de jogo, por acumulação de amarelos. 15 minutos porque, em resumo, esse foi o tempo suficiente para se perceber que esta eliminatória teve uma história que nunca deveria sequer devia ter tido: há uma equipa superior em todos os capítulos à outra que ganhou uma vantagem quase decisiva para a segunda mão dos 16 avos de final da Liga Europa, que se disputa daqui a uma semana em Alvalade.

Ficha de jogo

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Astana-Sporting, 1-3

1.ª mão dos 16 avos de final da Liga Europa

Astana Arena, no Cazaquistão

Árbitro: Ruddy Buquet (França)

Astana: Nenad Eric; Shitov, Logvinenko, Anicic, Shomko; Beysebekov, Maevski, Kleinheisler (Stanojevic, 57′); Twumasi, Tomasov (Murtazayev, 84′) e Despotovic (Maliy, 64′)

Suplentes não utilizados: Mokin, Zainutdinov e Postnikov

Treinador: Stanimir Stoilov

Sporting: Rui Patrício; Piccini, Coates, André Pinto, Fábio Coentrão (Battaglia, 57′); William Carvalho, Bruno Fernandes; Gelson Martins (Rúben Ribeiro, 84′), Acuña, Bryan Ruíz e Doumbia (Montero, 61′)

Suplentes não utilizados: Salin, Ristovski, Bruno César e Rafael Leão

Treinador: Jorge Jesus

Golos: Tomasov (7′), Bruno Fernandes (48′, g.p.), Gelson Martins (50′) e Doumbia (56′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Coates (25′), Logvinenko (47′ e 62′), William Carvalho (76′), Beysebekov (80′) e Maevski (81′); cartão vermelho por acumulação a Logvinenko (62′)

Ainda assim, o Astana entrou melhor. Com mais vontade. Com maior agressividade sobre a bola. Com o dobro da intensidade. E tudo isto frente a uma equipa que gosta de jogar a bola pelo chão mas que claramente demorou até deixar de estranhar o piso diferente em que estava a atuar. E o cenário não ficou melhor com o golo inaugural logo aos sete minutos: o médio Tomasov fez a diagonal para as costas dos centrais leoninos, recebeu o passe longo de forma orientada e rematou sem hipóteses para Rui Patrício. Demorou, demorou e demorou até o Sporting entrar no jogo, mas isso lá acabou por acontecer.

A forma como Jesus arrasou o uso de sintéticos no futebol, dizendo que “isso da última geração é tudo treta porque não há nada como a relva natural”, chegou a dar vontade de rir pelas expressões corporais e o zero que ia desenhando com os dedos das mãos. Mas, verdade seja dita, tem razão: se houvesse uma sondagem entre todos os jogadores das principais ligas, a resposta seria igual com uma margem entre o 99% e o 100%. No entanto, verdade seja dita, o sintético não foi o único fator para, nos primeiros 32 minutos de jogo, o Sporting ter apenas um remate de perigo (Bruno Fernandes, de pé esquerdo fora da área), contra algumas defesas apertadas do aniversariante Rui Patrício, que já é trintão mas parece cada vez melhor: os leões revelaram demasiados erros posicionais nas transições, não tiveram pedalada para as saídas rápidas e foram vivendo apenas dos fogachos individuais de Gelson Martins e Bruno Fernandes para disfarçarem a intranquilidade de quererem mas não poderem dar outro rumo ao encontro.

Mais ou menos por essa fase do jogo, há um lance que fica na retina. Não pelo perigo que criou, que foi zero, mas por aquilo que representou: Bruno Fernandes tem um cruzamento de primeira para a área onde coloca o pé na bola de uma forma diferente, quase como se se tratasse de uma raquete. Aquele pormenor, por mais insignificante que possa parecer, mostrou que os visitantes começavam a aprender a dançar naquele terreno a que não estão habituados. E a dança só não foi de festa porque, aos 40′, o árbitro francês Ruddy Buquet anulou um golo a Doumbia sem qualquer razão: no primeiro remate de cabeça de Coates após canto não parece haver falta do uruguaio, na recarga o marfinense está claramente em jogo. Certo é que, em apenas quatro dias, com e sem vídeo-árbitro, o avançado africano viu o filme repetido pela segunda vez.

A fechar a primeira parte, o Astana ainda chegou a introduzir a bola na baliza de Rui Patrício mas o golo acabou por ser anulado por haver três jogadores em posição irregular no momento do remate de ressaca após canto. Os cazaques, que não jogavam em termos oficiais há mais de dois meses, venciam os portugueses que andam num ritmo de entrar em campo de quatro em quatro dias. Mais: a ganhar em casa ao intervalo em provas europeias, o Astana nunca tinha perdido; a perder fora ao intervalo em provas europeias, o Sporting nunca tinha ganho. Mas o futebol é mais do que números. E a tradição caiu num instante.

Logo a abrir, uma grande penalidade disparatada por mão na bola após cruzamento da direita acabou por dar a Bruno Fernandes a possibilidade de empatar aos 48′, mas a história não ficaria por aí: aos 50′, Gelson Martins recolheu ao segundo poste um cruzamento da esquerda de Acuña e rematou rasteiro sem hipóteses para o desamparado Nenad Eric; aos 56′, após nova combinação pelo flanco entre o argentino e Bruno Fernandes, Doumbia só teve de encostar na área para o 3-1. Um, dois, três, quase KO em oito minutos e sempre com o central que se disfarçou de Borat no lance (ou, pelo menos, no seu raio de ação). Um, dois, KO consentido em 15 minutos com o vermelho por acumulação de Logvinenko (62′), de novo sem necessidade e na primeira ação (bem conseguida) de Montero em campo, a insistir num lance na linha de fundo.

Bryan Ruíz e Gelson Martins ainda tiveram boas oportunidades para aumentarem o marcador (tal como, mesmo no final do jogo, Anicic ainda acertou com um remate de longa distância no poste), mas o encontro (e muito provavelmente a eliminatória) já estava mais do que resolvido e houve alguma gestão com bola na parte final por parte dos jogadores leoninos, que quando começaram a ter aquela sensibilidade de jogar num sintético já pareciam não querer outra coisa que não fosse trocar a bola entre si e arriscar até alguns dribles mais criativos, o que motivou entradas mais duras dos cazaques.