Rádio Observador

Ambiente

Roma é a primeira a correr com os diesel. Faz sentido?

820

Virginia Raggi, presidente da câmara de Roma, surpreendeu os romanos e também os colegas do C40, anunciando o banir dos diesel em 2024, um ano antes de Paris, Madrid e Cidade do México.

Roma vai bater Paris, Londres, Madrid, Atenas e México, entre muitas outras capitais, e tornar-se na cidade mais rápida a banir os motores diesel, prometendo correr com os carros movidos a gasóleo já a partir de 2024.

O anúncio desta medida foi feito pela presidente da câmara de Roma, Virginia Raggi, na 2ª conferência anual Women4Climate, encontro que começou a 26 de Fevereiro na cidade do México. Aí, a governante surpreendeu a plateia ao declarar que “a partir de 2024, o centro histórico de Roma passará a estar interdito a veículos particulares a gasóleo”. Surpreendeu particularmente a presidente da câmara de Paris, Anne Hidalgo, que também lidera a C40, associação das principais cidades que tem na agenda a melhoria da qualidade do ar. E porquê? Porque a capital francesa, juntamente com Madrid, Atenas e a Cidade do México, entre outras, já tinham anunciado a proibição dos diesel em 2025. Ou seja, foram “ultrapassadas” por Roma em precisamente um ano.

Mas na capital italiana, a medida destinada a melhorar a qualidade do ar que se respira, e a reduzir a chuva ácida que ataca os monumentos da cidade, em pedra e em bronze, afecta apenas os veículos particulares. Faz sentido? Acaso, pensará Raggi que os mesmos poluentes, quando provêm dos pesados e, sobretudo, dos autocarros dos transportes públicos, fazem menos mal à saúde? Certo é que o que faria mal, mas aos cofres da autarquia, seria se a medida abrangesse igualmente os transportes públicos – a maioria já com muitos anos e sem tratamentos de gases de escape –, pois isso implicaria um enorme investimento.

Banir os diesel é solução?

Os diesel antigos – aqueles sem catalisadores, filtros de partículas ou injecção de AdBlue – são mais poluentes do que os gasolina seus contemporâneos. Mas um diesel moderno é menos poluente do que um gasolina actual, partindo do princípio que ambos cumprem a regulamentação vigente. Pelo que a decisão de atacar as unidades que consomem um tipo de combustível, poupando o outro, nada tem de científico, nem de correcto.

É um facto que se conseguisse afastar os motores a combustão das cidades, a qualidade do ar que se respira melhora, e muito. No caso concreto de Roma, admitindo que a seguir aos diesel passam a ser proibidos também os gasolina, não restará outra alternativa a não ser os eléctricos. E, entre estes, para já o que existe são os alimentados por bateria. Ora, este movimento rumo aos eléctricos, num país em que mais de 70% da energia eléctrica provém da queima de derivados do petróleo, faz tanto sentido como alguém que está prestes a afogar-se tentar salvar-se agarrando-se a uma bigorna.

Para além de ser conveniente que a energia eléctrica não fosse produzida, como é em muitos países europeus, a partir de gasóleo, gás e carvão, o que torna os carros eléctricos mais poluentes do que os seus rivais a gasolina, se considerarmos o ciclo completo, há outro problema: não existem carros eléctricos suficientes para satisfazer todos os que querem comprar um carro novo. E não vai haver durante ainda muitos anos.

Por outro lado, deixar os gasolina rodar, depois de afastar os diesel, não faz qualquer sentido (a menos que sejam híbridos plug-in). Seria mais eficaz afastar todos os motores a combustão mais velhos – só os Euro 5 e Euro 6 poderiam circular e os primeiros durante apenas mais três a cinco anos –, incluindo obviamente os veículos pesados. E, fundamentalmente, controlar todo o parque circulante com inspecções que fossem capazes de verificar a eficácia dos catalisadores de duas vias dos diesel, ou os de três vias dos gasolina, além dos filtros de partículas (dispositivo que os motores a gasolina também vão ser obrigados a usar, já a partir deste ano). Talvez a presidente da câmara de Roma desconheça, mas os carros com mais de cinco anos, em Itália e cá também, quando têm problemas nos filtros de partículas e até nos catalisadores, como se tratam de peças caras e que não duram a vida toda, pura e simplesmente são retirados. Tornando os veículos, aí sim, muito mais perigosos para o ambiente.

A prazo, quando os automóveis eléctricos – a bateria, a fuel cell ou com qualquer outra solução que minimize o abastecimento de energia a partir da rede eléctrica – existirem em quantidade suficiente para satisfazer a procura, aí sim os motores a combustão poderiam então ser afastados por completo. Entretanto, pode consultar aqui a lista das cidades mais poluídas, para constatar onde está Lisboa e Porto no ranking e perceber porque é que Paris e Roma estão tão preocupadas com o ambiente. E, já agora, porque é que Turim, Barcelona e Milão não estão…

Comparador de carros novos

Compare até quatro, de entre todos os carros disponíveis no mercado, lado a lado.

Comparador de carros novosExperimentar agora

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: alavrador@observador.pt

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)