Um Conselho do Banco Central Europeu (BCE) partido ao meio, entre os que querem acelerar o desmame dos estímulos monetários e os que pedem cautela, reúne-se esta quinta-feira, a seis meses do fim (previsto) do programa de quantitative easing (QE). Na realidade, já poucos acreditam que a intervenção do BCE, com a compra de dívida dos países no mercado, irá mesmo terminar em setembro. Mesmo que a um ritmo inferior, o QE deve continuar pelo menos até ao final do ano, antecedendo a primeira subida da taxa de juro (que poderá chegar em meados de 2019). Para já, na reunião desta quinta-feira, os governadores que querem que o BCE mantenha uma posição de cautela terão vitória fácil no debate, por entre receios de protecionismo crescente e uma “guerra comercial” e, por outro lado, com o impasse na formação de governo em Itália.

A saída de Gary Cohn da Casa Branca, estando longe de ser imprevista, não deixou de ser recebida com alguma amargura nos mercados financeiros. Afinal de contas, este é o conselheiro económico de Donald Trump que esteve para se demitir quando houve a polémica em torno da (diminuta) censura pública às manifestações de supremacistas brancos. Não se demitiu nessa altura porque estaria confiante de que a sua influência seria importante para evitar que o presidente do EUA enveredasse pelo que o próprio chamou de “guerras comerciais” com outros blocos económicos. O último mês terá sido, segundo os relatos da imprensa norte-americana, particularmente intenso — mas, no final, Gary Cohn acabou por atirar a toalha ao chão.

Guerra comercial? De que é que Trump está a falar?

A questão é saber se a saída do Sr. Cohn irá marcar uma alteração radical na política comercial e nas políticas económicas dos EUA. Se assim for, poderá ter implicações gigantes para o crescimento a nível global, mas ainda não sabemos”, diz Stephen Gallo, analista do Bank of Montreal, ao Financial Times.

Por outro lado, apesar de o câmbio euro-dólar já não ser tão sensível a esses temas como dantes, em Itália está instalada a confusão sobre que governo poderá ser formado a partir dos resultados das eleições legislativas do domingo passado.

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Este contexto de dupla incerteza, a que se juntam mais dúvidas em torno do processo do Brexit, devem dar uma vitória fácil aos membros do Conselho do BCE que preferem uma atitude mais cautelosa, incluindo o próprio presidente Mario Draghi — não só no que diz respeito às compras de ativos mas, também, às pequenas (mas altamente simbólicas) pistas comunicacionais que o banco central deve ou não dar aos mercados, a caminho da normalização da política monetária.

As minutas das últimas reuniões do BCE indicavam que a política do banco central poderia ser reavaliada no início de 2018, mas os riscos políticos (e económicos) deixam o BCE de mãos atadas e ninguém espera mudanças de rumo na reunião desta quinta-feira.

Apesar de continuarem a ser baixas as pressões inflacionistas, o fim do quantitative easing está a aproximar-se”, escrevem os economistas do banco holandês ING. “O risco de deflação está claramente superado, pelo que a única questão é saber como devemos moderar e implementar este desmame”.

O que veem os “falcões” e o que veem as “pombas”

São duas formas distintas de olhar para a mesma realidade.

  • Os “falcões” da política monetária, como o alemão Jens Weidmann e o holandês Klass Knot, devem argumentar que a inflação irá, mais tarde ou mais cedo, subir em reação ao crescimento cada vez mais homogéneo que se regista na zona euro. O BCE deve, portanto começar já a ajustar o discurso para evitar reagir demasiado tarde — e “ajustar o discurso” poderia significar retirar da declaração oficial do BCE a indicação de que há uma “tendência acomodatícia”, ou seja, que há maior probabilidade de se aumentarem os estímulos do que se reduzirem.
  • As “pombas”, por outro lado, irão, provavelmente, sublinhar que as pressões inflacionistas continuam escassas e que não há razões para ter pressa. Os governadores que mais defendem os estímulos monetários inéditos devem acrescentar que o BCE pode esperar mais algumas semanas, pelo menos até abril, para ajustar o discurso que os invariavelmente os investidores leem à lupa.

“A nossa expectativa é que as pombas vençam os falcões, argumentando que a melhoria nas perspetivas de crescimento e as expectativas de inflação não requerem, para já, uma alteração na orientação futura [da política monetária] do BCE”, afirma Florian Hense, economista do Berenberg Bank. Mas “mesmo os falcões podem concordar que o BCE deve esperar um pouco mais para perceber que rumo toma a situação política em Itália e a ameaça protecionista”, acrescenta o economista.

Até ao final do ano, “o BCE deverá continuar a normalizar a política monetária, mas em baby steps [passinhos de bebé]”, antecipa Florian Hense, em nota enviada aos investidores e a que o Observador teve acesso. A expectativa deste economista é que em setembro o programa não termine mas o ritmo mensal das compras de dívida seja reduzido para metade — de 30 mil milhões para 15 mil milhões de euros.

As compras de dívida irão, depois, na expectativa do Berenberg Bank, acabar em dezembro de 2018. E a primeira subida da taxa de juro — a primeira desde 2011 — deverá vir em junho de 2019, quando Mario Draghi estiver prestes a entregar as rédeas do BCE a outra pessoa.