Paleontologia

O Archaeopteryx batia as asas, mas não como as aves modernas

O Archaeopteryx era capaz de bater as asas e voar, mas não possuía todas as adaptações das aves atuais. Para os investigadores, era um voo mais parecido com o de um faisão do que com o de uma águia.

Os fósseis de Archaeopteryx estão incrustrados em lages de calcário e são demasiado valiosos para serem destruídos

Pascal Goetgheluck/ESRF

Quando é que os ancestrais das aves começaram a voar ativamente — e não apenas a planar — é uma das questões que continua a despertar o interesse dos investigadores. Os Archaeopteryx, enquanto grupo de dinossauros próximo das aves, podiam ser a chave para responder a esta questão. Procurando uma resposta escondida nos ossos, os investigadores verificaram que estes animais conseguiam fazer bater as asas, mas não como o fazem as aves modernas. As conclusões foram publicadas na revista científica Nature Communications.

Os comportamentos dos animais não ficam fossilizados como os ossos, mas compará-los com animais aparentados pode permitir perceber, por exemplo, que tipo de locomoção tinham. Nenhum investigador podia, contudo, conceber que se começassem a seccionar ossos de Archaeopteryx só para tentar descobrir se estes dinossauros cobertos de penas, descobertos há cerca de 150 anos, eram capazes de voar, se apenas planavam ou se não passavam de animais terrestres.

O feixe de raios-X atravessa o fóssil e lage de calcário onde está incrustrado até chegar ao detetor onde é registada a informação que vai permitir perceber a estrutura interna do osso — Pascal Goetgheluck/ESRF

A tecnologia disponibilizada pelo Sincrotrão Europeu (ERSF, European Synchrotron Radiation Facility), em França, tinha a solução: a microtomografia dos ossos. “A sensibilidade excepcional das técnicas de raios-X para investigar espécimes grandes, que está disponível no ESRF, oferece uma visão microscópica não-prejudicial dos fósseis e permite reconstruções tridimensionais virtuais de extraordinária qualidade”, disse Paul Tafforeau, investigador do ESRF. Com esta tecnologia foi possível estudar o interior do úmero e cúbito, dois ossos dos membros anteriores (as asas).

Os Archaeopteryx apresentam um conjunto de caraterísticas que os colocam tanto próximos dos extintos dinossauros, como das aves modernas, mas não tinham uma estrutura do ombro igual à das aves nem outras adaptações essenciais ao voo. Era, portanto, claro que não podiam voar como as aves o fazem hoje em dia. No entanto, o interior dos ossos, visto graças à tecnologia de raios-X usada, permitiu perceber que os ossos não eram assim tão diferentes das aves atuais. Por comparação com as aves modernas, os investigadores concluíram que a estrutura dos ossos é mais semelhante à dos faisões, que voam quando precisam de se escapar a um predador ou ultrapassar uma barreira, do que à de aves de rapina, que têm voos prolongados no tempo.

Sabemos que a região de Solnhofen [uma lagoa jurássica], no sudeste da Alemanha, era um arquipélago tropical e este tipo de ambiente parece ser adequado para saltar de ilha em ilha ou usar o voo para escapar”, disse Martin Röper, curador de Archaeopteryx e co-autor do artigo.

Para os investigadores, saber que esta espécie já tinha desenvolvido algumas adaptações que lhe permitiam voar, há 150 milhões de anos, significa que a capacidade de voo dos dinossauros terá evoluído ainda mais cedo — ainda durante o período Jurássico. A nova revelação sobre o modo de voo dos Archaeopteryx vai fazer com que os investigadores tenham de voltar a analisar estes fósseis e outros mais antigos com outros olhos. “Vamos ter de voltar aos fósseis para responder à questão de como usava as asas este icon bávaro da evolução [Baviera é o local onde foram encontrados os fósseis]”, disse Stanislav Bureš, da Universidade de Palacký (República Checa).

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