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É só mais um passo na estratégia da ETA para branquear as suas responsabilidades. É assim que a Associação de Vítimas de Terrorismo vê o comunicado publicado esta sexta-feira nos jornais espanhóis Garra e Beria, e no qual a associação terrorista independentista basca pede perdão pelo mal causado ao longo das suas cinco décadas de história.

“É um passo na estratégia orquestrada pela ETA” desde a cessação da violência em 2011 para “diluir sua verdadeira responsabilidade, justificar o uso de violência pela imposição de seu projeto totalitário e manipular a história”, diz a associação, citada pelo El País.

Entre as vítimas da ETA, o sentimento é unânime. As desculpas não foram suficientes, chegam tarde e há motivos muito concretos para o dizerem. No entanto, entre elas há quem tenha dado valor ao pedido de perdão, apenas por ser algo que há muito esperavam ouvir.

A desconstrução da mensagem resume-se em cinco pontos.

Justificação da sua história

“Nestas décadas houve muito sofrimento para o nosso povo: mortos, feridos, torturados, sequestrados ou pessoas que foram forçadas a fugir para o estrangeiro. Um sofrimento desmedido. A ETA reconhece responsabilidade direta nessa dor e deseja manifestar que nada disso jamais deveria ter acontecido e que não deveria ter-se prolongado tanto no tempo, já que esse conflito político e histórico deveria ter tido uma solução democrática justa há muito tempo. De fato, o sofrimento já reinava antes da ETA ter nascido e continuou a existir depois de a ETA ter abandonado a luta armada.”

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Impunidade. Para Mari Mar Blanco, presidente da Fundação Vítimas do Terrorismo, é isso que a ETA busca com este comunicado, diz, citada pelo El Español, e com esta passagem em concreto. Irmã de Miguel Ángel Blanco, autarca do PP, sequestrado e assinado em Ermua, não tem dúvidas de que o grupo terrorista procura justificativas para meio século de assassinatos. “O comunicado da ETA busca impunidade”, diz Mari Mar Blanco, ascrescentando que justifica a sua luta armada com o sofrimento do povo basco, o que não é aceitável.

Bombardeamento de Guernica

“As gerações pós-Guernica herdaram essa violência e esse lamento, e cabe-nos a nós que as gerações vindouras reconheçam outro futuro.”

Ir buscar o bombardeio de Guernica — em 1937 , durante a Guerra Civil Espanhola, a cidade foi atacada por aviões alemães que depois apoiaram as tropas do ditador Francisco Franco a invadir a localidade — não faz sentido para a Associação de Vítimas do Terrorismo.

“Na sua declaração, a ETA justifica o seu nascimento e o uso da violência com um suposto ambiente de sofrimento anterior que teria tido a sua origem no bombardeio de Guernica”, diz associação ao El Español, acrescentando que assim se tenta justificar o uso da violência como “inevitável , defensiva e fruto de um conflito inexistente e inventado”.

Pedido de perdão tem de ser acompanhado de colaboração com as autoridades para esclarecer todos os crimes que estão por resolver, argumentam as várias associações de vítimas da ETA. GOGO LOBATO/AFP/Getty Images

Crimes por resolver

“Estamos cientes de que neste longo período de luta armada causámos muita dor, e fizemos muitos danos que não têm solução.”

Mari Mar Blanco diz que um pedido de perdão tem de ser acompanhado de “colaboração com as autoridades”, uma vez que muitos dos crimes cometidos pela ETA ao longo do seu meio século de existência ficaram por resolver.

O Coletivo de Vítimas do Terrorismo concorda: “A única contribuição que a ETA pode dar à sociedade é esclarecer os mais de 400 assassinatos que permanecem sem solução e fornecer a localização dos corpos das vítimas desaparecidas.”

Posição idêntica é a da Asociação de Vítimas do Terrorismo que argumenta que a ETA deveria “contribuir para o esclarecimento dos ataques pendentes de resolução”.

Distinção entre as vítimas

“Queremos mostrar respeito pelos mortos, feridos e vítimas causados pelas ações da ETA, na medida em que foram afetados pelo conflito. Sentimos muito. Como resultado de erros ou de decisões erradas, a ETA também fez vítimas que não tiveram uma participação direta no conflito, tanto em Euskal Herria quanto fora dele. Sabemos que, forçados pela necessidade de todos o tipo de luta armada, prejudicámos cidadãos sem qualquer responsabilidade. Também causámos sérios danos que não têm volta a dar. A essas pessoas e às suas famílias pedimos perdão. Estas palavras não vão resolver o que aconteceu, nem mitigar tanta dor. Dizemos isto com respeito, sem querer causar nenhuma nova aflição.”

Para o Coletivo de Vítimas do Terrorismo, é inaceitável haver uma separação entre o tipo de vítimas, umas merecendo um pedido de desculpas — “as que não tiveram participação direta no conflito” — e outras não.   “Apresentar um pedido de perdão seletivo significa insultar as vítimas do terrorismo e de toda a sociedade”, argumenta o coletivo.

Ao El País, Mari Mar Blanco, presidente da Fundação Vítimas do Terrorismo, acrescenta que um perdão que distingue vítimas “entre as que mereciam e não mereciam uma bomba” não serve.

Iñaki García Arrizabalaga, filho de Juan Manuel García Cordero, assassinado em 1980, congratula-se primeiro por um pedido de desculpa que tardou em chegar, mas depois critica a distinção entre as vítimas.  “Não gostei de ler que a ETA pede desculpas apenas às vítimas colaterais, que considera alheias ao conflito. Aos outros só oferece respeito. Se eu fosse filho de um guarda civil, ficaria ofendido. Mas guardei uma frase: ‘Gostaríamos que nada disso tivesse acontecido.’ Isso é importante, mesmo que óbvio, porque é dito pela primeira vez.”

Comparação da ETA às forças do Estado

“Entendemos que muitos consideram que as nossas ações foram inaceitáveis ​​e injustas, e respeitamos essas pessoas, porque ninguém pode ser forçado a dizer o que não pensa ou sente. Para muitos outros também foram totalmente injustas, apesar de usarem o disfarce da lei, as ações das forças do Estado e das forças autónomas que agiram em conjunto, e esses cidadãos também não merecem ser humilhados. Caso contrário, deveríamos interpretar que houve um dano justo que merece aplausos. A ETA, por seu lado, tem outra posição: desejava que nada disso tivesse acontecido, desejava que a liberdade e a paz se tivessem enraizado em Euskal Herria há muito tempo.”

Maixabel Lasa, viúva de Juan Mari Jáuregi, ex-governador de Gipuzkoa, assassinado em 2000, diz ter tido sentimentos mistos quando ouviu a nota de perdão. “É uma boa notícia. Por outro lado, falam sobre o sofrimento de todos, incluindo o dos seus prisioneiros, quando isso é não é comparável à dor das vítimas, que eram inocentes”, ressalva. E lembra que o seu marido “está dentro da categoria dos inimigos de Euskal Herria”, sentindo também por isso ser terrível a distinção que fazem entre os que mereciam e não mereciam morrer.

Já a Associação das Vítimas do Terrorismo lamenta que em momento algum a ETA “faça autocrítica, justificando o que fez ao referir-se às suas vítimas e aos torturados [etarras capturados] da mesma forma”.

“A mim não me chega este perdão”, diz Mari Mar Blanco, em entrevista à TVE. “É tarde, muito tarde e, claro, não atende às expectativas das vítimas”, até porque a linguagem usada é a mesma que causa dor a muitas delas.

“Usam termos como luta armada e insistem que houve um conflito de lados opostos, quando a única coisa que existiu foram vítimas e carrascos”, conclui.

ETA reconhece sofrimento causado e pede perdão, mas não a todas as vítimas

O comunicado da ETA na íntegra

ETA para o povo basco: declaração sobre os danos causados

“A ETA, organização socialista basca de libertação nacional, quer reconhecer através desta declaração o dano que causou no curso de sua trajetória armada, bem como mostrar o seu compromisso com a superação definitiva das consequências do conflito e com a sua não repetição.

Nestas décadas houve muito sofrimento para o nosso povo: mortos, feridos, torturados, sequestrados ou pessoas que foram forçadas a fugir para o estrangeiro. Um sofrimento desmedido. A ETA reconhece responsabilidade direta nessa dor e deseja manifestar que nada disso jamais deveria ter acontecido e que não deveria ter-se prolongado tanto no tempo, já que esse conflito político e histórico deveria ter tido uma solução democrática justa há muito tempo.

De fato, o sofrimento já reinava antes da ETA ter nascido e continuou a existir depois de a ETA ter abandonado a luta armada.

As gerações pós-Guernica herdaram essa violência e esse lamento, e cabe-nos a nós que as gerações vindouras reconheçam outro futuro.

Estamos cientes de que neste longo período de luta armada causámos muita dor, e fizemos muitos danos que não têm solução. Queremos mostrar respeito pelos mortos, feridos e vítimas causados pelas ações da ETA, na medida em que foram afetados pelo conflito. Sentimos muito.

Como resultado de erros ou de decisões erradas, a ETA também fez vítimas que não tiveram uma participação direta no conflito, tanto em Euskal Herria quanto fora dele. Sabemos que, forçados pela necessidade de todos o tipo de luta armada, prejudicámos cidadãos sem qualquer responsabilidade. Também causámos sérios danos que não têm volta a dar. A essas pessoas e às suas famílias pedimos perdão. Estas palavras não vão resolver o que aconteceu, nem mitigar tanta dor. Dizemos isto com respeito, sem querer causar nenhuma nova aflição.

Entendemos que muitos consideram que as nossas ações foram inaceitáveis ​​e injustas, e respeitamos essas pessoas, porque ninguém pode ser forçado a dizer o que não pensa ou sente. Para muitos outros também foram totalmente injustas, apesar de usarem o disfarce da lei, as ações das forças do Estado e das forças autónomas que agiram em conjunto, e esses cidadãos também não merecem ser humilhados. Caso contrário, deveríamos interpretar que houve um dano justo que merece aplausos. A ETA, por seu lado, tem outra posição: desejava que nada disso tivesse acontecido, desejava que a liberdade e a paz se tivessem enraizado em Euskal Herria há muito tempo.

Ninguém pode mudar o passado, mas uma das coisas mais prejudiciais que se poderia fazer agora seria tentar mascarar ou esconder certos episódios. Vamos todos reconhecer a responsabilidade e os danos causados. Apesar de não partilharmos o mesmo ponto de vista ou os mesmos sentimentos, todos devemos reconhecer, com respeito, o sofrimento sofrido pelos outros. É isso que a ETA quer expressar.

Precisamente olhando para o futuro, a reconciliação é uma das tarefas que têm de ser levadas a cabo em Euskal Herria, algo que está a acontecer com honestidade entre os cidadãos. É um exercício necessário conhecer a verdade de forma construtiva, fechar feridas e criar garantias de que este sofrimento não volta a acontecer. Com uma solução democrática para o conflito político será possível construir a paz e alcançar a liberdade em Euskal Herria. Para finalmente apagar as chamas de Guernica.”