Justiça de um lado, partido do outro. Para Mariana Vieira da Silva, a separação das áreas é muito clara e especialmente relevante quando se fala do caso José Sócrates. Mas as suspeitas e a investigação que envolvem o ex-governante são fonte de algum incómodo entre socialistas, reconhece a Secretária de Estado adjunta do primeiro-ministro em entrevista à Rádio Renascença (RR) e ao Público. “Desde 2015 que o PS tem definido com muita clareza a sua posição quanto ao caso que envolve na justiça o eng. José Sócrates. Reafirmando desde sempre a separação daquilo que é o que corre da justiça, daquela que é a atividade do partido”, assume, confessando que as suspeitas em que Sócrates surge envolvido a deixaram “surpreendida“.

Julgo que o que aconteceu foi uma notícia que era nova e que lançou tomadas de posição que não considero que tenha significado uma rutura – ou uma mudança significativa na posição do PS: à justiça o que é da justiça, à política o que é da política. E obviamente, porque ninguém pode dizer que a situação não é incómoda, perante as notícias e perante a hipótese de um dia a justiça considerar provados os crimes de que é acusado, cada militante socialista diz o que sente com isso. E usa adjetivos diferentes…”

À beira do congresso do Partido Socialista (PS), que se realiza este fim-de-semana na Batalha, e a um ano de eleições, a secretária de Estado espera que o caso José Sócrates — que pode ter tido impacto nas eleições de 2015 — não o tenha em 2019. “Creio que passados estes anos as pessoas também conseguem distinguir os dois planos. E acima de tudo para o PS essa distinção é fundamental.” Por isso, acredita também que o tema não deverá marcar a agenda do congresso. “Acho que 2015 trouxe uma aprendizagem muito importante para o PS: a nossa capacidade de dizermos que prometemos e cumprimos resulta do trabalho que fizemos de definir muito claramente as políticas com que nos apresentámos às eleições de 2015. E portanto queremos agora iniciar esse caminho de definição da estratégia, primeiro, e depois das medidas de política, para podermos estar mais tarde a dizer que prometemos e cumprimos.”

Braço-direito de António Costa no governo — tendo também feito parte de gabinetes nos dois executivos de José Sócrates — Mariana Vieira da Silva foi escolhida pelo atual primeiro-ministro para coordenar a moção que o líder socialista leva ao congresso já este fim-de-semana. Um encontro onde espera que se mantenha o “diálogo à esquerda”, embora ainda seja “cedo para dizer se há condições para um acordo alargado”.

O sucesso deste Governo resulta da clareza com que os partidos negociaram as posições conjuntas, aquilo em que estavam de acordo e aquilo em que estavam em desacordo – e o detalhe com que o fizeram. Portanto, é cedo para dizer se há condições para um acordo alargado. O que me parece é que a identificação dos quatro temas e os objectivos permitem um diálogo à esquerda sobre estes temas.”

Já a possibilidade de um bloco central parece-lhe mais remota, apesar de admitir pequenos consensos à direita. “O secretário-geral do PS tem sido muito claro sobre a rejeição de um caminho de bloco central. O que não significa que não possa haver determinados assuntos, tanto por força das circunstâncias como por serem estratégicos, que possam beneficiar de um acordo mais alargado. Desde 2015 que dissemos que relativamente aos fundos e grandes investimentos o país beneficiaria muito de acordos muito alargados. Agora, este acordo à esquerda depende de quatro partidos. Não tem um prazo de validade.”

Já na pasta da Saúde, a secretária de Estado encontra várias dificuldades para que se consiga chegar a consenso. Assume mesmo que “o trabalho que está a ser desenvolvido é pouco compatível com a ideia de que ainda nesta legislatura se pode conseguir um acordo”. O motivo: “acho que há uma divergência estrutural desde a primeira hora. E não estou convencida que tenha passado a haver um consenso entre PS e PSD na área da saúde.”

Sportinguista assumida, Mariana Vieira da Silva reconhece que as últimas semanas têm sido “difíceis”, mas que uma lei não chega para resolver os crescentes problemas de violência no desporto. “Deve ser um objetivo de todos procurar serenar e viver pacificamente.”