Enviados Especiais do Observador ao Vaticano

O ambiente no interior da Basílica de São Pedro, no Vaticano, é grave, solene. Ainda para mais em dia de consistório. À volta do edifício imponente que encabeça a praça com o nome do mesmo santo, primeiro dos papas, circulam padres, bispos e cardeais em vestes de cerimónia. Ali, o mais importante dos arcebispos ou cardeais é só mais um. Uns estacionam, outros chegam a pé transportando na mão as vestes que vão usar na celebração, e dirigem-se apressadamente para a entrada lateral da igreja, onde se misturam com os embaixadores que desfilam em traje de gala e com convidados de honra a tentar descobrir onde se colocar.

Alheio ao frenesim diplomático que se gera nos acessos à basílica chega D. António Marto, bispo de Leiria-Fátima e um dos 14 bispos escolhidos pelo Papa Francisco para a dignidade de cardeal. Vem já com as novas vestes corais, vermelhas — aquelas que diz que raramente vai usar — e com a notícia de que lhe fora atribuída a igreja de Santa Maria sopra Minerva, em Roma. Isto porque todos os cardeais, mesmo sendo bispos das suas dioceses, são chamados à diocese de Roma para ficarem mais próximos do Papa, e é-lhes atribuída umas das suas muitas igrejas. “Talvez por ser uma igreja mariana, dedicada a Nossa Senhora”, sugere D. António Marto à entrada da basílica, antes de ir cumprimentar os bispos portugueses que vieram a Roma de propósito para estarem presentes no consistório.

D. António Marto na companhia dos bispos portugueses que se deslocaram ao Vaticano para o Consistório. JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

A celebração, essa, é relativamente simples. À hora marcada, um cântico, e o Papa Francisco entra na basílica para dar início à celebração. Percorre o corredor central da igreja distribuindo cumprimentos e bênçãos e senta-se na sua cátedra, para ouvir, em primeiro lugar, um dos novos cardeais — o patriarca dos Caldeus, D. Louis Raphaël I Sako — a dirigir-lhe uma mensagem de gratidão pela escolha. O texto deu o mote àquilo que seria a mensagem de toda a celebração. “A nomeação cardinalícia não é um prémio”, disse o novo cardeal, que destacou, em nome dos 14 escolhidos, a dimensão da disponibilidade para o serviço.

Foi mesmo essa a dimensão que o Papa Francisco procurou destacar numa homilia feita a pensar nos novos cardeais, homens fortes da hierarquia da Igreja Católica. Defensor de uma reforma profunda da Igreja que comece nas estruturas de poder da própria Igreja, o Papa Francisco tem aproveitado todas as oportunidades para levar a cabo essa reforma. Este consistório é mais uma prova disso, ao incluir sobretudo cardeais defensores da reforma ou oriundos de zonas longínquas de Itália e da Europa, reduzindo o peso relativo que o Ocidente ainda hoje tem no governo de uma Igreja que está espalhada por todos os continentes.

Papa Francisco deixou vários recados aos novos cardeais. JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

“Que adianta ganhar o mundo inteiro, se se fica corroído por dentro? Que adianta ganhar o mundo inteiro, se todos vivem prisioneiros de asfixiantes intrigas que secam e tornam estéril o coração e a missão? Nesta situação – como alguém observou –, poder-se-iam já vislumbrar as intrigas de palácio, mesmo nas cúrias eclesiásticas”, referindo-se ao episódio bíblico em que são reveladas algumas fragilidades dos discípulos: “Busca dos primeiros lugares, ciúmes, invejas, intrigas, ajustes e acordos”. E já ali estava o aviso, logo nos primeiros parágrafos da alocução do Papa: cuidado com as tentações de corrupção, “mesmo nas cúrias eclesiásticas”.

Mas o Papa, que não fala por meias palavras, foi mais longe e explicitou o que pretende dos novos cardeais, que espera que sejam colaboradores firmes na reforma da Igreja Católica. “A conversão dos nossos pecados, dos nossos egoísmos não é nem será jamais um fim em si mesma, mas visa principalmente crescer em fidelidade e disponibilidade para abraçar a missão; e isto de tal maneira que na hora da verdade, especialmente nos momentos difíceis dos nossos irmãos, estejamos claramente dispostos e disponíveis para acompanhar e acolher a todos e cada um e não nos transformemos em ótimos repelentes por termos vistas curtas ou, pior ainda, por estarmos pensando e discutindo entre nós quem será o mais importante”, disse.

Francisco deixou ainda um outro recado a qualquer bispo que pense que a elevação ao cardinalato é uma promoção. “Jesus, antes de inclinar a cabeça na cruz, não teve medo de Se inclinar diante dos discípulos e lavar-lhes os pés. Esta é a mais alta condecoração que podemos obter, a maior promoção que nos pode ser dada: servir Cristo no povo fiel de Deus, no faminto, no esquecido, no recluso, no doente, no toxicodependente, no abandonado, em pessoas concretas com as suas histórias e esperanças, com os seus anseios e deceções, com os seus sofrimentos e feridas.” No fundo, nas periferias existenciais, como o Papa tem vindo a repetir há cinco anos.

D. António Marto sabe bem disto e ele próprio insiste frequentemente nestas ideias nas suas intervenções. Por isso, não terá sido muito difícil para ele ouvir, compreender e aceitar todos os recados que o Papa tinha para os novos membros do colégio cardinalício. Juntamente com os outros treze novos cardeais, o bispo de Leiria-Fátima jurou fidelidade ao Papa e aos seus sucessores legítimos, rezou o Credo católico e colocou-se na fila para subir ao altar e receber o barrete vermelho, símbolo do cardinalato. Naquele momento, sentiu “um peso que não tinha sentido antes”, viria depois a admitir aos jornalistas portugueses no Vaticano, no final da celebração.

D. António Marto instantes antes de receber o barrete cardinalício das mãos do Papa Francisco. JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

“À medida que a gente se aproxima para ser investidos, a gente sente um peso. Parece que não sentiu antes, mas sente assim como que um peso cá dentro a dizer assim: ‘Vais assumir uma nova missão’. Mas depois chega-se lá, àquela comemoração, na entrega das insígnias, a gente saúda o Papa e fica satisfeito”, lembrou D. António Marto depois. Na basílica estava uma grande comitiva vinda de Portugal. Padres das várias paróquias da diocese de Leiria-Fátima, elementos das instituições diocesanas e do Santuário de Fátima, presidentes de câmara ou familiares de D. António Marto, todos estavam ali.

Entre a comitiva portuguesa, respirava-se orgulho e satisfação, mas sempre sem esconder a estranheza ao ver D. António Marto no meio daquele cerimonial, com aquelas vestes e com aqueles protocolos tradicionais do Vaticano. “O D. António não é nada destas coisas”, comenta-se por ali. Mas vermelho fica-lhe bem, acrescenta-se. Ninguém esconde o orgulho. Nem a ministra da Justiça, Francisca Van Dunen, a representar o Governo português na celebração — e pela primeira vez a visita o Vaticano: “É obviamente uma grande honra para Portugal”. Ou o reitor do Santuário de Fátima, padre Carlos Cabecinhas, que à alegria junta a responsabilidade de fortalecer a ligação entre o santuário e o Papa, que está “no ADN de Fátima”.

D. António Marto na Aula Paulo VI, nas imediações da Basílica de São Pedro, onde recebeu cumprimentos dos convidados. JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

A celebração acabou como começou, discretamente, e o novo cardeal seguiu de imediato para a Aula Paulo VI, nas imediações da Basílica de São Pedro, onde esteve mais de uma hora a cumprimentar todos aqueles que se quiseram dirigir a ele. Antes, houve tempo para visitar o Papa emérito Bento XVI. “Estava bem. Com dificuldade em andar, disse-nos que o que podia fazer por nós agora era rezar”, comentou o cardeal com a imprensa, antes de sentar para a longa sessão de cumprimentos. Esta sexta-feira, o cardeal participa pela primeira vez numa celebração na Praça de São Pedro juntamente com todo o colégio cardinalício, de que agora faz parte.