O dramaturgo e argumentista Neil Simon, que morreu ontem em Nova Iorque aos 91 anos, teve um primeiro casamento muito tempestuoso. Uma vez, durante uma das discussões épicas que tinha com a mulher, Joan, esta bateu-lhe com uma costeleta de porco congelada que ia fazer para o jantar. Em vez de reagir, Simon pensou : “Hum, um dia tenho que meter isto numa peça.” E meteu mesmo. 

Neil Simon é o tipo de autor para o qual não temos que medir as palavras: uma lenda, um ícone, um gigante e o rei da Broadway, um dos maiores dramaturgos americanos do século XX que também deixou uma marca indelével no cinema e na televisão. Nas suas peças e argumentos sobre “pessoas reais”, como gostava de frisar, ele foi o porta-voz do americano médio, bem como do novaiorquino e do suburbano comum, dos casais e das parelhas de amigos, o retratista do seu quotidiano e dos seus altos e baixos sentimentais, das suas atribulações, queixas e idiossincrasias, usando sempre a linguagem do dia-a-dia. Era um mestre dos diálogos, das réplicas estralejantes e da coloquialidade volátil.

Génio da comédia, que cultivou em todos os registos, da sofisticada e da romântica à farsa, imensamente popular entre o público e a crítica – coisa muito rara-, Neil Simon teve mais nomeações para os Tonys e os Óscares do que qualquer outro autor. Ganhou três Tonys, dois Emmys, Golo de Ouro, um Pulitzer, o Prémio Mark Twain de Humor e quatro prémios da Writers Guild of America, entre dezenas de outros. Foi quatro vezes indicado aos Óscares. Nunca ganhou, mas deu a ganhar estatuetas em fitas que escreveu ou adaptou de peças suas, a Maggie Smith (Melhor Actriz Secundária) por “Um Apartamento na Califórnia” (1978); a Richard Dreyfuss (Melhor Actor)  por “Não Há Dois Sem Três…” (1977); e a George Burns (Melhor Actor Secundário) por  “Uma Parelha de Chatos” (1975). São as três assinadas Herbert Ross, um dos realizadores com quem mais trabalhou no cinema, tal como Gene Saks e Arthur Hiller.

Chegou a ter quatro peças em cena na Broadway (onde se estreou em 1961 com “Come Blow Your Horn”) ao mesmo tempo. Foi o primeiro dramaturgo a ter, em vida, um teatro com o seu nome, o Neil Simon Theatre, em 1983. Tem ainda um festival de teatro, o Neil Simon Festival, criado em 2003 em Cedar City, no Utah. A sua escrita assenta na observação do mundo em redor e dos outros e numa profunda empatia com o semelhante, sendo por vezes autobiográfica (ver a trilogia “Brighton Beach Memoirs”, “Biloxi Blues” e “Broadway Bound”, adaptada para o cinema e para a televisão). Entrelaçando a comédia e o drama, Simon nunca permite que este resvale para a pieguice ou para o pomposo e põe o humor à frente de tudo (“Meto sempre uma gargalhada para não dar tempo a que as pessoas se sintam tristes”, explicava. Acrescentando: “A minha ambição é que o público se ria tanto, que algumas pessoas desmaiem”).

Nascido em Nova Iorque durante a Grande Depressão, em 1927, Neil Simon refugiava-se em criança nos filmes para fugir ao mau ambiente em casa (o dinheiro faltava e os pais discutiam violenta e continuamente). Gostava das comédias de Charlot, Buster Keaton e Bucha e Estica, e ria-se tão alto que foi várias vezes expulso dos cinemas. Depois do liceu, onde começou a escrever humor, da tropa na reserva Força Aérea e da universidade, empregou-se no departamento de correio da Warner Bros, de onde saiu para ir escrever comédia na rádio e na televisão, com o seu irmão Danny. Colaborou, entre outros, no lendário “Your Show of Shows”, de Phil Silvers (1950-1954), onde conheceu Woody Allen, Mel Brooks e Carl Reiner, uma experiência que mais tarde recordaria em “Laughter on the 23rd Floor” (1993). Logo à primeira peça, a citada “Come Blow Your Horn”, em 1961, a Broadway recebeu-o em triunfo, tornando-se o seu “habitat” de eleição.

Apesar de preferir o teatro ao cinema, foi através dos filmes que escreveu, e das adaptações dos seus sucessos de palco ao cinema, que Neil Simon se tornou ainda mais conhecido e popular (além de rico), em filmes propulsionados pelos actores (nomeadamente, Walter Matthau e Jack Lemmon, seus velhos e grandes amigos) e pelos seus inimitáveis diálogos. É o caso de “Descalços no Parque”, de Gene Saks (1967), “Mal por Mal… Antes Com Elas”, de Gene Saks (1968), “A Sorte Viajou de Barco”, de Arthur Hiller (1970), “Suite em Hotel de Luxo”, de Arthur Hiller (1971), “Casei-me por Engano”, de Elaine May (1972), “Desgraças de um Citadino”, de Melvin Frank (1975), “Um Cadáver de Sobremesa”, de Robert Moore (1976), “Capítulo Segundo”, de Robert Moore (1982), “Os Rapazes de Biloxi”, de Mike Nichols (1988), “Esta Loira Mata-me”, de Jerry Rees (1991), ou “Dois Rabugentos em Viagem”, de Howard  Deutch (1998), entre muitos outros e além dos três de Herbert Ross antes referidos que deram Óscares aos seus intérpretes.

Neil Simon disse certa vez numa entrevista, sobre o seu ofício de dramaturgo: “Para mim, o paraíso é estar sentado numa sala sozinho, durante seis, sete ou dez horas, a partilhar o tempo com as personagens que crio. E se não é o paraíso, pelo menos é uma fuga ao inferno”. Durante mais de meio século, essas personagens fizeram rir milhões de pessoas nas plateias do teatro, nas salas de cinema e nas casas. Simon foi o demiurgo genial de um paraíso da comédia com um travo de acidez, que põe em cena, com conhecimento de causa, compaixão e muito, muito humor, as pessoas normais e as suas vidas complicadas.