O candidato presidencial às eleições do Brasil Jair Bolsonaro foi esfaqueado esta quinta-feira durante uma ação de campanha em Juiz de Fora, Minas Gerais. De acordo com informações divulgadas à imprensa brasileira pelos responsáveis do hospital onde Bolsonaro foi submetido a uma cirurgia, a operação correu bem e o candidato presidencial está estável e em recuperação, com a situação “controlada”.

Bolsonaro já foi transferido esta sexta-feira para o hospital Albert Einstein, em São Paulo, depois de ter sido operado e ter passado a noite na Santa Casa de Juiz de Fora. A ambulância que transportou o candidato presidencial saiu da Santa Casa de Juiz de Fora às 8h25 (hora brasileira), diz o Globo, em direção ao Aeroporto de Serrinha. As informações médicas dizem que está “extremamente estável”, mas vão ser realizados novos exames com os médicos do hospital.

À porta do hospital estão várias pessoas que, como forma de apoio, encheram um boneco insuflável de Bolsonaro. Na imagem, o candidato surge com uma faixa onde se lê “Presidente”.

O próprio Jair Bolsonaro falou após a intervenção. “Nunca fiz mal a ninguém”, disse num vídeo gravado na cama do hospital pelo senador Magno Malta (PRES) que o visitou junto com os filhos. O candidato recorda que, no momento em que foi esfaqueado, sentiu o que parecia “apenas uma pancada”, como num jogo de futebol. Só depois se apercebeu da gravidade do ataque: “A dor era insuportável. E parecia que tinha algo mais grave acontecendo”, conta.

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Eu me preparava para um momento como esse, porque você corre riscos”, declarou.

Ainda a falar com dificuldade, Bolsonaro agradeceu os cuidados e o trabalho da equipa médica e dos enfermeiros que, reforçou, impediram que o pior acontecessse. Ao seu lado, vê-se na mesma gravação, vê-se o senador a fazer uma oração junto à cama do candidato e a pedir a Deus pela sua recuperação. Antes ainda da operação, o candidato presidencial criticou o próprio atacante e demonstrou, com ironia, total confiança na recuperação. “Esse demónio não sabia fazer essas coisas, nem pegou direito. Não vai dar em nada”, disse Bolsonaro aos médicos que operaram.

O candidato presidencial já deixou uma mensagem no Twitter: “Estou bem e me recuperando”, referiu.

Na última atualização sobre o estado de saúde do candidato, a Santa Casa de Juiz de Fora, onde Bolsonaro deu entrada “com uma hemorragia interna” pelas 15h40 locais (19h40 em Lisboa), confirmou que as lesões foram numa artéria e no intestino, estando o candidato “com pressão arterial normal e sem risco iminente de morte”. O centro hospitalar informou que ainda não é conhecido o tempo de recuperação de Bolsonaro, mas que é garantido que este vai ficar no hospital “pelo menos entre uma semana e 10 dias”.

No momento em que foi atingido, o deputado do Partido Social Liberal (PSL) estava a ser carregado por apoiantes, tendo de seguida sido retirado do local. O suspeito, Adélio Bispo de Oliveira, foi apanhado em flagrante e espancado por pessoas que estavam no local, avançou o G1, que citou as autoridades. Horas depois, um segundo suspeito foi detido

A polícia informou ainda que o suspeito foi detido para a ser ouvido. Adélio Bispo de Oliveira foi filiado no Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) de Uberaba entre 2007 e 2014, disse a revista Veja. O suspeito terá dito estar a cumprir “uma ordem de Deus”, segundo Luis Boundens, presidente da Federação dos Agentes da Polícia Federal (Fenapef), e foi transferido esta madrugada para o Centro de Remanejamento do Sistema Prisional (Ceresp) de Juiz de Fora, de acordo com a Secretaria de Administração Penitenciária.

As autoridades policiais informaram que foi identificado um segundo suspeito, que pode ter colaborado com o autor do ataque. A detenção foi feita pela polícia da cidade de Juiz de Fora, em Minas Gerais, e o homem foi ouvido durante a noite desta quinta-feira. “Há informação de um segundo suspeito no caso. As investigações estão em andamento, mas já temos a identificação de um provável segundo suspeito na cena do crime”, confirmou o superintendente da Polícia Judiciária brasileira, Carlos Capistrano. A identidade deste segundo suspeito ainda não foi revelada.

Um dos filhos do candidato, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, revelou ainda que há suspeitas de mais pessoas envolvidas no ataque. “Muitos já falam que existem investigações que a faca não veio somente na mão do criminoso que deu a facada. Ela rolou na mão de outras pessoas antes.”

O suspeito, Adélio Bispo de Oliveira, foi o primeiro suspeito a ser detido logo a seguir ao ataque.

Um dos filhos do candidato, Flávio Bolsonaro, confirmou a informação do esfaqueamento através do Twitter, referindo que o “Jair Bolsonaro sofreu um atentado”. Inicialmente, foi referido que os ferimentos seriam superficiais, informação desmentida mais tarde, quando se soube que as lesões foram mais graves do que era esperado. “Perdeu muito sangue, chegou ao hospital com pressão de 10/3, quase morto…”, informou o filho, acrescentando que o candidato estava estável. De seguida, publicou uma foto do candidato no hospital, onde disse estar “mais forte do que nunca e pronto para ser eleito Presidente do Brasil no 1.º turno”.

O deputado informou também, através de um vídeo no Facebook, que Jair Bolsonaro não deve voltar a fazer campanha nas ruas por estar “numa situação delicada e com dificuldade de falar”. Mas garantiu: “Ele não pode ir às ruas, mas nós podemos”.

Num primeiro comunicado, a Santa Casa de Juiz de Fora informou que “o paciente Jair Messias Bolsonaro deu entrada no hospital por volta das 15h40 com uma lesão por material perfuro cortante na região do abdómen”. “Ele foi atendido na urgência, passou por um exame de ultra-sonografia e agora está no Centro Cirúrgico”, acrescentou a nota.

O vídeo do atentado, o suspeito e a arma do crime

Nas redes sociais, entretanto, já foram divulgados vários vídeos do momento em que o candidato à presidência foi esfaqueado. As imagens iniciais foram captadas pelo jornal O Globo.

Além da fotografia do suspeito, a polícia divulgou também uma fotografia da faca utilizada no ataque.

A faca utilizada pelo suspeito.

Ainda antes do momento em que foi esfaqueado, o deputado tinha abordado o seu “aparato de segurança”. “Todos os que estão comigo são da Polícia Federal e são voluntários. Até vocês que não integram ou nunca integraram as forças de segurança, como civis, colaboraram neste momento porque querem, em grande parte, ver mudar o nosso Brasil”, referiu Bolsonaro, citado pelos órgãos de comunicação brasileiros.

No vídeo abaixo, pode ver-se em câmara lenta o momento em que o suspeito tenta fugir depois do esfaqueamento, tendo sido apanhado pelas pessoas que estavam no local. 

Desde o fim de julho que o candidato é escoltado diariamente por uma equipa da Polícia Federal, uma garantia que é concedida aos candidatos à presidência.

O PSOL, partido no qual o suspeito era filiado, já reagiu e afirmou que o ataque a Bolsonaro foi “um grave atentado à normalidade democrática e ao processo eleitoral”. “O nosso partido tem denunciado a escalada de violência e intolerância que contaminaram o ambiente político nos últimos anos. Por isso, não podemos nos calar diante deste fato grave. Repudiamos esse ataque contra o candidato do PSL e esperamos das autoridades as medidas cabiveis contra seu autor!”, sublinhou o PSOL em comunicado.

Já Gustavo Bebianno, o presidente do PSL — partido do Bolsonaro — declarou: “Agora é guerra”.

Três candidatos cancelaram agendas

Para já, alguns dos candidatos anunciaram já que suspendiam as ações de campanha previstas para sexta-feira. Marina Silva (Rede), Geraldo Alckmin (PSDB) e Ciro Gomes, adversários de Bolsonaro, informaram que a sua agenda de campanha foi suspensa devido ao ataque ao candidato.

“Devido às circunstâncias excecionais, Marina Silva não terá agenda nesta sexta-feira (dia 7) até segunda ordem”, disse uma nota da ex-ministra.  Já Alckmin, que tinha marcado uma visita à cidade de Guaratinguetá, em São Paulo, também adiou os compromissos, “por respeito ao deputado Jair Bolsonaro”.

Ciro Gomes, do Partido Democrático Liberal, anunciou através do Twitter que cancelou as atividades de campanha em Natal. “Desejo que ele [Bolsonaro] se recupere, possa superar este momento e prontamente volte ao debate brasileiro”.

Bolsonaro, o “Trump dos trópicos” que lidera as sondagens

O ataque a Jair Bolsonaro ocorreu no mesmo dia em que foi anunciado que o candidato lidera as sondagens do Ibope (a empresa de referência em sondagens e estudos de mercado no Brasil) para vencer as eleições presidenciais, que vão decorrer em outubro. Ou seja, caso a primeira volta se realizasse agora — depois do Tribunal Superior Eleitoral ter anulado a candidatura de Lula da Silva — Bolsonaro venceria, ainda que não conseguisse fugir a uma eventual segunda volta onde, pelo contrário, os estudos indicam que perderia contra todos os outros candidatos, exceto o do Partido Trabalhista (PT).

Deputado federal desde 1991 e ex-capitão do Exército, Jair Bolsonaro foi lançado oficialmente como candidato à Presidência pelo PSL em julho e foi desde logo apontado como um dos favoritos para vencer as eleições.

Longe de ser uma figura consensual, o candidato tido como representante da extrema-direita brasileira, tem usado um estilo e um discurso na campanha que polarizam a sociedade, favorecendo comparações com Donald Trump. Os adversários apontam-lhe os comentários homofóbicos, sexistas, racistas, o discurso de ódio, a incitação à violência ou os elogios à ditadura militar.

Ficou aliás célebre a sua intervenção durante a votação do impeachment de Dilma Roussef, em 2006, quando dedicou o seu voto ao homem que tinha torturado a ex-presidente durante a ditadura militar.

Talvez por isso, a reação de Dilma ao ataque tenha sido a mais polémica, ao sugerir que a visão extremista do candidato pode ter motivado o crime: “Incentivar o ódio cria esse tipo de atitude”, disse.

“Incentivar o ódio cria esse tipo de atitude”. As reações ao ataque ao candidato brasileiro Jair Bolsonaro

A verdade é que, segundo os analistas políticos brasileiros, a narrativa de Bolsonaro tem funcionado junto de uma parte do eleitorado cansada da violência, do estado da economia e dos inúmeros escândalos de corrupção. O candidato tem feito uma bem sucedida campanha nas redes sociais — só no Facebook tem 5 milhões de seguidores –, apresenta-se como anti-sistema (apesar de uma vida política com quase 30 anos) e tem prometido mão pesada.

A dúvida agora é saber que efeito tem o ataque nas eleições.