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Dois suspeitos da morte do triatleta já foram detidos pela PJ. Um deles é a sua mulher, Rosa Grilo, de 43 anos. O segundo  é um homem cuja identidade não foi revelada. Em comunicado divulgado na manhã desta quinta-feira, a Polícia Judiciária refere apenas que tem 42 anos. Os investigadores suspeitam que teria uma relação amorosa com Rosa Grilo e que em causa estará um crime passional.

A Polícia Judiciária (PJ) esteve ao longo desta quarta-feira a realizar diligências, que ainda não terminaram, e que conduziram à suspeita. Ao final da noite foram emitidos os mandados de detenção, confirmou fonte da PJ ao Observador.

Na manhã desta quinta-feira, em comunicado, a PJ esclareceu que um tiro na cabeça terá sido a causa da morte do triatleta, um dia antes da mulher Rosa Grilo ter dado conta do desaparecimento do marido às autoridades. A arma de fogo já foi entretanto recuperada, bem como outros elementos com “relevante valor probatório”, adianta o mesmo comunicado da PJ.

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O desaparecimento sem deixar rasto

Segunda-feira, 16 de julho. O relógio marcava as 16 horas quando Luís Miguel Grilo saiu de casa numa bicicleta vermelha e preta, de marca Cannondale, e com um capacete negro na cabeça. Não levou documentos — apenas o relógio, para marcar os tempos, e o telemóvel, que costumava acondicionar numa bolsa de plástico no interior da roupa de treino para proteger o aparelho do suor. Segundo a mulher, Rosa Grilo, explicou na altura do desaparecimento ao Observador, o marido disse que ia fazer um treino curto e que voltaria, no máximo, em duas horas. Não voltou.

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“Estávamos de férias, mas como eu ia fazer um exame no dia seguinte, e que exigia alguma preparação e acompanhamento, ele ficou comigo em casa. Senão estaríamos fora. Excecionalmente, foi treinar àquela hora”, contou ao Observador. As duas horas passaram mas, mesmo assim, Rosa não estranhou a demora. “Era normal prolongar um pouco o treino”, explicou. Só quatro horas depois de Luís Miguel ter saído de casa é que contactou a GNR de Castanheira do Ribatejo.

As buscas na zona das Cachoeiras arrancaram logo na noite do desaparecimento, mas só no dia seguinte os meios foram reforçados. Além do pedido de localização celular, foram destacados cerca de 20 militares da Guarda Nacional Republicana — incluindo binómios homem-cão. A Polícia Judiciária viria a juntar-se às buscas e houve ainda a ajuda dos Bombeiros, de grupos de amigos que percorreram toda a zona e até de uma associação cinotécnica (com vários cães).

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A pista de maior porte chegaria ao terceiro dia de buscas, na quarta-feira à noite. Através do sistema de localização GPS, foi encontrado o telemóvel de Luís Grilo. Estava desligado, fora da bolsa de plástico onde costumava ser transportado e atirado para uma berma de estrada em Casais da Marmeleira — a seis quilómetros da casa do homem desaparecido.

Em simultâneo, as câmaras de videovigilância de uma fábrica a cerca de 100 metros do local onde foi encontrado o aparelho mostraram um ciclista a seguir em direção às Cachoeiras. As imagens foram captadas por voltas das 17h40, a cerca de 20 minutos da hora a que era suposto Luís Grilo ter regressado a casa. Mas segundo apurou, na altura, o Observador, não era possível identificar a identidade da pessoa.

Encontrado um mês depois

A investigação parecia travada pela falta de pistas, até Luís Miguel Grilo ter sido encontrado, mais de um mês depois do desaparecimento, a 134 quilómetros de casa, em Alcórrego, perto de Avis. Estava sem roupa, estendido e com um saco na cabeça. Ao lado, um tapete preto caído num dos arbustos. No mesmo dia foi confirmada a identidade do corpo: era mesmo o triatleta desaparecido.

Foi descoberto a 24 de agosto, não passava muito das 8h30 da manhã. Luís Martins, habitante de Alcórrego, não sabe bem o que lhe deu “para ir para aquele lado” e entrar naquela estrada de terra batida, saída do caminho municipal 1070, ao fundo da qual estava, sem saber, um cadáver. É sócio de uma associação de caçadores e agricultores da zona e, por isso, costuma andar por ali a vigiar os terrenos. “Todos os dias lá passo, mas pela estrada principal” e nunca pela de terra batida. Da estrada de alcatrão, consegue vigiar “aquilo tudo mais ou menos” e por isso basta-lhe passar com a carrinha por ali, contou na altura ao Observador.

Antes de chegar ao cruzamento com a Estrada Nacional 372, Luís virou à esquerda: “Passo para lá, não vi ninguém”. Soube, minutos mais tarde, porque é que não viu: o corpo estava à sua direita, do lado do banco do pendura. “A carrinha é uma 4×4, um bocado alta. Não deu para ver. Depois a estrada acaba e eu voltei para trás. Aí, estava o corpo já do meu lado esquerdo [do lado da janela do condutor]”, explicou. Bastou-lhe olhar para baixo, através do vidro.

Luís Martins não se apercebeu logo que era um corpo. Seguiu em frente, mas não andou muitos metros. Aqueles que andou foi a pensar naquilo que tinha acabado de ver. “Parei, voltei para trás, fui verificar. Afinal, aquilo era uma pessoa”, descreveu ao Observador.

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Telefonou “imediatamente” para o posto da GNR de Avis: “Não ia deixar a pessoa assim e ir-me embora. Tenho de ligar. Mais nada”. Até porque Luís desconfiou logo que não se tratava de um acidente. “Era impossível. Numa estrada de terra batida, com pouco movimento? Não se ia matar lá sozinho!”.

É uma estrada com pouco movimento, até porque não tem saída. Caso contrário, o corpo teria sido encontrado mais cedo, já que os arbustos não eram suficientemente altos para o esconder. Quando foi descoberto, estava com os braços abertos e os pés praticamente a chegar ao limite da estrada de terra batida. Tinha marcas de agressões que implicaram, obrigatoriamente, o uso de grande violência. Essa evidência foi imediata quando os primeiros elementos que lá chegaram retiraram o saco de plástico preto que cobria a cabeça da vítima.

O saco passou a ser, desde logo, um dos elementos que os peritos do Laboratório de Polícia Científica da Polícia Judiciária investigaram. As autoridades admitiam que podia ter sido utilizado como forma de “asfixiar a vítima”. Mas havia outras hipóteses, como a de ter sido uma forma de “evitar o reconhecimento do percurso, se a pessoa estava viva”. Ainda assim, fonte da PJ explicou, na altura, ao Observador que era “precoce” estar a determinar, de forma definitiva, a função que o saco de plástico teve na morte de Luís Grilo.

Além desse elemento, os inspetores começaram também a prestar atenção a um tapete preto, de grandes dimensões, que estava apoiado, ao alto e semidobrado, num dos arbustos ao lado do corpo. Uma das hipóteses mais óbvias era que tivesse servido para transportar o corpo de Luís Grilo, no caso de o homicídio ter acontecido noutro local e aquele terreno baldio ter servido apenas para depositar o corpo.

Corpo encontrado perto da casa dos sogros

Os dias seguintes trouxeram outro dado relevante ao caso. Luís Grilo tinha, afinal, uma ligação à zona onde o seu corpo foi encontrado. Passou a saber-se que a família da mulher vivia a cerca de 17 quilómetros do local, em Benavila — um destino para onde o triatleta costumava pedalar, a partir de Vila Franca de Xira, e onde, depois, pernoitava em casa de familiares. Muitas vezes, a mulher acompanhava-o de carro.

A bicicleta, uma Cannondale preta e vermelha, não foi encontrada. O facto de não estar junto ao corpo dirigiu o olhar dos investigadores para vários caminhos. Luís Grilo poderia ter sido atacado noutro local, onde poderia estar a bicicleta (tal como aconteceu com o telemóvel), eventualmente escondida numa zona de difícil acesso. Não foi, ainda assim, descartada uma outra hipótese: a de o homicida se ter livrado dela para afastar as suspeitas, ou até mesmo a de a ter guardado como troféu.

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De crime passional a um roubo que acabou em homicídio, as teorias passaram a ser muitas desde a descoberta do corpo. A investigação apresentava-se complexa e, por isso, nenhuma foi excluída. As autoridades consideraram que um assalto pudesse ter levado a este desfecho, confirmou na altura fonte da PJ ao Observador. O ataque podia ter saído fora do controlo dos assaltantes, que poderia ter entrado em pânico e tentado livrar-se do corpo.

Mulher negou envolvimento na morte

Aos poucos, a tese de um crime passional foi ganhando peso. Mas dias depois de ter sido encontrado o corpo, Rosa Grilo negou qualquer envolvimento na morte do marido, numa entrevista à TVI24. “Não, de todo. Não tenho nada a ver com isso”, disse. Rosa Grilo adiantou ainda que, devido aos ferimentos que o marido apresentava quando foi encontrado morto, acreditava na hipótese de um acidente de trânsito.

A mulher do triatleta dizia não conseguir “encontrar explicações” para o facto de o corpo de Luís Grilo ter aparecido perto do local onde vive a sua família. Esta quarta-feira foi detida por suspeitas de ter matado o marido.