Entre a utilização de dados de perfis de redes sociais nas campanhas de Donald Trump — 2016 — e Barack Obama — 2012 — há “diferenças chaves”. Quem o afirma é Rayid Ghani, cientistas de dados na campanha do antigo presidente americano, em conversa com o Observador quando passou por Portugal em julho. Num mundo pós-Cambridge Analytica, para o qual o Facebook até criou uma “War Room” só para eleições, a única coisa que o analista mudava, se voltasse a trabalhar numa campanha política norte-americana, era a transparência com que a recolha de dados é feita.

Acho que ainda há um longo caminho a percorrer [no trabalho das redes sociais para evitar abuso de dados]. Não é fácil de se fazer. É preciso mais transparência sobre quem tem acesso a que dados. Se se pensar em análise de dados, se for apenas para análise, não há problema. Mas se for para alterar um comportamento, devo dizer às pessoas. Tenho uma responsabilidade para te dizer”, explica Rayid Ghani sobre a análise de dados.

Rayid Ghani, que esteve em Portugal para a segunda edição do Data Science for Social Good Europe (DSSG Europe, iniciativa da Universidade de Chicago com a Nova School of Business & Economics), é um ativista pela utilização de dados para “ajudar a democracia”, como em 2017 já tinha contado em entrevista. A data da vinda coincidiu com o dia em que Barack Obama falou no Porto, mas não passou “apenas de uma coincidência”. Outra coincidência foi o dia, 6 de julho: exatamente quatro meses antes das eleições intercalares nos Estados Unidos da América, nas quais vão ser escolhidos novos congressistas e senadores.

As eleições intercalares não são apenas o primeiro grande teste pós-Donald Trump ao eleitorado norte-americano, são também um teste ao poder das redes sociais depois do caso Cambridge Analytica, que copiou indevidamente os dados de 87 milhões de perfis de Facebook para influenciar a campanha política do atual presidente dos EUA. Por causa disso, estão a ser tomadas várias medidas pelas empresas detentoras de dados de utilizadores, como o Facebook, a Google e o Twitter.

Os dados de milhões de eleitores podem estar lançados na Internet, mas vão ser fiscalizados como nunca o foram. Na campanha de Obama, em 2012, essa preocupação era diferente , explica Ghani: “O uso de dados protegeu a privacidade das pessoas desde o início. Tínhamos a permissão das pessoas. Foi tudo feito também com a explícita aprovação da plataforma do Facebook, que estava disponível para qualquer pessoa utilizar.”

Rayid Ghani foi cientista de dados na campanha de reeleição de Barack Obama, em 2012

Como o Facebook explicou este ano, depois de 2015, mesmo com aprovação da rede social, um cenário semelhante já não é possível, apesar de ainda esta sexta-feira ter sido divulgada uma falha na proteção de dados que expôs 50 milhões de contas. Além disso, o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (RGPD) da União Europeia criou, desde maio de 2018, um precedente na forma como se pode legislar sobre dados. Esta lei é uma “demonstração que os governos se estão a envolver e a decidir como os dados devem ser utilizados”, mas ainda há trabalho a ser feito e “é preciso ver o verdadeiro impacto”, refere o analista.

Nos Estados Unidos, estas normas europeias já criaram efeitos e, por exemplo, o Facebook passou a ser mais transparente sobre os dados que tem de cada utilizador. Mas o país ainda não decidiu se vai optar ou não “por este caminho mais regulador”, como foi dito na audição a Mark Zuckerberg no Congresso.

” [No Congresso] deviam ter feito mais perguntas a Mark Zuckerberg, relativamente à tecnologia. As questões deviam ter sido mais específicas e apropriadas. O que parece é que o Facebook podia ter feito mais, devia haver mais regulação e mais proteção”, afirma Rayid.

Mesmo com a implementação de medidas que visam impedir novos casos semelhantes ao da Cambridge Analytica, “ainda estamos nas fases iniciais para se perceber estas coisas”. Os dados podem ser importantes, mas não são tudo numa campanha, lembra também Rayid. Quanto ao impacto que teve na campanha de Trump, assume que só sabe “o que os media dizem”, já quanto à campanha de Obama, a utilização de dados foi importante, mas não é o fator crucial.

Usámos  [a análise de dados ] porque aumentou a probabilidade de ganharmos. E, provavelmente ajudou. Se não tivéssemos utilizado nenhuns dados? Não sei. Penso que tivemos um impacto de várias formas.

O que está o Facebook [e a Internet] a fazer para proteger as eleições futuras?

Falhas como a que foi revelada esta sexta-feira mostram que redes sociais como o Facebook não são, de longe, 100% seguras. De um momento para o outro, por um simples bug, 50 milhões de dados de contas podem ser comprometidos. Estas falhas podem ter consequências nefastas, como se viu com o caso Cambridge Analytica. Através destes dados é possível criar conteúdos falsos nas redes sociais para condicionar o sentido de voto de eleitores. A solução? Uma “sala de guerra”.

Para combater a propaganda política, a rede social já tinha divulgado que estava a contratar até ao final do ano até 20 mil funcionários apenas para melhorar a triagem de conteúdos e garantir que, em cada feed de notícias, o utilizador apenas tem acesso à informação mais verídica. Além disso, durante as próximas eleições no Brasil, que se realizam a 7 de outubro, e até às intercalares nos Estados Unidos, a 6 de novembro, a sede em Menlo Park vai ter montado um centro de comandos com peritos em engenharia informática e análise de dados para evitar repetir o que aconteceu anteriormente.

Mas o Facebook, apesar de ser a rede social mais utilizada em todo o mundo, não é a única fonte de informação — ou desinformação — na Internet. Prova disso foi uma das mais recentes audições no Congresso Americano em que Jack Dorsey, fundador e diretor executivo do Twitter, e Sheryl Sandberg, chefe de operações do Facebook (um dos braços direitos de Zuckerberg). A 9 de setembro, só uma cadeira ficou vazia a de Larry Page, diretor da Google.

Os senadores americanos queriam ser convencidos de que estas empresas salvaguardam a democracia depois de confirmações pelas próprias de que agências russas utilizam as suas plataformas para influenciar o resultado de eleições. “Para onde vamos a partir daqui é uma questão em aberto”, disse o político Mark vice-presidente do Comité de Inteligência do Senado.

A questão de Warner, que ficou “profundamente desiludido” com a ausência da Google, que não era obrigada a comparecer, continua em aberto. Mas houve reconhecimento aos esforços dos Twitter e do Facebook para combater este tipo de interferências. “Não estávamos preparados para a imensidão dos problemas que encontrámos”, afirmou Dorsey.

Estes problemas estão, maioritariamente, relacionados com contas falsas. O esforço feito está em impedir que os conteúdos destes perfis se propaguem na plataformas. Tanto o Twitter como o Facebook têm anunciado que apagaram centenas de milhares de contas a caminho destes momentos eleitorais, mas o verdadeiro resultado só se pode analisar depois das eleições.