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Estados Unidos da América

Nikki Haley demitiu-se. A pergunta na cabeça de todos é “porquê”?

A embaixadora dos EUA na ONU apresentou a sua demissão, combinada com o Presidente, e saiu em bons termos com a Casa Branca. Mas o que a levou a sair? São várias as teorias.

Nikki Haley, embaixadora dos Estados Unidos na ONU

Getty Images

O anúncio foi feito na Sala Oval, perante os correspondentes na Casa Branca. “Foram oito anos intensos e eu sou uma crente na limitação de mandatos”, disse a embaixadora dos Estados Unidos na ONU, Nikki Haley, para justificar a sua demissão — mantida em segredo pela própria e pelo Presidente Donald Trump, asseguram, há seis meses.

O facto de não ter havido qualquer rumor sobre a saída da antiga governadora da Carolina do Sul da administração Trump motivou muita especulação. Quais as motivações de Haley para sair da Casa Branca ao fim de apenas dois anos? Há várias hipóteses em cima da mesa. A CNN resumiu as três principais hipóteses: discordâncias internas com outros elementos da Casa Branca, motivações financeiras ou ambição política. Mas, na verdade, nenhuma destas possibilidades se excluem mutuamente.

Teoria número um: Haley quis evitar chocar com Pompeo e Bolton

Nikki Haley sempre teve posições alinhadas com Donald Trump no campo internacional, com alguns diferendos pontuais que não parecem ter afetado, contudo, a relação pessoal entre os dois.

O principal tema onde a embaixadora da ONU e o Presidente discordam é no que diz respeito à Rússia. Um dos momentos mais tensos aconteceu em abril, quando Haley anunciou novas sanções ao país, tendo sido desmentida pelo Presidente — que resumiu o momento como “uma confusão momentânea” de Haley. A diplomata, contudo, não deixou Trump sem resposta: “Com todo o respeito, não me confundi”, respondeu. O evento, contudo, não parece ter deixado marca entre os dois — pelo menos a avaliar pelo momento da despedida amigável desta terça-feira, na Casa Branca.

Eu posso falar com [o Presidente] a maior parte das vezes e faço-o. Se discordo de alguma coisa e acho que é algo importante o suficiente para levantar o assunto com ele, faço-o. E ele ouve-me. Às vezes ele muda de rumo, outras vezes não. É assim que o sistema deve funcionar”, declarou a própria.

O problema pode não ser portanto com o Presidente, mas sim com outras figuras dentro da Casa Branca, que chegaram depois de Haley: o secretário de Estado Mike Pompeo e o conselheiro John Bolton, ambos defensores de posições menos moderadas do que Haley no campo internacional. O New York Times escreve mesmo que Haley terá uma “relação tensa” com Bolton, “um crítico de longa data das Nações Unidas e uma figura mais dominadora do que o seu antecessor, o tenente-general H. R. McMaster”. O jornal destaca ainda no mesmo parágrafo que a agora ex-embaixadora tem demonstrado proximidade de Ivanka Trump e do seu marido, Jared Kushner — o que pode significar que ocupa uma ala diferente dentro da hierarquia da Casa Branca face a Bolton.

Teoria número dois: é tudo uma questão de dinheiro

Para além das motivações que podem ter surgido no local de trabalho, há quem destaque que podem estar em causa também motivações pessoais, nomeadamente financeiras. A própria Haley abordou essa questão na sua carta de demissão: “Como homem de negócios, espero que aprecie a minha ideia de que passar do Governo para o setor privado não é um despromoção, mas sim um sim uma promoção”, escreveu.

Em cargos públicos desde 2004, Haley tem tido salários que ficam bastante aquém do que poderia ter acumulado se tivesse trabalho durante estes anos no setor privado — a CNN consultou as declarações de rendimentos da diplomata e descobriu que em 2015, antes de entrar na Casa Branca, Haley e o marido declararam um rendimento combinado de cerca de 170 mil dólares por ano (cerca de 150 mil euros). A juntar-se a isso está o facto de um casal estar bastante endividado: entre hipoteca da casa, dívidas de cartões de crédito e empréstimos pessoais, os Haleys têm em dívida mais de um milhão de dólares — o Politico diz mesmo que o valor estará entre os 1,5 e os 2 milhões.

Não é por isso de admirar que pessoas próximas de Haley tenham dito ao Times que o mais provável é que a republicana aproveite este momento para “trabalhar no sector privado e fazer algum dinheiro”. Com a experiência que adquiriu nas Nações Unidas, será muito mais fácil para Haley neste momento conseguir um salário chorudo no sector privado. As relações da ex-embaixadora na ONU com o sector privado provocaram também fricção nos últimos dias, depois de a ONG Citizens Responsability and Ethics ter denunciado que Haley terá voado em jatos privados pertencentes a homens de negócio da Carolina do Sul sete vezes.

Teoria número três: Haley a Presidente?

Vista como muitos como uma jovem promessa do Partido Republicano, após o anúncio da demissão de Haley rapidamente surgiram vozes a levantar a possibilidade de a diplomata estar a pensar concorrer à presidência no próximo ciclo eleitoral. Haley, contudo, apressou-se a desmentir esse cenário: “Não irei concorrer em 2020”, declarou aos jornalistas, sentada ao lado do Presidente. “Posso prometer, isso sim, que estarei a fazer campanha por ele”, acrescentou, apontando para Trump.

Isso não significa, no entanto, que uma candidatura presidencial não esteja nas estrelas. “Só porque Haley não vai concorrer em 2020, não quer dizer que não vá concorrer. Lembrem-se que quer Trump ganhe ou perca em 2020, a nomeação do candidato republicano em 2024 vai estar em aberto”, escreve a CNN.

As declarações inocentes de Haley, mencionando um desejo de dar o lugar nas Nações Unidas a outro e a necessidade de não levar os mandatos até à exaustão, podem mesmo ser uma cortina de fumo, alerta a jornalista da New Yorker Susan B. Glasser. “Tratem-na como uma política”, diz a jornalista. “Ela está a candidatar-se a qualquer coisa — só não sabemos a quê.”

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