Um homem de 81 anos, residente em Pampilhosa da Serra, foi encontrado morto mas — esclareceu este domingo o INEM — não foi uma morte diretamente relacionada com a tempestade desta madrugada. Mas houve quase 2.000 ocorrências, várias vias cortadas em Leiria e Coimbra, 27 feridos ligeiros, 61 desalojados e 324 400 pessoas ficaram sem luz elétrica (200 linhas de alta/média tensão ficaram fora de serviço e ao início da tarde de domingo ainda havia 100 mil pessoas sem eletricidade), com a EDP a considerar a situação “muito grave” e a declarar o “Estado de Emergência” no distrito de Coimbra.

Este é o balanço que se pode fazer este domingo, horas depois de o Leslie ter entrado em Portugal continental pela zona da Figueira da Foz, após um desvio inesperado em direção ao norte do distrito de Lisboa, onde deveria ter aterrado. Na Figueira da Foz, as rajadas de vento ultrapassaram os 170 km/h, numa fase crítica que não terá ter durado mais de 15 minutos, o suficiente para causar muitos estragos.

À medida que a noite avançou e a tempestade tropical continuou o seu caminho em direção ao distrito de Bragança, o número de ocorrências continuou a aumentar, sobretudo nas zonas mais afetadas — Lisboa, Leiria e Coimbra (este último foi mesmo o distrito mais atingido, seguindo-se Leiria, Aveiro e Viseu). Esta foi a maior tempestade a a chegar a Portugal desde 1842, altura em que um furacão devastou a ilha da Madeira antes de seguir rumo ao sul de Espanha.

Dos 61 desalojados, 57 foram registados no distrito de Coimbra, um em Leiria e três em Viseu. Este domingo, 15 dos 18 distritos do território estão em alerta amarelo, excetuando Évora, Santarém e Portugal.

“Ainda não podemos dizer que o pior já passou”, afirmava Luís Belo Costa, da Proteção Civil, na última atualização feita já depois da meia-noite na sede do organismo, em Carnaxide. “Ainda estamos num momento muito intenso da tempestade”, o que significa que a avaliação é ainda “muito prematura”. “As ocorrências continuam a registar-se a um ritmo elevado”, lembrou o comandante, adiantando que os problemas causados pela passagem do Leslie dizem sobretudo respeito à queda de árvores. Até às 00h20, tinham caído cerca de 500. Estes foram os principais registos da noite e da madrugada.

Desvio na trajetória afastou Leslie da zona de Lisboa

Desde o início que o Leslie foi apontado como sendo um furacão imprevisível. De tal forma que, ao aproximar-se da costa de Portugal, acabou por alterar a sua trajetória, entrando no país num ponto mais a norte do que era esperado. Por causa disso, a zona da grande Lisboa, que as autoridades esperavam ser a mais afetada pela passagem da tempestade tropical, acabou por não o ser.  O encerramento da circulação rodoviária nas pontes 25 de Abril e Vasco da Gama, que chegou a ser noticiado por alguns órgãos de comunicação, também não se verificou. Apenas as ligações marítimas entre Belém, Trafaria e Porto Brandão foram canceladas.

Ainda assim, Lisboa foi uma das cidades que mais ocorrências registou — 133, ao todo. A maioria foram queda de árvores. Desde o início que as autoridades alertaram para a possibilidade de tal vir a acontecer, apelando à população para que se afastasse das zonas arborizadas e da costa por causa da agitação marítima. Foi por essa razão que a Avenida Marginal foi encerrada ao trânsito entre a Parede e Carcavelos, no sentido Cascais-Lisboa, ao início da noite de sábado. A circulação foi restabelecida algumas horas depois, por volta das 21h.

Fernando Medina acompanhou o desenrolar da tempestade na zona de Lisboa a partir da sede da Proteção Civil no Monsanto (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

A situação começou a melhorar na capital por volta das 23h, altura em que os ventos fortes começar a fustigar os distritos de Leiria e Figueira da Foz. Segundo o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Fernando Medina, que acompanhou o desenrolar dos acontecimentos a partir da sede da Proteção Civil no Monsanto, foram mobilizadas cerca de 750 pessoas das várias áreas da Câmara.

Figueira da Foz foi a zona mais afetada

O Leslie entrou em Portugal pela zona da Figueira da Foz, com a cidade do distrito de Coimbra a ser a mais afetada durante a noite deste sábado. O vento forte que se fez sentir na localidade criou o pânico entre a população que, apanhada de surpresa com a súbita intensificação das rajadas, se viu obrigada proteger-se junto a arcadas de prédios enquanto sinais de trânsito e árvores eram arrancados do chão.

Há carros danificados por causa das árvores, há estores de varandas que voaram. [Foi] uma coisa impressionante, jamais vista”, afirmou Jorge Dâmaso à SIC Notícias, os momentos de pânico que se seguiram à intensificação do vento, que terá acontecido por volta das 23h, fizeram com que ficasse sem estores e sem luz em casa.

O mau tempo obrigou também a reter cerca de 800 pessoas no Centro de Artes e Espetáculos da Figueira da Foz, onde decorreu um concerto da fadista Carminho. Ninguém ficou ferido.

Rajadas atingiram os 176 km/h na região mais crítica

Foi também na Figueira da Foz que foram registadas rajadas de 176 km/h, o valor máximo em Portugal continental, revelou Diamantino Henriques, delegado regional do Instituto Português do Mar e Atmosfera (IPMA) e delegado nacional da Comissão Internacional de Furacões, em declarações à SIC Notícias durante a noite de sábado.

Segundo o especialista, o agravamento súbito da região da Figueira da Foz poderá ter sido provocado por uma mudança brusca na direção do vento. Isso deverá voltar a acontecer quando o furacão chegar à zona de Bragança, e o “vento inicial de quadrante sul mudar para o quadrante norte”, disse também o representante do IPMA.

Mais de 300 mil pessoas ficaram sem luz

Pelo menos 15 mil casas ficaram sem o fornecimento de energia da EDP — que ativou o estado de alerta em Portugal continental devido à passagem do Leslie, reforçando as equipas operacionais de prevenção e suspendendo os cortes de eletricidade programados — ficaram sem luz elétrica em casa. Segundo Fernanda Bonifácio, diretora de distribuição, as zonas mais afetada são as da Marinha Grande, Pombal e Leiria, que representam “uma área muito significativa” da extensão dos danos. Até este domingo milhares de habitações continuavam sem energia.

Cerca de 200 linhas de alta/média tensão estão fora de serviço, indicou a EDP Distribuição num balanço da situação. Em comunicado, a empresa refere que na passagem por Portugal a tempestade “afetou fortemente” a rede de distribuição de eletricidade no litoral e norte do país.

A EDP Distribuição, que ativou o estado de alerta reforçando as equipas operacionais de prevenção às 18h00 de sábado, indica que “mais de 500 operacionais trabalharam durante a madrugada e continuam no terreno para reparação de avarias”. Apesar das “condições adversas”, como “estradas cortadas, árvores caídas e o forte vento” que “dificultam a execução das operações”, “parte da rede” já foi resposta, segundo o comunicado.

No entanto, a empresa adianta que, “face à dimensão dos danos verificados, crê-se que será um trabalho moroso, para os próximos dias” e que “serão adotadas soluções temporárias com instalação de geradores de emergência nas situações mais críticas”. Foi por estes motivos que a elétrica afirmou que vai pedir ajuda internacional e declarou o estado de emergência.

A situação está a ser acompanha ao minuto na Sala de Operações Conjunta dos serviços municipais da Proteção Civil de Lisboa, no Monsanto (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

Além destes concelhos, também os de Lisboa e Loures registaram falhas no fornecimento de energia. O distrito de Coimbra também foi afetado, com muitos clientes da Figueira da Foz a relatarem não haver luz em casa ou na rua.

Quase 2000 ocorrências mas nenhuma situação grave

Das 1.890 ocorrências registadas pela ANPC, 1.218 diziam respeito a quedas de árvores e 441 a quedas de estruturas, tendo o vento sido o fenómeno que causou maior número de ocorrências.

Segundo informações avançadas pelo INEM não há registo de situações graves nem de vítimas mortais, mas a emergência médica vai continuar com o mesmo grau de alerta durante as próximas horas. Ainda de acordo Diamantino Henriques, “o pior já terá passado em termos de intensidade”. “No entanto, as regiões onde [o Leslie] irá passar nas próximas horas irão sentir um aumento significativo da velocidade do vento”.

Houve, contudo, alguns deslocados, sobretudo devido a danos provocados em habitações. Em Coimbra, os concelhos mais afetados foram os de Figueira da Foz, Coimbra, Soure, Condeixa, Cantanhede e Mire, adiantou à SIC Notícias Carlos Luís Tavares, do CDOS de Coimbra. Os ventos fortes que se fizeram sentir nos concelhos fizeram voar os telhados de algumas habitações, o que levou a Proteção Civil a organizar o realojamento de alguns moradores por considerar que “não havia condições de habitabilidade”. Estas pessoas já foram realojadas, de acordo com Carlos Luís Tavares. O responsável deu ainda conta da existência de alguns feridos ligeiros.

A agência Lusa confirmou que o mau tempo desalojou também 50 utentes de um parque de campismo no concelho de Alcobaça.

A maioria das estradas cortadas devido ao mau tempo já foi reaberta, destacando-se o IC2, o IP3 e a A1, na região de Coimbra.

Leslie segue para Espanha através de Bragança. Mau tempo irá manter-se ao longo do dia de domingo

Segundo informações fornecidas pelo IPMA, o Leslie avançará pelo distrito de Coimbra, Viseu, pelo norte de Aveiro, Porto e Vila Real durante a madrugada deste sábado. “Deverá sair pela parte norte de Bragança”, tendo chegando a Espanha na manhã de domingo, de acordo com o Centro Nacional de Furacões norte-americano (NHC). Ao chegar ao território português, a tempestade perdeu intensidade mas ganhou velocidade.

O Leslie chegou a Espanha este domingo, tendo deixado várias regiões em alerta laranja e amarelo, como avançou o El País. Um vídeo partilhado no Twitter mostrou a queda de chuva intensa em Badajoz, na fronteira com Portugal, ainda na madrugada deste domingo: