Quando Richie Campbell ouviu reggae pela primeira vez, ainda era muito novo — tão novo que não se recorda exatamente desse primeiro contacto com o movimento musical jamaicano, que a UNESCO classificou esta quinta-feira de Património Imaterial da Humanidade. “Não me lembro muito bem mas provavelmente deve ter sido numa viagem de carro com a minha mãe”. A mãe do músico português de 32 anos, nascido Ricardo Ventura da Costa, “estudou em Inglaterra na altura em que o Bob Marley estava com um pico de popularidade”.

O reggae foi-lhe assim passado de pequeno pela progenitora e ficou-lhe no ouvido. No entanto, só muitos anos depois Ricardo Ventura Costa começou a querer fazer música. Aí o reggae já era companhia diária. “Assim que comecei a tentar, nem sequer escolhi particularmente o que ia fazer, saiu-me reggae. Não sei se era por ter essa base ou porque já ouvia muito. Quando tinha 15 ou 16 anos o reggae estava a ser muito ouvido na Europa e em Portugal”.

Aconteceu o que acontece com todas as músicas que os nossos pais ouvem: no início não prestamos muito atenção. Conhecemos, ouvimos, mas não pensamos naquilo como o tipo de música que queremos ouvir. Mais tarde, quando tinha 15, 16 anos, as coisas mudaram”, diz.

Essa explosão do reggae em Portugal coincidia com o nascimento de sound systems (espécie de coletivos de DJs e MCs) de jovens que se iam formando pelo país, em especial no distrito de Lisboa (mas não só). Inspirados nas sonoridades que ouviam já na internet, em festivais de músicas do mundo ou nas emissões da rádio Fazuma, uma geração cresceu ao som deste estilo musical jamaicano, que teve em Bob Marley a figura mais proeminente.

Bob Marley morreu há 34 anos. 4 canções, 4 histórias

As ondas de choque chegariam nos anos seguintes: o festival Musa, de Cascais, reforçaria a sua componente reggae; em 2009 (já Richie Campbell tinha 22 anos) arrancava o festival Sumol Summer Fest, na Ericeira, que dedicou as primeiras edições ao reggae, e outros festivais surgiriam em diferentes pontos do país, programando concertos de bandas como os S. O. J. A., Dub Incorporations e Natiruts e atuações de músicos como Anthony B., Patrice, Horace Andy, Gentleman, Matisyahu, Alpha Blondy e Alborosie.

Richie Campbell fez parte das ondas de choque desse contágio de Portugal pelo reggae. A par de Freddy Locks, Nubai Soundsystem, Simple Rockers, Kussonduola e Mercado Negro e Supa Squad, todos inseridos numa série documental da RTP sobre o reggae português (“One Love”), o cantor tornou-se embaixador deste género em Portugal. De todos, foi o músico ou cantor português que atingiu maior dimensão no reggae. Desse grupo, foi também quem teve uma carreira mais duradoura (este ano estreou-se na maior sala de espetáculos de Lisboa, a Altice Arena, antigo Pavilhão Atlântico), incorporando recentemente elementos de outros estilos musicais próximos, como o dancehall, e ligeiramente menos próximos, como o R&B.

Perceber, na Jamaica, que isto “é mais do que um género musical”

A primeira vez que Richie Campbell foi à Jamaica foi no ano de 2007 — tinha, na altura, 21 anos. A partir daí, começou a ir “quase todos os anos”, chegando a gravar um disco em Kingston (capital jamaicana) que editou em 2015, In the 876, em que contou com as colaborações de vários jamaicanos: o DJ de dancehall Sasco, o DJ de reggae Toyan, o cantor de reggae Jesse Royal e o produtor musical Nicholas “Niko” Browne.

Nas idas à Jamaica, Richie Campbell sentiu o que não sentira nas viagens a outros países: que “estava em casa”. Como ouvia reggae e dancehall “todos os dias”, a cultura era-lhe familiar. Lá, contudo, percebeu “a importância que o reggae tem na vida das pessoas. Não é só um género musical como é cá, está dentro da vida das pessoas, é a ferramenta que as pessoas têm para sair da pobreza, porque tem uma componente de luta e reivindicação nas letras”, refere.

Shooting… #InThe876

Posted by Richie Campbell on Monday, April 6, 2015

O que diferencia o reggae de outros géneros musicais, acredita Richie Campbell, é “a mensagem”. “O próprio reggae é uma mensagem, sem mensagem uma música não é reggae. É quase um código de conduta moral, que se aprende e que influencia tudo. Uma pessoa torna-se mais completa, mais ligada a questões sociais e políticas, mesmo que venha a fazer uma música diferente”, aponta.

Apesar da popularidade que o reggae teve na fase áurea de Bob Marley (contaminando, por exemplo, boa parte do pós-punk e rock britânicos) e mais recentemente aquando do seu ressurgimento na Europa , em Portugal mas também Itália (país de Alborosie) ou Alemanha (onde nasceu Gentleman), o género musical perdeu alguma atenção nos últimos anos.

Para Richie Cambpell, as razões para a perda de notoriedade do reggae são “complexas”. “Há 1001 motivos”, mas entre eles está o facto de “o reggae ser uma coisa de banda e hoje a música ser muito mais digital, poder ser feita por alguém que esteja sozinho, em sua casa”. Outra possível explicação é alguma desatualização da mensagem aos tempos presentes: “Basta pensar que uma das coisas que tornou o reggae tão popular foi a sua ligação com as drogas leves, com fumar canábis. Hoje, isso não é uma coisa exclusiva do reggae”.

JAMAICA! My second home…

Posted by Richie Campbell on Wednesday, December 10, 2014

A popularidade dos géneros musicais “tende a ser cíclica”, entende o músico. Certo é que, nos últimos anos, o hip-hop conquistou a hegemonia da cultura musical juvenil — em parte, em detrimento do reggae. Fica a história: Bob Marley e os Wailers, Jimmy Cliff, Peter Tosh, Lee “Scratch” Perry e tantos outros.