Miguel Ángel Martínez continuou durante esta quinta-feira o seu testemunho em tribunal, naquele que é o maior julgamento por narcotráfico dos Estados Unidos, que arrancou no dia 13 de novembro. E se antes contou como funcionava o transporte das mais de 200 toneladas de cocaína que Joaquin ‘El Chapo’ Guzmán traficou ao longo de três décadas — bem como a extravagância que isso lhe trouxe –, agora ‘El Gordo’ explicou como foram os tempos em que esteve preso no México e as tentativas de assassinato de que foi alvo. Tudo, alegadamente, a mando de Guzmán.

Logo na primeira vez em que foi preso, Martínez foi empurrado para um canto na sua cela e esfaqueado 15 vezes por outros prisioneiros. Sobreviveu e foi transportado para o hospital. Quando saiu de lá, voltou para a mesma cela com os mesmos colegas. E não esconde o medo que sentia: “À noite ouvia-os a afiarem as suas facas”, contou em julgamento, citado pela NBC News.

Antes de ser transferido para outra cadeia, ‘El Gordo’ — que era o braço direito de ‘El Chapo’ no cartel Sinaloa entre 1987 e 1993, atuando como piloto encarregue de contactar os cartéis colombianos — foi esfaqueado uma segunda vez enquanto fazia uma chamada, tendo sido de seguida colocado na solitária para sua proteção. Quando mudou de prisão, recordou um episódio em que os reclusos “começaram a gritar” para ele e a perguntar “qual o tamanho que calçava”. Explicação: os prisioneiros queriam os seus sapatos porque, no seu pensamento, Martínez ia acabar por ser morto. Quem o matasse iria conseguir o dinheiro vindo do cartel de Sinaloa.

Um dos episódios que ‘El Gordo’ recordou em tribunal foi uma noite em que ouviu uma banda fora da cadeia a tocar “pelo menos 20 vezes” uma das músicas preferidas de ‘El Chapo’: “Un Puno de Tierra”. A música fala sobre viver a vida ao máximo, deixando a mensagem: “No dia em que morrer, não levo nada comigo”. Na manhã seguinte, alguém armado e com uma granada apareceu no exterior da sua cela, mas um segurança da prisão impediu que algo pior acontecesse ao recusar abrir a porta da cela. Foi atirada uma granada para o interior, mas Martínez conseguiu abrigar-se na casa de banho da cela.

Eu nunca lhe falhei. Nunca o roubei. Nunca o traí. Tomei conta da sua família e a única coisa que tive dele foram quatro ataques contra mim”, disse.

A roupa de ‘El Chapo’, as promessas e a riqueza

Depois de Martínez, é agora Juan Carlos Abadia, um colombiano que também liderou um cartel, testemunhar em tribunal. Conheceu ‘El Chapo’ num hotel na cidade do México, em 1990, e confessa que ficou surpreendido com a eficiência com que Guzmán fechava os negócios. Quando liderava o cartel do Norte do Vale, a cocaína era levada para o México e, a partir daí, era o cartel de Sinaloa que ficava responsável por tornar possível a droga atravessar a fronteira. E, segundo o colombiano, Guzmán assegurava: “Eu faço o serviço muito mais rápido. Experimenta e vais ver. Os teus aviões, a tua cocaína e os teus pilotos vão estar muito mais seguros porque eu tenho boas ligações”.

Estas ligações que ‘El Chapo’ prometia passavam pela influência que tinham nas autoridades: “Quando os aviões chegavam às pistas clandestinas no México, eles eram protegidos por polícias federais. Recebiam os aviões e a minha cocaína e, mais uma vez, faziam eles próprios o descarregamento, o transporte e a escolta”, disse no julgamento, acrescentando que as pistas, além de estarem bem protegidas, tinham boa iluminação, asfalto sempre novo, boas instalações para reabastecimento dos aviões e até comida forneciam aos pilotos.

Uma vez chegados aos Estados Unidos, os homens do cartel levavam 60% da droga para vender e, como pagamento pelos serviços, ‘El Chapo’ ficava com 40% do produto. “Eles eram muito mais rápidos. Lembro-me de que faziam o serviço numa semana. Foi a primeira vez que um traficante mexicano entregou a droga tão rapidamente”, relatou o colombiano em tribunal. O período normal de entrega praticado pelos restantes traficantes era de um mês.

Em 2009, ‘El Chapo’ foi considerado pela revista Forbes como um dos bilionários mais ricos do mundo, juntamente com nomes como Bill Gates e Warren Buffett. Apesar de toda a riqueza e extragavância como as suas numerosas casas, carros e aviões, Guzmán mantinha a simplicidade nas suas roupas: usava calças de ganga ou pretas como uma camisola simples. Mas, em tribunal, tem aparecido de fato e gravata.