Augusto Santos Silva fez uma catarse política no Congresso dos Socialistas Europeus: façam o que eu digo, não façam o que eu fiz na terça-feira. Há três dias, o governo português recebeu de forma entusiástica o presidente de um regime autoritário, a China, mas esta sexta-feira disse que os socialistas europeus têm de lutar “contra qualquer forma de regime autoritário. Não podemos ser ambíguos seja esse regime de esquerda ou de direita, seja asiático, europeu ou sul-americano“. E repetiu: “Não podemos ser ambíguos”.

Ao ministro dos Negócios Estrangeiros coube apenas uma breve intervenção com as conclusões do painel que discutia a forma como uma aliança progressista podia defender e afirmar os valores sociais-democratas no mundo. A favor de Santos Silva está o facto de estar a fazer uma espécie de conclusão. Ainda assim, se ideologicamente os socialistas são contra ambiguidade, na realpolitik o governo socialista recebeu com pompa a China.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Mais do que definir o que é ser socialista e social-democrata, Santos Silva deixou claro aquilo que os socialistas têm sempre de combater: “Não podemos ser ambíguos na hora de lutar contra o autoritarismo, contra a ortodoxia neoliberal, e também não é legítimo, tendo em conta os nossos valores sociais-democratas, que as nossas posições sejam ambíguas na hora de combater a xenofobia, o discurso anti-imigração e o populismo.”

O presidente da China visitou Portugal nos dias 4 e 5 de dezembro. Augusto Santos Silva disse, ainda antes da visita oficial, que o momento seria “o assinalar da excelência das relações políticas e diplomáticas entre os nossos países, assim como do desenvolvimento da relação económica entre Portugal e a China.”

Numa entrevista ao semanário Sol dias antes da visita, Santos Silva também explicava que Portugal e China são países “amigos, mas não aliados”, mas destacava o bom momento que os países atravessam e como Pequim foi importante para a maior vitória diplomática portuguesa dos últimos anos: a escolha de António Guterres como secretário-geral das Nações Unidas.