O Presidente de França, Emmanuel Macron, procurou pôr um fim à “cólera” e “indignação” dos coletes amarelos ao anunciar esta segunda-feira uma série de medidas com o objetivo de que os franceses possam “viver melhor do seu trabalho”.

Uma semana depois de já ter cedido na taxa sobre os combustíveis carburantes, Emmanuel Macron quis apaziguar o maior desafio da sua governação com uma bateria de concessões: aumento do salário mínimo nacional; fim das contribuições para a segurança social entre os reformados mais pobres; e a criação de um prémio de fim de ano não sujeito a taxação ou descontos em todas as empresas.

“O salário de um trabalhador que receba o salário mínimo nacional aumentará 100 euros por mês a partir de 2019”, anunciou Emmanuel Macron. Em 2018, o salário mínimo nacional em França estava fixado nos 1188 euros líquidos — passando, desta forma, para os 1288 euros líquidos, de acordo com o que foi anunciado por Emmanuel Macron.

Além disso, o Presidente francês anunciou também a anulação da contribuição social generalizada para os reformados que ganhem menos de 2 mil euros mensais. Uma vez que essa taxa está fixada nos 0,3% para o ano de 2019, isto quer dizer que os reformados que ganhem menos de 2 mil euros já não vão ter de pagar a contribuição de 6 euros mensais — levando a uma poupança que pode ir até aos 72 euros anuais.

Emmanuel Macron anunciou ainda a criação de um prémio de fim de ano que não vai ser sujeito a impostos nem a contribuições. Sem referir o valor total dessa contribuição — nos últimos dias, chegou a falar-se de um teto máximo de 1000 euros, não confirmado neste discurso —, Emmanuel Macron tornou ainda claro que a instituição destes prémios de fim de ano não será obrigatória, mas sim apenas entre “todos os empregadores que possam”.

Também as horas extraordinárias vão deixar de ser sujeitas a pagamento de impostos ou contribuições.

Ainda assim, o chefe de Estado francês recusou aceder ao regresso do imposto de solidariedade sobre as fortunas, aplicado em governos passados, como o de Jacques Chirac ou François Hollande. “Voltar atrás iria prejudicar-nos”, disse, referindo os riscos de haver maior evasão fiscal no caso de um aumento dos impostos dos mais ricos.

“Posso ter prejudicado alguns de vocês com as minhas propostas”

Sobre as manifestações dos coletes amarelos, que marcaram os últimos quatro fins-de-semana de França com graves cenas de violência por todo o país, Emmanuel Macron procurou tanto reconhecê-las como condená-las.

“Os acontecimentos das últimas semanas em França e no ultramar perturbaram profundamente a nação. Eles foram uma mistura de reivindicações legítimas com um desencadear de violência inadmissível”, disse Emmanuel Macron. “Quero dizer-vos frontalmente que essa violência não vai contar com qualquer condescendência“, disse Emmanuel Macron, que precisou ainda que “não há cólera que justifique um ataque a um polícia ou a um guarda”.

Emmanuel Macron deixou ainda uma mensagem dirigida aos seus adversários políticos, visando, sem nomeá-los, aqueles que tanto nas eleições de 2017 como durante toda este fenómeno dos coletes amarelos mais frente lhe têm feito: Jean-Luc Mélenchon, da extrema-esquerda; e Marine Le Pen, da extrema-direita. A estes, deu o epíteto de “irresponsáveis políticos”.

“Vimos todos o jogo dos oportunistas que tentaram aproveitar-se da uma revolta sincera e poderem desviá-la. Temos visto todos os irresponsáveis políticos cujo único projeto é o de abalroar a República, procurando a desordem e a anarquia”, disse.

Referindo que o “sofrimento” de algumas pessoas em França “não é de hoje” e que “vem de muito longe”, Emmanuel Macron referiu ainda assim que assume a sua “parte dessa responsabilidade” e disse mesmo: “Posso ter prejudicado alguns de vocês com as minhas propostas”.

“Não esqueço que existe um cólera e uma indignação que muitos franceses partilham”, disse. “Esta cólera é muito profunda, mas também pode ser a nossa oportunidade.”

Marine Le Pen: “Macron recusa admitir que é o modelo que ele defende que está em causa”

Uma das primeiras personalidades políticas francesas a responder ao discurso e às medidas anunciadas por Emmanuel Macron foi Marine Le Pen, líder da União Nacional e principal adversária do atual Presidente nas eleições de 2017.

“Perante a contestação, Macron renuncia a uma parte dos seus erros fiscais, e ainda bem, mas recusa-se a admitir que é o modelo que ele defende que está em causa”, escreveu num primeiro tweet. Num segundo, elaborou aquela ideia, escrevendo: “Esse modelo é o da mundialização selvagem, da concorrência desleal, do comércio livre generalizado, da imigração em massa e as suas consequências sociais e culturais. Em síntese, Macron recua para ganhar balanço para saltar até mais longe”.

Jean-Luc Mélenchon, líder da França Insubmissa, de extrema-esquerda, e também ele um dos principais adversários políticos de Emmanuel Macron, criticou as medidas anunciadas esta segunda-feira. “Macron pensa que uma distribuição de trocos pode acalmar a insurreição cidadã que explodiu. É aos cidadãos que cabe dizer que isto lhes convém”, disse Jean-Luc Mélenchon, que ainda antes do discurso de Emmanuel Macron apelou a uma “quinta parte” das manifestações dos coletes amarelos, a levar a cabo já no sábado. Sobre as medidas em concreto, Jean-Luc Mélenchon referiu que estas são pouco amplas. “Uma parte considerável da população não é visada por qualquer uma das medidas de Macron”, disse o líder da França Insubmissa.

Outro adversário de Emmanuel Macron nas eleições presidenciais de 2017 que também já reagiu foi Benoît Hamon. O ex-candidato do Partido Socialista, que entretanto saiu daquela força política para fundar o movimento Génération.s, criticou a recusa de Emmanuel Macron de reinstaurar o imposto sobre as fortunas. “A subida da contribuição social generalizada é anulada pra os reformados que ganhem atém 2 mil por mês. Aos 2001 euros já se é um reformado rico para a poder pagar, ao mesmo tempo que os milionários continuam com a anulação do seu imposto sobre as fortunas…“, escreveu no Twitter.