No seu muito aguardado discurso aos franceses depois das violentas manifestações dos coletes amarelos, Emmanuel Macron anunciou uma bateria de medidas que podem cair nas boas graças dos manifestantes, como o aumento do salário mínimo nacional em 100 euros ou a criação um prémio de fim de ano em todas as empresas do país.

No entanto, o discurso de Emmanuel Macron não se fez apenas de medidas anunciadas, mas também de frases-chave que demonstram a sua postura perante aquela que é a maior vaga de descontentamento da sua presidência, iniciada em maio de 2017. Nas seguintes linhas, sublinhamos as frases mais importantes e tentamos entender o que elas significam — e por que Emmanuel Macron as disse.

Os acontecimentos das últimas semanas em França e no ultramar perturbaram profundamente a nação. Eles foram uma mistura de reivindicações legítimas com um desencadear de violência inadmissível. Quero dizer-vos frontalmente que essa violência não vai contar com qualquer condescendência.”

Foi com esta ideia de que Emmanuel Macron abriu o seu discurso. Apesar de fazer uma cedência às razões dos protestos que marcaram a vida pública e política de França nas últimas semanas — referindo as “reivindicaçoes legítimas” —, no início da sua intervenção focou-se sobretudo na crítica da violência daqueles protestos. Desta forma, numa alusão às manifestações que já estão previstas para este sábado, Emmanuel Macron voltou a prometer um combate cerrado à violência, negando “qualquer condescendência” a motins e outras formas semelhantes de protesto.

Vimos todos o jogo dos oportunistas que tentaram aproveitar-se da uma revolta sincera e poderem desviá-la. Temos visto todos os irresponsáveis políticos cujo único projeto é o de abalroar a República, procurando a desordem e a anarquia. Não há revolta que justifique que se ataque um polícia ou um guarda, ou que se estrague uma loja ou edifícios públicos.”

Este foi o maior recado deixado por Emmanuel Macron a dois dos seus maiores opositores políticos e também os dois políticos que mais têm respaldado os protestos dos coletes amarelos: Jean-Luc Mélenchon, da extrema-esquerda; e Marine Le Pen, da extrema-direita. Além de os acusar conjuntamente de serem “irresponsáveis políticos”, Emmanuel Macron manda ainda uma farpa especificamente dirigida a Marine Le Pen quando refere os ataques às forças de segurança, habituais merecedores de elogios da líder da União Nacional, a antiga Frente Nacional.

Talvez não tenhamos conseguido ao longo de um ano e meio dar uma resposta suficientemente rápida e forte. Assumo parte dessa responsabilidade. Pode ter acontecido eu ter-vos passado a ideia de que isso não era problema meu, que tinha outras prioridades. Também sei que posso ter prejudicado alguns de vocês com as minhas propostas. Hoje quero ser claro convosco. Eu bato-me por mudar o sistema político vigente, os hábitos, as hipocrisias.”

Emmanuel Macron nunca conseguiu passar a imagem de um homem comum. O seu passado como empresário, banqueiro e ministro da Economia, que na juventude passou por algumas das melhores escolas do país e que raramente usa um vocabulário descomplexado e simples, são razões para recorrentemente ser associado à elite parisiense cada vez mais contestada. Nesta parte do discurso, Emmanuel Macron fez o mea culpa possível e procurou afirmar-se como ele próprio um combatente das mesmas doenças do sistema político francês identificadas pelos manifestantes.

O debate não pode ser um assunto apenas de representantes institucionais. Deve estender-se a todo o território e a interlocutores naturais, cidadãos que devem receber as exigências e servir de ligação. Trata-se dos autarcas, já que são eles que representam a República no território. É por isso que eu mesmo vou reunir-me com os autarcas de França, região por região, para construir a base do nosso novo contrato para a nação.”

Macron é muito claro: vai sair de Paris para falar com o resto do país. Mas, ao dizer que se vai reunir com os autarcas, diz também com quem não se vai reunir: os coletes amarelos, que não têm representantes oficiais. Desta forma, Emmanuel Macron procura oficializar o debate que pretende iniciar a nível nacional, puxando para ele os autarcas de todo o país. A estes, caberá por sua vez receber as contestações e exigências de todos os franceses. Resta saber se os coletes amarelos estão dispostos a falar com as instituições ou a permanecer nas ruas.