A frase é uma referência à ocupação portuguesa em África e motivou a acusação de racismo vinda do Brasil: “Os portugueses são conquistadores. Gostam de deixar marca por onde passam.” A campanha publicitária — que não vai ser retirada — inclui ainda um copo de cerveja, visto de cima, em que no meio da espuma se vê o formato do continente africano.

A cerveja portuguesa quer chegar a São Tomé e Príncipe, França e aos Estados Unidos, mas esta campanha era especificamente dirigida à África do Sul. O Brasil ainda não está entre os países-alvo da marca, mas foi daqui que chegaram as maiores reações (para não dizer todas). Somaram-se as críticas e ofensas não só à marca, mas aos portugueses em geral e àquilo que foram os Descobrimentos — quando Portugal tomou, muitas vezes pela força, alguns países, escravizando os seus habitantes.

Vocês não tem nada do que se orgulhar em relação a seu passado colonialista e assassino. Pegou muito, muitíssimo mal essa publicidade”, escreveu a internauta Carolina Borges. “Carolina não entendo este ódio… sou brasileiro e me parece uma tamanha ignorância discutir coisas de um passado distante de uma outra época, te pergunto quem da sua família foi assassinado por Portugueses ? Coisa de quem não tem o que fazer”, respondeu Sandro Garcia, que defendeu a marca em várias respostas aos comentários negativos.

“Você quis dizer invasores?”, perguntou Gabriela Iba.
“Conquistadores não, genocidas mesmo”, respondeu Luiza Monteiro Breves.
“Marca? Marca até hoje na sociedade que foi explorada”, disse Ana Caroline Murrieta.
“A cerveja já vem lavada de sangue ou somente quando chegar ao continente africano?”, escreveu Keks Pucci.
“A gente tenta conviver em paz com os portugueses, mas eles não deixam”, lamentou Camila Anna.

Mas também houve quem defendesse a marca. “Eu amo cerveja e esta em particular. Todos os comentários a respeito da escravidão parecem desproporcionais e cínicos para mim”, escreveu Diogo Flowers. “Parabéns pela ideia. Apenas analfabetos funcionais que não conhecem nem valorizam o próprio passado reclamam de tamanha criatividade”, disse Bruce Wellington.

O anúncio que indignou muitos brasileiros

O impacto que a publicação teve no Facebook e a quantidade de comentários negativos levaram a Quinas a responder via comunicado às redações onde nega qualquer intuito colonialista:

“Em momento algum, a Quinas, quem desenvolveu a criatividade e quem a aprovou, quis ofender ou despertar sentimentos como os que temos visto nos comentários que têm sido postadas na página de Facebook da marca. Em momento algum, se quis fazer analogias com o passado histórico ou ligações ao colonialismo. Procurar e forçar essas ligações parece-nos demasiado forçado e comentários como os que temos recebido desproporcionados pelos conteúdos e agressividade dos mesmos.”

Sobre a campanha — que a marca garantiu ao Observador ir manter —, o comunicado referiu que a referência aos “conquistadores” se deve ao facto de ser “uma nova marca que se está a estabelecer no mercado português, e que tem conquistado mercados internacionais, em pontos de venda que procuram a proximidade com os portugueses que são emigrantes e que são tão saudosistas do que é português”. A Quinas disse querer homenagear os portugueses que saíram do país à procura de melhores oportunidade. “‘Conquistadores’ por sermos descontraídos e espontâneos, conquistando corações pela informalidade e alegria.”

A campanha preparada com a Consultório pretendia desvendar “a alma lusa e o seu caráter invulgar” e criar ligações com os consumidores portugueses. “Os portugueses são bons garfos”, “Os portugueses são transparentes” ou “Os portugueses são dançarinos”. “São infinitas as possibilidades a explorar em diferentes histórias, que farão sorrir o português, esteja ele onde estiver e criar uma relação empática com a marca, provocando emoções e associações que estimulam a preferência do consumidor e geram impressões memoráveis de proximidade com o público visado”, explicou a Quinas, que nasceu em julho de 2018, no comunicado em que divulgou a campanha.

A Quinas entrou no mercado da África do Sul, onde vivem 200 mil portugueses e lusodescendentes, no final do mês de janeiro, com 450 postos de venda. Ao Observador a Quinas disse não haver nenhuma reação negativa na África do Sul em relação à campanha. Aliás, nenhuma das restantes campanhas terá tido um impacto destes. “Até agora tem sido bastante positivo, os portugueses identificam-se com a mensagem que temos passado”, disse ao Observador Maria joão Parreira, responsável de marketing da marca.