O Presidente da República fez esta terça-feira observações duras à intervenção da polícia no último sábado na acampada do Rossio e avisou o Governo que vai “continuar vigilante na garantia do Estado de Direito democrático”. No final de uma visita à Agência Europeia da Segurança Marítima, António José Seguro subiu o tom habitual: “Não gostei do que vi nas imagens recentes, designadamente em Lisboa no passado sábado”. Seguro vai ao ponto de dizer que aquelas “não são imagens normais para uma democracia consolidada” e revelou que já pediu satisfações ao primeiro-ministro.

O chefe de Estado repetiu várias vezes, na mesma intervenção, que a “cultura portuguesa não é uma cultura de violência”, mas sim uma “cultura de diálogo”. O chefe de Estado acrescenta mesmo: “Desde as sete da manhã desse domingo [a seguir às cargas policiais], tenho estado sempre, sempre atento, preocupado, a recolher a informação, a exigir as informações de quem devo. Esse é o papel do Presidente da República.”

António José Seguro explicou depois que “ainda ontem [segunda-feira] reuni com o primeiro-ministro e naturalmente este foi um dos temas que foi falado”. O Presidente acredita ainda ter o povo do seu lado na rejeição da violência iniciada pela intervenção da polícia. “Não gostei do que vi, tal como estou convencido a maioria dos portugueses.” Não dá o passo a criticar a vertente operacional, alegando que “estão a decorrer inquéritos” e que estes “devem apurar se houve desvios do Estado de Direito ou não”. E exige que os inquéritos, como o do IGAI, “sejam rápidos”.

Seguro repetiu também que “lei e liberdade não são incompatíveis, bem pelo contrário.” E lembrou que para nos “respeitarmos todos temos de cumprir a lei”, mas logo acrescentou que “isso aplica-se às autoridades e aplica-se a todos os cidadãos, incluindo o Presidente da República.”

Seguro lembrou depois que sempre defendeu o diálogo e que foi, precisamente, “eleito sob a bandeira do diálogo e estarei sempre na defesa do diálogo.” O Presidente não percebe como os partidos não se conseguem “sentar para resolver o problema” da habitação. Para o chefe de Estado “os partidos políticos têm um dever de responsabilidade de encontrar soluções concretas” para esta crise.

O Presidente da República lembrou que já convidou os partidos para uma reunião, convocou o Conselho de Estado e anunciou que amanhã vai “reunir com especialistas na área da habitação”. E garantiu: “Tenho estado ativo, tenho estado vigilante na garantia do Estado de Direito democrático do nosso país. E volto a frisar: liberdade e respeito pela lei não são incompatíveis. ”

Sobre a habitação, Seguro deixa farpas aos partidos e ao Governo: “Porque não há diálogo? Porque as partes não se entendem?” E deixa três prioridades principais na habitação para as quais defende entendimentos: dinamizar o mercado de arrendamento, proteger os mais vulneráveis e a construção de casas. E volta a questionar: “Custa alguma coisa aos atores políticos reunir-se com esta urgência?”

No fim da intervenção Seguro voltou a dizer, numa resposta aos que queriam uma intervenção mais cedo e mais assertiva, que “o Presidente não tem como papel deixar achas para a fogueira”, mas deixou novamente uma garantia: “Serei um garante do Estado de Direito.”