Tudo estava a correr de feição a Emiliano Sala nesta temporada: o avançado argentino somava golos no seu clube, o Nantes, era o melhor marcador da equipa e disputava a lista dos maiores goleadores com nomes como Mbappé, Pépé, Cavani ou Neymar. Em apenas meia época tinha marcado quase tantos golos como na sua melhor temporada: só no Campeonato já tinha 12 e era o quinto melhor marcador da Ligue 1, lugar que ainda hoje mantém com 23 jornadas disputadas.

Com um registo tão promissor, o Cardiff, da Premier League inglesa, decidiu contratá-lo neste mercado de inverno. Mas aquele que seria um epílogo de sonho numa trajetória onde passou pelos alentejanos do Crato acabou por ser o princípio do fim. Na viagem para o seu novo clube, o avião de Sala desapareceu. O aparelho já foi encontrado mas desde aí muito se tem falado sobre o que terá ou não acontecido. Por entre informações, suspeitas e alguns mistérios, o que se sabe e o que falta saber do caso?

Como é que tudo começou?

Emiliano Sala transferiu-se do Nantes para o Cardiff no dia 19 de janeiro de 2019. A contratação do argentino parecia promissora para ambos: de um lado, Sala dava o salto para um Campeonato mais competitivo, onde sempre sonhou jogar; do outro, o Cardiff, que procurava sair dos lugares de despromoção – estava, na altura, em 18.º lugar, a dois pontos da permanência –, que passava a contar com um ataque reforçado. Sala tornava-se assim a mais cara contratação do clube galês, custando cerca de 17 milhões de euros. O futebolista dirigiu-se a Cardiff para assinar contrato, regressando a Nantes para se despedir da sua antiga equipa e arrumar os seus pertencer (o que, como confidenciou a alguns amigos através de uma mensagem que se tornou pública, acabou por demorar bem mais tempo do que esperava). Faltava depois seguir viagem, definitivamente, para o seu novo clube.

Como foi planeado o voo para Cardiff?

Aparecem aqui os primeiros pontos de interrogação sobre aquilo que terá acontecido a Emiliano Sala. Em concreto, na hora de planear a viagem. Surgiram duas opções: ou tratava o Cardiff de tudo ou a viagem ficava sob encargo do jogador. O clube galês já disse publicamente que se oferecera para tratar da viagem, oferta recusada pelo próprio Sala. A recusa surgiu, provavelmente, porque o agente do argentino, William McKay, já tinha tudo preparado: McKay contactou um piloto privado, David Henderson, que faria a viagem diretamente de Nantes para Cardiff. “Dave, preciso de um avião”, lê-se no email trocado entre agente e piloto, revelado pelo próprio McKay ao jornal francês L’Équipe. Porém, não foi Henderson que fez a viagem.

Porque é que o avião não foi pilotado por David Henderson?

David Henderson foi o piloto contactado pelo agente William McKay mas o voo não foi conduzido por ele. David terá recusado pilotar por não se encontrar em Nantes mas prometeu arranjar um piloto substituto. O escolhido foi Dave Ibbotson, um engenheiro de gás com licença de voo, mas… não a apropriada. Segundo o Telegraph, a licença do piloto não o permitia conduzir aeronaves com passageiros pagantes. A isso juntam-se os problemas financeiros que, alegadamente, Ibbotson atravessava. Por esse motivo, e apesar de não realizar o voo, foi Henderson que pagou todas as despesas da viagem ao seu colega, sendo essa a razão para só o nome de Henderson estar presente nos registos e faturas de voo.

Dave Ibbotson sabia pilotar aquele tipo de aeronave?

Não foi a primeira vez que Ibbotson pilotou este tipo de aeronave mas o próprio aparelho pode ter sido determinante para o acidente que se viria a registar. Falamos de um modelo Piper PA-46-310P Malibu, com apenas um motor e construído em 1984. Isto para atravessar o Canal da Mancha. O próprio Emiliano Sala percebeu que a aeronave não aparentava grande segurança. No último contacto que fez antes de embarcar, via WhatsApp, Sala enviou uma série de áudios para alguns amigos, dizendo que parecia que o aparelho “ia cair aos bocados” e que estava com medo.

Houve igualmente outras condições que podem ter perturbado de forma fatal o normal decorrer da viagem. Em primeiro lugar, Ibbotson foi chamado à pressa para pilotar o avião, visto que Henderson não recusou de imediato; depois, e principalmente, Ibbotson não se sentia confortável para viajar, por já não o fazer há algum tempo – na sua página pessoal de Facebook ficou explícito o receio do piloto, que se sentia “enferrujado” quando chegou ao Aeroporto de Nantes.

A publicação de David Ibbotson, em que o piloto admite que se sentia “enferrujado” antes do voo

As condições meteorológicas eram boas para voar?

O instituto de meteorologia britânico disse, em declarações à BBC, que as condições climatéricas em que o avião viajou não eram adversas. “Havia alguma chuva mas nada muito intenso. E a velocidade do vento também não era má, entre 25 a 30 quilómetros por hora”, acrescentou o instituto. O mais provável é o equipamento se ter desintegrado durante a viagem pela exigência do percurso face à qualidade da aeronave. A única influência que o estado do tempo pode ter tido na viagem está relacionada com as baixas temperaturas. Julian Bray, perito britânico em aviação, disse ao Daily Mail que os sensores de altitude podem ter congelado e dado registos errados ao piloto.

Afinal Emiliano Sala quis ou não embarcar naquele avião?

Há várias versões nesta história sem que exista uma resposta completamente certa. O Cardiff disse à imprensa inglesa que Sala recusou transporte do clube e que preferiu deslocar-se pelos próprios meios. Provavelmente terá “passado a bola” ao seu agente Willie McKay, confiando na sua escolha. Porém, pelo que se pode verificar nos áudios que enviou aos amigos, o argentino não parecia muito convicto sobre a viagem. A versão é confirmada esta terça-feira ao canal de televisão argentino América por Maximiliano Duarte, amigo de Sala. Segundo Duarte, o futebolista “não quis entrar naquele avião” e “foi obrigado a viajar nele e naquelas condições”, atribuindo as culpas ao agente do jogador.

Se as buscas terminaram dia 24, como é que foram encontrados destroços no dia 3?

São buscas diferentes, feitas por autoridades diferentes. A primeira ronda de buscas foi realizada pelas autoridades britânicas, com especial foco pela Polícia de Guernsey, a polícia de uma das ilhas inglesas situadas no Canal da Mancha. Essa ronda começou na noite de dia 21 de janeiro e terminou no dia 24, três dias depois. Cerca de 1.700 milhas – quase 4.400 km2  –foram analisadas a pente fino, com 80 horas de buscas. Nada foi encontrado e as autoridades britânicas saíram de cena, dada a falta de recursos e as fracas probabilidades de sobrevivência dos dois passageiros.

A segunda ronda de buscas, que encontrou então os destroços do avião, começou no dia 3 de fevereiro e foi realizada pela Blue Water Recoveries, uma empresa privada contratada pela família do jogador e com a ajuda de alguns donativos. A ela juntou-se a a Agência de investigação a acidentes aéreos do Reino Unido (AAIB), que também decidiu efetuar buscas subaquáticas, depois de terem sido encontrados numa praia de França os assentos da aeronave. Com uma investigação mais exaustiva bastaram menos de 24 horas para serem encontrados os destroços.

De quem é o corpo encontrado junto aos destroços?

Ainda não se sabe. Os destroços foram encontrados a 67 metros de profundidade e estão dispersos por várias zonas, sendo, por isso, uma operação de resgate complicada. As únicas imagens existentes foram obtidas através de uma câmara remota, pelo que ainda ninguém teve contacto com a aeronave ou com o corpo.

Quando serão retirados os destroços do fundo do mar?

Não há ainda qualquer previsão. Por enquanto mantém-se o estudo do terreno do fundo do mar através de controlo remoto – o chamado ROV (Remotely operated underwater vehicle, que significa “veículo submarino operado remotamente”). À Press Association, James Hotson, porta-voz da AAIB, disse que “não se pode dar qualquer indicação de quando é que os destroços serão retirados, nem se isso irá realmente acontecer”. Segundo Hotson, há sempre um risco de destroços deste género não poderem ser trazidos à superfície, sendo melhor aguardar por novas informações.

Sendo agora a morte de Sala o cenário mais provável, como fica a transferência?

Ainda não há certezas quanto a isto. A FIFA ainda não se pronunciou sobre a resolução financeira da transferência. O certo é que o pagamento do Cardiff ao Nantes seria feito em três fases e a primeira, que devia ter acontecido dia 21 de janeiro, não se consumou. Os franceses não reclamaram ainda a falha de pagamento, enquanto que o Cardiff está reticente em realizá-lo, querendo processar o dono da aeronave. Muito pode acontecer a partir daqui: o Nantes pode pedir o dinheiro porque a transferência foi registada na FIFA e na Federação Inglesa, mas o Cardiff também pode não querer pagar, visto não existir o objeto do contrato, sendo impossível cumpri-lo. Pelo meio, também o Bordéus terá parte a receber.

A história já dura há 16 dias e o final não parece estar perto. Ainda há muitas perguntas por responder. A ânsia quanto à procura do corpo do jogador cresce à medida que os dias passam. E mesmo que o cenário quase certo seja a morte de Emiliano Sala, costuma dizer-se que a esperança é a última a morrer. Para quem já a tiver perdido, Nala, a cadela do futebolista, ajuda com um pequeno impulso.

A publicação de Romina Sala, irmã do jogador, onde se vê a cadela Nala, ainda à espera do dono desaparecido