O abade do mosteiro de Montserrat, em Barcelona, pediu no domingo desculpa pelos casos de abuso sexual denunciados no último mês contra monges daquela casa, que manteve em segredo durante mais de vinte anos. “Os meus irmãos da comunidade e eu mesmo pedimos humildemente perdão às vítimas, solidarizamo-nos com a sua dor e oferecemos-lhes o apoio da comunidade”, disse Josep Maria Soler, superior do mosteiro, que é um dos mais importantes símbolos de Barcelona e da Catalunha.

O caso — o mais recente numa sucessão de notícias sobre abuso sexual de menores na Igreja em Espanha — começou há duas semanas, quando um psiquiatra espanhol a residir em Londres, Miguel Ángel Hurtado, disse à imprensa que tinha sofrido abusos sexuais cometidos pelo monge Andreu Soler, em Montserrat, em 1998.

Hurtado fazia parte do grupo de escuteiros católicos associado ao mosteiro, que tinha sido fundado pelo próprio padre Adreu Soler, e pernoitava frequentemente nas instalações dos monges. Foi aí que, em diversas ocasiões, ocorreram os abusos, segundo relata a imprensa espanhola.

O psiquiatra disse à comunicação social que os monges sabiam dos abusos desde, pelo menos, 1999. Hurtado garante que denunciou os crimes ao superior do mosteiro e que, na sequência da denúncia, recebeu uma carta garantindo que haveria uma investigação e ainda uma quantia de 7.200 euros, que o mantiveram em silêncio até janeiro deste ano. O dinheiro foi recebido em notas de 500 euros, para que o pagamento não pudesse ser identificado.

A única medida tomada pelo abade do mosteiro foi a transferência do monge em questão para outro mosteiro. Nunca abriu um processo canónico, como manda o Código do Direito Canónico, e não comunicou o caso às autoridades civis. Os abusos mantiveram-se em segredo durante vinte anos. E, pelo meio, o abade negou a existência de qualquer problema.

Quando, em 2000, a imprensa espanhola publicou um conjunto de reportagens sobre um suposto “lobby gay” no mosteiro, que teria usurpado o poder no interior da congregação e destituído os líderes anteriores, Josep Maria Soler deu uma entrevista ao jornal catalão La Vanguardia na qual criticava a “vontade de desprestigiar os valores evangélicos, a própria Igreja como instituição, a Catalunha e inclusivamente as bases éticas da sociedade“.

Como conta o El Mundo, a polémica da altura mobilizou a esfera política catalã, preocupada com o desprestígio de um mosteiro historicamente associado à identidade da Catalunha. O próprio Jordi Pujol, então presidente do governo regional catalão, deslocou-se pessoalmente ao mosteiro para apoiar os monges perante o escândalo provocado pelas reportagens.

Naquela altura, o abade já sabia das denúncias de abuso sexual contra o monge Andreu Soler, embora não tenha agido para proteger o menor, então com 15 anos. O monge acusado viria a morrer em 2008, mas só em 2016 é que o abade enviou para o Vaticano as denúncias. Foi preciso que a vítima, Miguel Ángel Hurtado, devolvesse o dinheiro e comunicasse a Josep Maria Soler que iria denunciar os abusos à comunicação social.

A denúncia de Hurtado, em 19 de janeiro, levou a que, menos de duas semanas depois, outra vítima se chegasse à frente para contar a sua história. Ricard Zamora, hoje com 55 anos, contou que no final de janeiro que em 1978 passou alguns dias com os monges em Montserrat, enviado pela família para corrigir o seu comportamento. Durante esse tempo, o padre Adreu Soler meteu-se na sua cama e tocou-lhe nos genitais.

Duas décadas depois, Josep Maria Soler continua a ser o abade de Montserrat. A divulgação do encobrimento dos abusos, porém, está a motivar pedidos de demissão. “Abade encobridor não pode ser pastor“, reclama Miguel Ángel Hurtado, que não aceita que os abusos na comunidade sejam investigados por uma comissão criada pela própria comunidade.