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Estados Unidos da América

“Designated survivor”: a história do homem que podia ter sido presidente dos EUA caso algo tivesse corrido mal no Estado da União

Durante o discurso do Estado da União, esta terça-feira, se alguma tragédia tivesse afetado o congresso nos EUA, havia uma pessoa pronta a assumir a presidência. Este ano, Trump escolhou Rick Perry.

Rick Perry, secretário para a Energia, foi o "sobrevivente designado" escolhido por Donal Trump este ano

Getty Images

A expressão designated survivor ficou mais célebre depois de ter dado título a uma série da televisão americana ABC. Precisamente aquela que trouxe de volta aos ecrãs o ator principal da série 24,  Kiefer Sutherland, e que conta a história de como a personagem Tom Kirkman chega à presidência dos Estados Unidos depois de o Congresso ter sido palco de um atentado terrorista durante o discurso do Estado da União. O ataque matou todas as figuras na hierarquia da presidência e Kirkman, que tinha sido apontado como “sobrevivente designado” para o caso de se dar uma tragédia semelhante àquela que acabou mesmo por acontecer, assume as rédeas da Casa Branca.

A história não é real, mas a designação de tal cargo existe mesmo nos Estados Unidos. Antes do discurso do Estado da União, que se realizou esta terça-feira, o Presidente dos Estados Unidos nomeou um dos membros da sua administração como designated survivor para o caso de uma catástrofe atingir o congresso durante a cerimónia. A escolha só pode ser tornada pública no próprio dia, poucas horas antes do presidente ter discursado. O governante escolhido ficou em parte incógnita, escondido, num bunker subterrâneo e sob apertadas medidas de segurança. O nomeado deste ano foi Rick Perry.

A própria expressão é auto-explicativa. Para se ser um sobrevivente é indispensável que haja uma tragédia. Assim como para se apelidar alguém de “designado” é necessário que exista alguém – neste caso, um superior – que o escolha para uma missão. Aqui, é a de liderar uma das maiores potências mundiais caso não haja ninguém em melhores condições para o fazer. No mundo fora dos ecrãs, nunca a figura do “sobrevivente designado” chegou a substituir o presidente em funções.

No entanto, todos os presidentes americanos têm de indicar alguém. E Donald Trump escolheu este ano Rick Perry, o secretário para a Energia. Em 2017, o Chefe de Estado tinha optado por David Shulkin, secretário para Assuntos Militares, e no ano passado indicado o então secretário para a Agricultura, Sonny Perdue.

O nome escolhido deve cumprir uma série de regras. Além de ter de ser alguém que pertença ao Governo, deve ser um nome que já tenha sido aprovado pelo Senado – o que exclui à partida aqueles que desempenham funções de forma interina. Outro requisito indispensável é o de poder integrar a linha de presidência dos Estados Unidos – o que impede que os governantes nascidos fora do país, por exemplo, não possam ser apontados.

Estas duas regras em particular limitaram muito a escolha de Donald Trump este ano. Além de haver vários cargos na linha de sucessão que estão ocupados por personalidades de forma interina – o recente shutdown exponenciou o número de governantes nesta condição -, o Presidente dos Estados Unidos não pôde escolher pessoas da sua confiança que tenham nascido fora do país, como é o caso da secretária para os Transportes, Elaine Chao.

O percurso de Rick Perry é tudo menos linear. Assim como a sua relação com Donald Trump. O atual responsável pela tutela da Energia na administração norte-americana entrou para a política através do Partido Democrata. Desfiliou-se para integrar o Partido Republicano em 1989, quando entrou para a Assembleia Municipal do Estado do Texas. Trabalhou com George W. Bush, antes ainda de chegar à Presidência dos Estados Unidos, e em 2000 venceu as eleições para Governador do Texas.

Em 2012, candidatou-se às primárias do Partido Republicano, tendo desistido a meio da corrida partidária. Repetiu a dose em 2016, tendo sido adversário direto de Donald Trump, protagonizando alguns bate-bocas duros com o agora Presidente dos Estados Unidos. Perry chegou a considerá-lo um “cancro no conservadorismo”. Uma crítica que lhe foi devolvida, claro está, através do Twitter, quando Trump admitiu que não era propriamente um fã do trabalho do ex-governador do Texas. No entanto, com a desistência de Perry os dois candidatos aproximaram-se e o texano acabou por integrar o governo de Trump. Esta escolha para designated survivor está, por isso, revestida de uma dose de ironia.

O “sobrevivente designado” que esperou à chuva por um táxi

A primeira vez que um presidente dos Estados Unidos escolheu um “sobrevivente designado” terá sido nos anos 60, em plena Guerra Fria. Os historiadores ainda não conseguiram consensualizar uma data específica, até porque, inicialmente, tratar-se-ia de uma medida protocolar mais informal e dispensava a comunicação pública da escolha. O circuito que tinha conhecimento da solução era o estritamente necessário, o grupo de pessoas que seria fundamental para avançar com a sucessão caso as ameaças da Rússia se concretizassem.

A prática tornou-se recorrente e a partir dos anos 80 o nome do escolhido passou a ser do conhecimento público. Os cuidados com a segurança, esses, foram sendo adaptados. Depois da queda do muro de Berlim e, consequentemente, do fim da Guerra Fria, em 1991, as medidas aligeiraramm-se.

Exemplo disso é a história recordada no podcast do Washington Post, Post Reports, na segunda-feira. Em 1997, Bill Clinton nomeou Dan Glickman, então responsável pela pasta da Agricultura no governo norte-americano, como designated survivor. Antes dos atentados de 11 de setembro, quando as medidas de segurança voltaram a aumentar em todo o país e o todo o protocolo de estado foi revisitado, esta espécie de presidente de backup podia escolher o sítio em que seria escondido durante o discurso do Estado da União – hoje em dia existe um bunker próprio para o efeito. Glickman quis passar aquelas horas em casa da sua filha, em Nova Iorque. Esteve a ser permanentemente vigiado por agentes de segurança.

Quando Bill Clinton voltou à Casa Branca, as forças de segurança desmobilizaram e o secretário da Agricultura decidiu ir comer uma pizza com a filha. Naquele dia, a 4 de fevereiro, chovia fortemente em Nova Iorque. Pai e filha desceram para apanhar um táxi para o restaurante previamente escolhido pelos dois. Na rua, esperaram longos minutos. Se alguém tivesse tirado uma fotografia àquele momento em que Glickman, acompanhado pela sua filha, esperava por uma boleia debaixo de chuva, poucos acreditariam que se trataria do designated survivor. O mesmo que, minutos antes, era provavelmente a personalidade mais vigiada e segura dos Estados Unidos e que, caso se desse uma tragédia, podia ter de vir a suceder a Clinton na Casa Branca.

Este momento caricatural mas representativo, espelha na plenitude aquilo que é ser o presidente de recurso dos Estados Unidos durante umas poucas horas. Atualmente, as regras mudaram, as medidas de segurança aumentaram e as tecnologias que podem ser utilizada são mais avançadas. Mas a figura de “sobrevivente designado” continua a ser imprescindível e a gozar de um regime de alta segurança digno das mais altas instâncias mundiais – ainda que de forma temporária. E mesmo que chova.

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