Na política norte-americana, ela é provavelmente a figura mais mediática e que mais tem dividido opiniões desde que Donald Trump e Bernie Sanders passaram de radicais e piada a candidatos a presidente dos Estados Unidos da América. Figura proeminente da ala esquerda do Partido Democrata, Alexandria Ocasio-Cortez também já superou expectativas — com 29 anos tornou-se a mais jovem congressista de sempre do país. Esta sexta-feira quis agitar as águas (e de que maneira), com um discurso que está a ser partilhado a um ritmo alucinante na internet e a ganhar eco nos meios de comunicação social.

Tudo começou com um jogo. Perante um comité da câmara dos representantes, a chamada “câmara baixa” do Congresso, Ocasio-Cortez começou por desafiar os interlocutores: “Vamos jogar um jogo”, disse. No jogo, ela iria ser a “pessoa má” — afinal, “metade da sala já acha que o sou, de qualquer forma”. Nesse jogo de xadrez político, Ocasio-Cortez seria a pessoa que “quer safar-se de tantas coisas más quanto possível, idealmente para enriquecer e salvaguardar os meus interesses, mesmo que isso signifique pô-los à frente dos interesses do povo americano”.

O jogo teve uma finalidade: expor como o sistema político dos Estados Unidos da América está “fundamentalmente avariado” e como é fácil a um político — congressista ou, sobretudo, Presidente do país — servir os seus interesses e/ou os interesses dos seus financiadores no exercício da atividade política. Fê-lo colocando algumas perguntas a membros do comité, que utilizou para validar os seus argumentos.

[O vídeo do discurso de Alexandria Ocasio-Cortez na íntegra:]

Eis o primeiro argumento que usou para expor as grandes falhas estruturais do sistema político norte-americano: se quisesse liderar uma campanha política inteiramente financiada por uma grande empresa da indústria de combustíveis fósseis ou financiada por uma grande farmacêutica, poderia? Poderia pois. E se fosse eleita presidente, haveria limites à legislação que poderia propor mediante os financiamentos recebidos? Isto é, “há alguns limites às leis que posso conceber ou influenciar, especialmente se puderem ser condicionadas por financiamentos que aceitei receber e que me colocaram neste cargo?” Nem por isso. “Não existem limites”, responderam-lhe os especialistas na matéria.

Ocasio-Cortez percebeu, mas quis insistir e perguntar mais claramente, até por ter uma agenda de defesa do ambiente que já resultou numa espécie de programa de governo para essa área, o Green New Deal. “Portanto, posso ser inteiramente financiada por empresas petrolíferas ou por grandes farmacêuticas e desenvolver, por exemplo, leis bastante importantes para o setor farmacêutico. Não há nenhuns limites a isso?” A resposta: “É isso mesmo”.

A congressista não estava satisfeita. Neste jogo, ela era a pessoa que queria “enriquecer trabalhando tão pouco quanto possível”. Portanto, passou-lhe outra coisa pela cabeça: “Há alguma coisa que me impeça de comprar ações, digamos, de uma empresa petrolífera e depois escrever leis para desregular essa indústria”, eventualmente ganhando dinheiro com isso? “Pode fazê-lo”, explicaram os peritos. “Mas posso fazê-lo tendo em conta as leis atuais?”, perguntou ela, como se ainda precisasse de clarificação. “Sim”, acederam.

Ocasio-Cortez ainda tinha um trunfo na manga. “Uma última coisa”, como começou por enunciar. Tinha a ver com a monitorização da sua ação enquanto congressista. “Os limites de ação que me são impostos como congressista são comparáveis aos que são impostos, digamos, ao Presidente dos EUA? Diriam que a obrigação de prestação de contas que este congresso tem é a mesma do Presidente dos EUA, é maior ou é menor?” A resposta veio diplomática, mas clara: “Em termos das leis que se aplicam ao Presidente… praticamente não há leis algumas que se apliquem ao Presidente“.

A congressista quis acabar o jogo com um xeque-mate: “Portanto, eu e todas as pessoas deste órgão somos alvo de padrões éticos mais exigentes do que o Presidente dos Estados Unidos?”, perguntou. “Correto”, explicaram-lhe, “porque, no seu caso, há regras definidas por comités de ética que se lhe aplicam”. Para terminar, palavras mais simples para todos perceberem: “Já é super legal para mim ser uma pessoa bastante má. Isto significa, portanto, que para o presidente dos EUA é ainda mais fácil sê-lo?”, perguntou. A resposta foi um lacónico “está certo”.

Ela agradeceu muito e terminou o discurso. Não precisou de terminar dizendo aquilo que já todos sabem que pensa: que as regras de financiamento para os partidos e políticos e a falta de vigilância sobre as suas atividades permitem conflitos de interesses. Talvez o tenha dito durante o discurso, mas mais cedo e com alguma ironia: “Alistei-vos a todos como participantes da minha conspiração”.

[Knock Down the House, o documentário sobre mulheres emergentes da política americana de que Ocasio-Cortez é protagonista e cujos direitos de distribuição foram já adquiridos pela Netflix:]

Nota — Artigo atualizado às 12h38 do dia 09/02/19 com uma correção: onde se encontrava por lapso “câmara baixa” do Senado lê-se agora “câmara baixa” do Congresso