Enviado especial ao Vaticano

O livro prometia abalar o Vaticano. Inicialmente anunciado como um “documento explosivo” envolto em mistério, o livro do jornalista francês Frederic Martel, “No Armário do Vaticano”, foi colocado à venda esta quinta-feira em oito línguas — incluindo em português, pela Porto Editora — e a data não era inocente. Aconteceu no dia em que arrancou no Vaticano uma cimeira dedicada aos abusos sexuais na Igreja Católica, com a presença de 190 líderes católicos, incluindo os presidentes das conferências episcopais de todo o mundo, atraindo a atenção dos media internacionais para Roma. No livro é exposto aquilo a que o autor chama a “hipocrisia” da Igreja: um clero que, ao mesmo tempo que critica publicamente a homossexualidade, a pratica dentro dos muros do Vaticano.

Uma semana antes da publicação do livro, já se conheciam alguns pormenores: Frederic Martel escreve que entrevistou cerca de 1.500 pessoas, incluindo 41 cardeais, 52 bispos ou monsenhores, 45 diplomatas, 11 guardas suíços e mais de 200 padres e seminaristas, argumentando que entrou no “armário do Vaticano”, onde há um “código” secreto partilhado por todos os elementos. A maior revelação apresentada no livro será talvez a de que, segundo a investigação de Martel, 80% dos padres do Vaticano são homossexuais. Esta estatística resulta da estimativa de Francesco Lepore, um padre que foi dispensado do estado clerical após descobrir que era homossexual e que é um dos principais entrevistados do livro.

Nas últimas semanas, o livro tem sido ponto central das conversas nos corredores do Vaticano. “O livro”. Basta assim. “Aqui todos andam a falar d’O Livro”, diz ao Observador uma jornalista correspondente no Vaticano. A expectativa era grande. Por um lado, as muitas perguntas sobre o que traria o conteúdo do livro. Depois, as dúvidas sobre a credibilidade de muitas informações, cujas fontes não são apresentadas. Finalmente, a grande dúvida sobre a percentagem, por muitos considerada exageradamente alta e pouco fundamentada, de homossexuais entre o clero do Vaticano.

Porém, chegado o dia do lançamento, o livro não roubou as atenções da cimeira dos abusos sexuais, como muitos temiam. O tema do dia foram mesmo os abusos de menores e a responsabilidade dos bispos. No Vaticano, praticamente não se falou do armário durante esta quinta-feira, apesar de a imprensa católica ter publicado as primeiras críticas literárias pouco abonatórias para a credibilidade da obra. Apesar de Frederic Martel associar, no livro, a cultura de segredo em torno da sexualidade à maior prevalência de abusos, a mensagem que o Vaticano passou é a de que não há grupos de pessoas com maior ou menor inclinação para pecar.

A reação oficial surgiu quando uma jornalista perguntou, a propósito do livro, qual a posição da Igreja sobre a relação entre os abusos e a homossexualidade, durante uma conferência de imprensa após os trabalhos da manhã. O painel, composto por dois bispos (Charles Scicluna, principal investigador do Vaticano para a questão dos abusos, e Mark Coleridge, arcebispo de Brisbane, Austrália), dois padres (Hans Zollner, organizador da cimeira, e Federico Lombardi, moderador dos trabalhos) e dois responsáveis de comunicação do Vaticano (Alessandro Gisotti e Paolo Ruffini), irrompeu em risos.

“Como saiu hoje, ainda não li”, ironizaram os responsáveis, antes de o bispo australiano ter classificado o livro como “mais um” dos habituais “livros-escândalo” a que o Vaticano já se habituou. Foi Charles Scicluna que trouxe um tom mais duro à conversa, assinalando com veemência que não há grupos de pessoas com maior propensão a pecar, arrumando a questão da relação entre a homossexualidade e os abusos sexuais.

O Papa Francisco está reunido, até ao próximo domingo, com 190 líderes católicos de todo o mundo, incluindo os presidentes das conferências episcopais, os superiores religiosos e os membros da Cúria Romana, para debater a responsabilidade dos bispos no problema dos abusos sexuais de menores na Igreja. Portugal está representado pelo cardeal-patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, que é atualmente o presidente da Conferência Episcopal Portuguesa.