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Abusos na Igreja

Igreja em Portugal deverá adotar novas medidas contra abusos sexuais antes de abril, diz patriarca de Lisboa

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"É possível" que haja divulgação de estatísticas e normas reforçadas sobre denúncia às autoridades, mas sem ultrapassar vítimas. D. Manuel Clemente leva para Portugal as ideias do Papa contra abusos.

O cardeal-patriarca de Lisboa falou aos jornalistas portugueses à saída do Vaticano este domingo

Ricardo Perna/Família Cristã

Enviado especial ao Vaticano

O cardeal-patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, disse este domingo que a Igreja Católica em Portugal deverá adotar novas medidas para prevenir os abusos sexuais cometidos por membros do clero e para acompanhar as vítimas ainda antes de abril. O cardeal, que é presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, falou aos jornalistas portugueses à saída da missa de encerramento da cimeira sobre a proteção de menores na Igreja que decorreu esta semana no Vaticano, admitiu também que poderá passar a haver divulgação de estatísticas sobre abusos sexuais na Igreja em Portugal e também normas concretas sobre a apresentação dos casos às autoridades civis, mas sempre sem “ultrapassar” vítimas e familiares.

Questionado sobre se as conclusões desta reunião inédita serão aplicadas já na próxima assembleia plenária dos bispos portugueses, que decorre em abril em Fátima, D. Manuel Clemente admitiu que isso poderá ser feito “até antes”. O cardeal português sublinhou que será agora apresentado, numa conferência de imprensa final sobre a cimeira, um guia prático sobre as atitudes a tomar em casos de abuso sexual de menores, com “normas mais concretas e operativas”, que “vai facilitar o serviço” aos bispos portugueses.

“Desde que se foi tomando conta com mais consciência e mais responsabilidade desta problemática, as várias conferências episcopais foram tendo diretivas e normas, como nós temos em Portugal desde 2012 também. Era necessário concertarmos isto, porque uma coisa é a Europa, outra coisa é a Oceânia, outra coisa é África, outra coisa é América. Mas um concerto de todas essas tentativas mais particulares e creio que é este vade mecum [guia prático] a resposta. Nós também trabalhámos muito nisto agora nos trabalhos de grupos, que foram muito vivos, e o vade mecum vai-nos ajudar muito, para termos ideias mais concretas ainda do que aquelas que já temos. Vamos para a frente”, disse D. Manuel Clemente.

O patriarca de Lisboa sublinhou, contudo, que o documento português é hoje muito completo e não deverá sofrer muitas mudanças. “Em relação ao nosso documento português não encontro muitas mudanças. O que possivelmente o vade mecum será é talvez ainda mais preciso, mais articulado, mais operativo”, explicou.

Questionado sobre se Portugal irá seguir o conselho do cardeal alemão Reinhard Marx sobre a divulgação pública de estatísticas sobre os abusos sexuais em Portugal, D. Manuel Clemente admitiu que “é possível” que tal aconteça. Mas, lembrou Clemente, “também foi dito lá na assembleia pelo cardeal de Inglaterra que eles já fazem isso há dez anos e depois os media nunca ligam. Tem de haver seriedade de parte a parte. Mas, enfim, tudo o que for necessário fazer para que as coisas se esclareçam, e que se avance, há de ser feito”.

Já sobre a possibilidade de legislar internamente sobre a denúncia obrigatória às autoridades civis, D. Manuel Clemente assinalou que “tudo é possível, mas contando sempre com as vítimas e com as famílias, não as ultrapassando”.

A intenção do guia prático publicado agora pelo Vaticano é que “sirva para todo o mundo, não apenas para uma Igreja daqui ou dacolá”, disse D. Manuel Clemente, lembrando que a cimeira permitiu perceber “diferenças culturais” entre regiões do mundo sobre a forma como se lida com o abuso sexual. “Há zonas do mundo em que estas coisas acontecem muito e há pressão para que fiquem no âmbito familiar. Há outras em que ainda há uma cultura do silêncio muito forte, que faz parte não da Igreja mas da cultura desses países, onde a Igreja é geralmente minoritária. Mas agora sim, haverá um vade mecum que será para todos”, disse.

Ouvir testemunhos de vítimas foi “momento de muita conversão”

O cardeal-patriarca de Lisboa fez também um balanço dos trabalhos dos últimos dias, destacando que o momento de escuta os testemunhos das vítimas foi “um momento de muita intensidade, de muita verdade e, para nós, que somos cristãos, de muita conversão”. D. Manuel Clemente sublinhou ainda a “originalidade” desta cimeira em toda a história da Igreja Católica.

Toda a vida ensinei e aprendi História da Igreja, do que é que têm sido estes 2000 anos, mas isto é completamente inédito. O Papa fazer uma reunião assim, para resolver um problema grave, chama não apenas os responsáveis da Igreja. Chama homens, chama mulheres, chama religiosas, chama mães de família, chama as próprias vítimas e todos em conjunto, durante estes dias, com toda a franqueza, vemos o problema, isto é um exercício de Igreja no seu melhor”, assinalou o presidente dos bispos portugueses.

“Por isso estou muito grato, estamos todos, ao Papa Francisco por ter feito algo assim, que eu creio que também é um exemplo para todos nós, como Igreja e como sociedade. Quando queremos resolver um problema, então reunimos todos os intervenientes e vamos falar com franqueza acerca do problema e encontrar a melhor maneira de o ultrapassar. Acho isto extraordinário. Está muito na linha do Papa Francisco, este bem-aventurado Papa Francisco que em boa hora Deus pôs à frente da Igreja”, destacou.

D. Manuel Clemente apelou ainda a que todos os católicos leiam o documento proferido este domingo pelo Papa Francisco, no qual o líder da Igreja apresentou as suas oito ideias para o caminho que deve ser percorrido no que toca à proteção de menores. “O Papa faz uma análise exaustiva da problemática dos abusos de menores na sociedade, na Igreja, nas comunidades, nas culturas, nas comunidades religiosas, nas famílias, com dados quantitativos e com informações específicas, extraordinária. Também é um grande serviço que o Papa acaba por prestar a nós todos, porque tanto somos membros da Igreja, no nosso caso, como membros da sociedade”, afirmou Clemente.

“Em todos os âmbitos, eclesiais, familiares, escolares, educativos, todos temos de trabalhar a sério porque isto é um problema global e tem de ter uma resolução global. E o Papa, como homem religioso que é, obviamente também consegue entrever que por trás disto há aquilo que nós podemos chamar o mal. E chamamos o mal. Há aqui algo destrutivo tão profundo, que para nós religiosos, católicos, cristãos e de outras confissões religiosas, também tem que ser levado a sério em termos espirituais. É algo de muito profundo que tem de ser erradicado. O Papa presta esse serviço, tem uma visão tão alargada da problemática, e com certeza que todos nós vamos levar isto muito a sério”, garantiu o patriarca de Lisboa.

A cimeira de líderes católicos sobre a responsabilidade da Igreja na questão dos abusos sexuais decorreu entre quinta-feira e este domingo no Vaticano, e foi convocada pelo Papa Francisco em setembro do ano passado, após um dos anos mais duros para a Igreja Católica no que toca a este problema — sobretudo com os escândalos à volta do cardeal norte-americano Theodore McCarrick e a divulgação dos resultados de investigações nos Estados Unidos. Participaram 190 líderes católicos, incluindo 114 presidentes das conferências episcopais de todo o mundo, vários bispos, membros da Cúria Romana e superiores das congregações religiosas.

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