Abusos na Igreja

As oito ideias do Papa Francisco para acabar com os abusos sexuais na Igreja Católica

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O discurso final do Papa Francisco era o momento mais aguardado da cimeira inédita da liderança católica sobre os abusos sexuais na Igreja. Papa apresentou oito linhas orientadoras para o futuro.

O Papa Francisco esta manhã durante a celebração na qual anunciou as oito ideias para a Igreja acabar com os abusos de menores

AFP/Getty Images

Enviado especial ao Vaticano

O Papa Francisco fez na manhã deste domingo o discurso de encerramento da cimeira de líderes católicos dedicada aos abusos sexuais na Igreja, no qual apresentou as oito grandes linhas de ação que a Igreja Católica vai seguir na luta contra os abusos de menores. O discurso de Bergoglio era o momento mais esperado da cimeira de quatro dias que juntou no Vaticano 190 líderes, entre os quais 114 presidentes das conferências episcopais de todo o mundo (incluindo o cardeal português D. Manuel Clemente), outros bispos e superiores de congregações religiosas, para debater a responsabilidade da Igreja Católica nos abusos sexuais praticados por membros do clero.

Francisco começou por destacar que “o flagelo dos abusos sexuais contra menores é um fenómeno historicamente difuso, infelizmente, em todas as culturas e sociedades. Mas, apenas em tempos relativamente recentes, se tornou objeto de estudos sistemáticos, graças à mudança de sensibilidade da opinião pública sobre um problema considerado tabu no passado, ou seja, todos sabiam da sua existência, mas ninguém falava nele”.

“Isso traz-me à mente também a prática religiosa cruel, difusa no passado nalgumas culturas, de oferecer seres humanos — frequentemente crianças — como sacrifícios nos ritos pagãos. Todavia, ainda hoje, as estatísticas disponíveis sobre os abusos sexuais contra menores, compiladas por várias organizações e organismos nacionais e internacionais (OMS, Unicef, Interpol, Europol e outros), não apresentam a verdadeira extensão do fenómeno, muitas vezes subestimado, principalmente porque muitos casos de abusos sexuais de menores não são denunciados, sobretudo os numerosíssimos abusos cometidos no interior da família”, disse o líder da Igreja Católica.

Ainda assim, destacou o Papa, “devemos ser claros: a universalidade de tal flagelo, ao mesmo tempo que confirma a sua gravidade nas nossas sociedades, não diminui a sua monstruosidade dentro da Igreja”.

“A desumanidade do fenómeno, a nível mundial, torna-se ainda mais grave e escandalosa na Igreja, porque está em contraste com a sua autoridade moral e a sua credibilidade ética. O consagrado, escolhido por Deus para guiar as almas à salvação, deixa-se subjugar pela sua fragilidade humana ou pela sua doença, tornando-se assim um instrumento de satanás. Nos abusos, vemos a mão do mal que não poupa sequer a inocência das crianças. Não há explicações suficientes para estes abusos contra as crianças. Com humildade e coragem, devemos reconhecer que estamos perante o mistério do mal, que se encarniça contra os mais frágeis, porque são imagem de Jesus”, afirmou ainda o Papa Francisco, antes de apresentar as oito linhas de ação para a Igreja Católica lidar com os abusos sexuais no futuro.

As oito linhas de ação para a Igreja Católica:

1. A proteção das crianças

“O objetivo primário das várias medidas é proteger os pequeninos e impedir que caiam vítimas de qualquer abuso psicológico e físico. Portanto, é necessário mudar a mentalidade combatendo a atitude defensivo-reativa de salvaguardar a Instituição em benefício duma busca sincera e decidida do bem da comunidade, dando prioridade às vítimas de abusos em todos os sentidos”.

2. Seriedade impecável

O Papa Francisco lembrou um discurso seu do ano passado, no qual dizia que a Igreja “não poupará esforços fazendo tudo o que for necessário para entregar à justiça toda a pessoa que tenha cometido tais delitos”.

3. Uma verdadeira purificação

“Apesar das medidas tomadas e os progressos relizados em matéria de prevenção dos abusos, é necessário impor um renovado e perene empenho na santidade dos pastores, cuja configuração a Cristo Bom Pastor é um direito do povo de Deus”.

4. A formação

“As exigências da seleção e formação dos candidatos ao sacerdócio com critérios não só negativos, visando principalmente excluir as personalidades problemáticas, mas também positivos oferecendo um caminho de formação equilibrado para os candidatos idóneos, tendente à santidade e englobando a virtude da castidade”.

5. Reforçar e verificar as diretrizes das conferências episcopais

“Reafirmar a necessidade da unidade dos bispos na aplicação de parâmetros que tenham valor de normas e não apenas de diretrizes”

6. Acompanhar as pessoas que sofreram abusos

“A Igreja tem o dever de oferecer-lhes todo o apoio necessário, valendo-se dos especialistas neste campo”.

7. O mundo digital

“A proteção dos menores deve ter em conta as novas formas de abuso sexual e de abusos de todo o género que os ameaçam nos ambientes onde vivem e através dos novos instrumentos que utilizam. Os seminaristas, os sacerdotes, os religiosos, as religiosas, os agentes pastorais e todos os fiéis devem estar cientes de que o mundo digital e o uso dos seus instrumentos com frequência incidem mais profundamente do que se pensa”.

8. O turismo sexual

“É importante coordenar os esforços a todos os níveis da sociedade e colaborar estreitamente também com as organizações internacionais para realizar um quadro jurídico que proteja as crianças da exploração sexual no turismo e permita perseguir legalmente os criminosos”

Durante três dias, a liderança da Igreja Católica esteve reunida com o Papa Francisco para debater temas como a transparência, a responsabilidade ou a prestação de contas. Desde o início do encontro que o Papa deixou bem claras as suas intenções: promover ações concretas. “O santo povo de Deus olha para nós e espera de nós, não simples e óbvias condenações, mas medidas concretas e efetivas”, disse Bergoglio na breve intervenção com que abriu o primeiro dia de trabalhos.

O Papa foi, aliás, o primeiro a assumir essa tarefa de arranjar soluções concretas, logo na manhã do primeiro dia, ao distribuir por todos os participantes da reunião uma lista de 21 pontos que resultaram da sua reflexão pessoal sobre as informações que foram enviadas pelos bispos de todo o mundo para o Vaticano durante a preparação da cimeira. Entre os tópicos mais concretos e que deverão ser aplicados formalmente em breve encontram-se propostas como a subida da idade mínima para o matrimónio católico para os 16 anos (atualmente é de 14 para as raparigas e 16 para os rapazes), a comunicação das suspeitas às autoridades civis ou a inclusão de pessoas de fora do clero nas investigações internas.

A cimeira ficou sobretudo marcada por uma atitude de escuta das vítimas dos abusos. Todos os dias, os bispos, cardeais e superiores religiosos ouviram relatos detalhados de sobreviventes, que lhes contaram como sofreram abusos e como foram desacreditados pela hierarquia da Igreja Católica quando os tentaram denunciar. As histórias destas vítimas, oriundas dos cinco continentes para demonstrar como este é um problema universal e não localizado apenas em alguns países, foram contadas sob anonimato. Mas, fora dos muros do Vaticano, várias associações de vítimas aproveitaram para organizar encontros de sobreviventes que contaram as suas histórias em público, com os seus porta-vozes a pedirem que o Papa cumpra as promessas de tolerância zero.

Dentro da Ala Nova do Sínodo, sucederam-se conferências que ajudaram os bispos numa tarefa principal: a de reconhecer a existência do problema e de assumir a responsabilidade na sua resolução. Uma das vozes mais duras foi a do cardeal colombiano Rubén Salazar Gómez, que atacou o clericalismo e garantiu aos colegas: “Os primeiros inimigos estão entre nós, entre os bispos e os padres“.

De outros intervenientes houve outros contributos para a elaboração de normas concretas. Por exemplo, o cardeal norte-americano Seán O’Malley, que não falou na cimeira, mas falou na conferência de imprensa oficial de resumo do segundo dia dos trabalhos, sublinhou que a denúncia dos casos às autoridades civis é uma “obrigação moral” dos bispos. E outro cardeal norte-americano, Blase J. Cupich, deixou aos participantes da cimeira uma proposta de procedimentos concretos a adotar pelos bispos em caso de se depararem com denúncias de abusos.

No segundo dia dos trabalhos, com a cimeira a meio caminho, o representante português, D. Manuel Clemente, já levava sugestões, embora ainda pouco concretizáveis, para Portugal: “reforçar” as dioceses e a Conferência Episcopal Portuguesa “com pessoas e com meios para atender esta problemática”, melhorando também as normas de atuação que estão em vigor desde 2012.

O último dia, dedicado ao tema da transparência, foi o mais frutífero em termos de contributos concretos, com o cardeal alemão Reinhard Marx a deixar aos participantes na cimeira um conjunto de sugestões para aumentar a transparência dos processos eclesiásticos, incluindo acabar com a imposição do segredo pontifício sobre estes processos, divulgar publicamente estatísticas com o número de abusos sexuais e divulgar os procedimentos adotados internamente. A intervenção de Marx ficou sobretudo marcada pela admissão de que a Igreja na Alemanha destruiu e manipulou durante décadas documentos que continham informações sobre padres abusadores, de forma a protegê-los.

O discurso mais duro ficou guardado para o final. Foi uma mulher, jornalista, a mexicana Valentina Alazraki, que enfrentou quase duas centenas de clérigos para lhes dizer: “Vocês, bispos e cardeais, não são mais importantes que qualquer vítima de abuso”. E mais: “Comunicar é um dever fundamental, porque ao não o fazerem, vocês convertem-se automaticamente em cúmplices dos abusadores. Ao não dar a informação que poderia prevenir que estas pessoas cometessem outros abusos, não estão a dar às crianças, aos jovens e às suas famílias as ferramentas para se defenderem de novos crimes”.

A cimeira de líderes católicos sobre a responsabilidade da Igreja na questão dos abusos sexuais foi convocada pelo Papa Francisco em setembro do ano passado, após um dos anos mais duros para a Igreja Católica no que toca a este problema — sobretudo com os escândalos à volta do cardeal norte-americano Theodore McCarrick e a divulgação dos resultados de investigações nos Estados Unidos.

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