Forças Armadas

Chefe das Forças Armadas pede que “não se confunda o Exército com Tancos”

António Silva Ribeiro diz que o problema de Tancos pertence agora à justiça e avisa que a não renovação das fragatas quando Portugal reivindica a plataforma marítima na ONU é preocupante.

O almirante António Silva Ribeiro completa um ano de mandato como Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas

MIGUEL A. LOPES/LUSA

O Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas (CEMGFA), Silva Ribeiro, considerou esta segunda-feira que o furto de Tancos foi “muito grave e inadmissível”, mas apelou para que as pessoas “não confundam o Exército com Tancos”.

Não é aceitável que qualquer pessoa possa entrar numa instalação militar e roubar armas ou munições ou outro tipo de artefactos. Tendo-se isso verificado, agora é um problema da justiça averiguar quem é que cometeu aquele assalto”, disse, em entrevista à agência Lusa.

O almirante António Silva Ribeiro contou que à altura, no cargo de Chefe do Estado-Maior da Armada, estava no estrangeiro e soube do ocorrido pelo então ministro da Defesa Nacional, Azeredo Lopes, que lhe telefonou.

Um ano e meio após o furto, que classificou como “muito grave e inadmissível“, o almirante Silva Ribeiro manifestou-se preocupado com a ideia de que “pessoas confundam o Exército com Tancos”.

Tancos foi um acidente inaceitável mas as Forças Armadas e o Exército não são Tancos“, disse, admitindo que houve sinais de quebra de confiança dos cidadãos em relação às Forças Armadas na sequência do furto.

“Nós não podemos de forma alguém encarar o problema de Tancos como uma questão global no Exército e nas Forças Armadas. Se queremos perceber o que é o Exército e as Forças Armadas olhemos para a República Centro Africana, cumprem missões com grande patriotismo, com grande coragem”, exemplificou.

O CEMGFA considerou ainda “absolutamente injusto” algumas críticas que disse estarem a ser dirigidas ao Exército, recusando “rótulos” como falta de transparência ou opacidade em relação àquele ramo militar e às Forças Armadas em geral.

É absolutamente injusto algumas coisas que eu tenho ouvido acerca do nosso querido Exército, que é feito de homens e de mulheres extraordinárias que têm um brio, um orgulho em servir o país e fazem-no com competência e relevância, esse tipo de apreciações injustíssimas que são feitas ao Exército devem ser refutadas pelos cidadãos, isso não é merecedor de qualquer credibilidade”, considerou.

António Silva Ribeiro destacou que as Forças Armadas estão “perfeitamente inseridas no regime democrático e há, da parte dos chefes militares uma profunda lealdade para com os decisores políticos”, defendeu.

CEMGFA propõe incluir modernização das fragatas na Lei de Programação Militar

O Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas defendeu alguns ajustamentos à proposta de lei de programação militar para incluir a modernização das fragatas, manifestando-se confiante no “diálogo político” para a aprovação do diploma.

António Silva Ribeiro considerou que a proposta “é boa” e disse estar ciente de que “não se pode ir tão depressa como algumas vontades desejariam” devido às “limitações financeiras do país”.

“A possibilidade de não se modernizarem as três fragatas é preocupante” numa altura em que “o país está nas Nações Unidas a procurar reivindicar a extensão da sua soberania na plataforma estendida”, disse.

A modernização das três fragatas da classe Vasco da Gama, que entraram ao serviço da Marinha no início dos anos 90, prolongaria a vida útil daqueles navios por mais alguns anos.

Numa audição parlamentar em janeiro, o Chefe do Estado-Maior da Armada, almirante Mendes Calado, defendeu contudo que seria mais vantajoso preparar a compra de novas fragatas dentro de alguns anos do que investir na modernização das atuais, que apenas prolongaria a vida útil daqueles navios por pouco tempo.

A necessidade de se prever a regeneração dos caças F-16 da Força Aérea e do reforço da capacidade média blindada do Exército foram as outras “preocupações” apontadas pelo CEMGFA.

O almirante Silva Ribeiro considerou que, dentro do quadro financeiro proposto, 4,7 mil milhões de euros para investir em equipamentos das Forças Armadas até 2030, é possível fazer alguns “ajustamentos”, manifestando a expetativa de que “ainda possa ser pontualmente afinado um ou outro aspeto das capacidades previstas”.

Quanto ao projeto que suscita mais reservas ao PSD, de cujos votos favoráveis depende a aprovação da lei no parlamento — 300 milhões de euros para a construção do Navio Polivalente Logístico [NPL] – Silva Ribeiro não pôs em causa a utilidade e a necessidade do navio mas frisou que “é preciso considerar qual é a prioridade”.

Por um lado, frisou, assiste-se ao “recrudescimento de desafios no mar que já não se viam há 25 anos” e, por outro, é “importante que Portugal não entre numa fase de contraciclo” reduzindo capacidades marítimas numa altura em que a NATO está a prestar novamente atenção à estratégia marítima para o Atlântico.

“Creio que haverá possibilidades de considerar no equilíbrio da modernização das fragatas e a construção do NPL alguma possibilidade de parte do montante que está nos anos iniciais do NPL poder ser afetado à modernização das fragatas no sentido de prolongar a vida útil para que possam realizar as atividades operacionais com a interoperalidade tecnológica com as marinhas da NATO por mais alguns anos”, defendeu.

O CEMGFA frisou que, “como comandante operacional das Forças Armadas”, tem de garantir que o país dispõe dos “meios adequados para cumprir as missões” para “não cair em situações” como a presente, em que Portugal não tem helicópteros armados para empregar nas missões em que está empenhado, nomeadamente na missão da ONU na República Centro Africana, em que o apoio aéreo à força de reação rápida portuguesa disponibilizado pela MINUSCA tem sido limitado.

Questionado sobre as “dificuldades na aprovação da lei” assumidas pelo PSD em carta enviada ao ministro da Defesa Nacional, João Gomes Cravinho, o CEMGFA afirmou que não tem “absolutamente nenhuma preocupação relativamente à aprovação da lei”, considerando “normal” o processo de “diálogo político” para se chegar a um “consenso”.

“Matérias de defesa nacional são muito sensíveis, verdadeiramente nacionais e requerem o compromisso de todos os partidos e por isso este diálogo político é essencial para se gerar este consenso de forma a que os programas de capacitação das Forças Armadas tenham continuidade qualquer que seja o partido que esteja no Governo”, disse.

A proposta de lei de programação militar foi aprovada na generalidade no dia 25 de janeiro, com os votos favoráveis do PS, e a abstenção do PSD, CDS-PP e PCP e o voto contra do BE.

Na próxima quarta-feira, o ministro da Defesa Nacional, João Gomes Cravinho, vai ser ouvido na comissão parlamentar de Defesa, no âmbito da discussão da lei na especialidade.

Missões na RCA, Afeganistão e Iraque são de longa duração e vão continuar

As missões militares portuguesas na República Centro Africana, Iraque e Afeganistão são “operações de longa duração” que deverão continuar no próximo ano, no âmbito do contributo de Portugal para a paz, defendeu o almirante Silva Ribeiro.

As missões das forças nacionais destacadas na RCA, no Afeganistão e no Iraque “são operações de longa duração e por isso não é expectável que, para o próximo ano, haja grandes alterações”, disse o chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas, António Silva Ribeiro.

Em entrevista à Lusa, Silva Ribeiro frisou que os conflitos naqueles países “vão demorar anos a resolver e é preciso que a comunidade internacional contribua para a sua resolução”.

“Fruto da ação da nossa força de reação rápida há um mês, o principal grupo opositor, UPC, foi para a mesa das negociações e foi assinado um acordo de paz [a 6 de fevereiro], sublinhou, considerando que “convém não esquecer” o contributo da força militar para que o diálogo político fosse possível.

O país neste momento está estável e desejamos que assim continue e que os órgãos democráticos consigam exercer autoridade e que o governo da República Centro Africana consiga ter capacidade para controlar todo o território mas isso vai demorar tempo e vai ser necessária a permanência das nossas forças”, justificou.

Quanto à segurança e defesa europeias, António Silva Ribeiro considerou que “é essencial que os países europeus desenvolvam capacidades militares” e que o façam de forma articulada e não em “duplicação” com a NATO.

Silva Ribeiro defendeu que “tudo o que se fizer” no âmbito do desenvolvimento de capacidades militares da União Europeia deve ter “utilidade para a NATO”, organização que “é verdadeiramente a aliança militar estruturante da defesa euro-atlântica, da qual a Europa faz parte”.

“Ainda vai levar tempo até que a União Europeia tenha uma capacidade de resposta militar como tem a NATO. A NATO tem um ator essencial que são os EUA, com um potencial diferenciador, com o que investem em investigação e desenvolvimento, a edificação das capacidades, é incomparável com qualquer outro país do mundo e, portanto, a NATO é que é verdadeiramente a aliança militar estruturante da defesa euroatlântica, da qual a Europa faz parte”, disse.

Portugal tem 215 militares empenhados na missão da NATO no Afeganistão, na proteção do aeroporto de Cabul, em funções de quartel-general, de apoio e de operações especiais.

Na RCA, estão empenhados 193 militares na missão das Nações Unidas, 179 dos quais constituem-se como força de reação imediata, sediados em Bangui, mais 14 no quartel-general, cujo segundo comandante é o general português Marcos Serronha.

Na missão de formação e aconselhamento da União Europeia neste país, comandada por Portugal até ao próximo mês de julho, estão 63 militares, segundo dados do Estado-Maior-General das Forças Armadas.

No Iraque, no âmbito da coligação internacional de combate ao Daesh, “Inherent Resolve”, estão 52 militares portugueses que dão formação e treino às forças iraquianas.

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