Nove meses depois, Zidane está de regresso ao Real Madrid. Depois de uma saída inesperada e com direito a poucas explicações, depois da saída de Ronaldo que terminou de vez um ciclo que tinha tido no treinador francês o seu maior expoente, depois de um esboço de novo projeto que nunca teve meios para vingar, Zidane aceitou voltar. Mas nos nove meses onde não falou, não reagiu, não comentou e não apareceu — como, aliás, é seu apanágio –, existiu vida no Santiago Bernabéu. Ou melhor, existiu a extinção daquilo que Florentino Pérez queria que fosse a nova vida do Real Madrid. O Real Madrid precisou de nove meses para perceber que a resposta para todos os problemas estava no rebobinar da cassete. E foram precisas nove razões para os merengues entenderem que é necessário voltar atrás para poder avançar.

Cristiano Ronaldo e a saída “para não fazer disparates”

Foi o início do fim de um ciclo que Florentino Pérez tenta agora recuperar — ainda que lhe falte metade da fórmula vencedora. A 10 de julho de 2018, exatamente dois anos depois de Portugal vencer França na final do Campeonato da Europa de 2016, a Juventus tornava oficial a transferência de Cristiano Ronaldo de Madrid para Turim. Os rumores arrastavam-se desde final de maio, altura em que o jogador português, ainda no relvado de Kiev em que o Real Madrid bateu o Liverpool e conquistou a terceira Liga dos Campeões consecutiva, disse que tinha sido “muito bonito” jogar pelos merengues. O tempo verbal utilizado fez soar os alarmes no Santiago Bernabéu, Florentino reagiu ao dizer que “toda a gente tem o direito de falar mas o mais importante é o clube”, Ronaldo foi para a Rússia com a Seleção Nacional mas já nada se evitou: depois de Portugal ser eliminado pelo Uruguai mas ainda antes de França vencer a Croácia na final de Moscovo, o avançado português foi oficializado enquanto reforço da Juventus.

Treinador e avançado, as duas principais figuras do tricampeonato europeu, deixaram o Real Madrid com pouco mais de um mês de diferença

A saída de Cristiano Ronaldo do Real Madrid não foi apenas a saída de um jogador importante: a saída de Cristiano Ronaldo significava um fim de ciclo que tinha tido no avançado português o seu elemento preponderante e fulcral, o centro das operações e a figura maior de um clube que tentava voltar ao tempo dos galácticos e ao topo do futebol europeu. Com Zidane no banco, Ronaldo descobriu uma ligação jogador-treinador que já não encontrava desde Old Trafford e sir Alex Ferguson e com o técnico francês conquistou três Ligas dos Campeões seguidas, afirmando-se como o melhor marcador da história da competição e um dos ex libris da liga milionária.

Mês e meio antes de Ronaldo ser apresentado em Turim, Zidane havia deixado o comando técnico do Real Madrid e forma inesperada. Cinco dias depois de vencer a terceira Champions seguida em Kiev, o treinador francês anunciou que iria abandonar os merengues e deixou quase todas as perguntas sem resposta. “Depois de três anos, parece-me que é a melhor decisão, mas claro que me posso enganar. Mas depois de três anos, está na hora. Se não consigo ver claramente que vamos continuar a ganhar…se não vejo as coisas claramente, da maneira que quero…então está na altura, mais vale mudar do que fazer disparates”, afirmou Zidane na conferência de imprensa onde largou a bomba que fez abanar Espanha.

Agora, nove meses depois, não é difícil perceber que Zidane foi uma espécie de profeta daquilo que acabaria por acontecer. Afinal, e tal como o francês havia dito, o Real Madrid não continuou a ganhar e tudo aquilo que se seguiu à sua saída foi, em maior ou menor escala, algo parecido com um disparate. A explicação da saída de Zidane, contudo, foi há algum tempo revelada pelo El País, que contou que a inesperada mudança de dono no comando técnico merengue esteve em tudo relacionada não só com Cristiano Ronaldo mas também com Gareth Bale: o treinador forçou a renovação do jogador português e intercedeu junto de Florentino Pérez para fazer ver ao presidente que o futuro do clube se fazia com Ronaldo e não com o avançado galês, cujos prováveis 100 milhões de euros que uma eventual transferência traria deveriam ser utilizados em contratações adequadas às necessidades da equipa. Na altura, em janeiro de 2018, Florentino Pérez aceitou a premissa de Zidane e, à quimera constante de contratar Neymar ao PSG, acrescentou os nomes de Eden Hazard, Harry Kane e Mohamed Salah como alvos preferenciais.

Mas Florentino mudou de ideias. O presidente merengue, que se tinha envolvido pessoalmente na contratação de Bale ao Tottenham em 2013, ofereceu a Ronaldo um aumento de nove milhões de euros que estava sujeito à conquista de títulos individuais e coletivos. O jogador português terá considerado que as condições propostas eram um desrespeito pelo trabalho que havia feito em Madrid e colocou em marcha os procedimentos para a saída. Zidane, que no verão anterior tinha conseguido convencer Ronaldo a ficar na capital espanhola, não repetiu a façanha e demitiu-se logo após a vitória na Champions. Seguiu-se Cristiano Ronaldo e saíram do Real Madrid as duas figuras de proa que recolocaram os merengues no lugar de reis da Europa.

O inesperado Lopetegui e um recorde negativo que fica para a história

Zidane deixou o Real Madrid no último dia de maio, a escassas duas semanas do início do Mundial da Rússia. Durante esses 14 dias, debateu-se muito sobre o nome que se seguiria ao francês: as apostas recaíam maioritariamente sobre Antonio Conte, italiano que na altura estava ainda ao leme do Chelsea, mas Massimiliano Allegri, Mauricio Pochettino e Jurgen Klopp eram outros dos treinadores apontados ao comando técnico merengue. A surpresa surgiu a 12 de junho, a escassos três dias da estreia da seleção espanhola no Mundial — Julen Lopetegui, selecionador nacional que estava na Rússia a comandar a comitiva espanhola e ex-jogador dos blancos, foi anunciado como novo treinador do Real Madrid. Ao choque seguiu-se o despedimento, com o presidente da Federação Espanhola de Futebol a garantir que só soube do acordo entre Lopetegui e o clube de Madrid “cinco minutos antes” de a informação se tornar pública. Fernando Hierro, até aí diretor desportivo da seleção, assumiu a liderança da La Roja durante o Campeonato do Mundo (Espanha venceu o grupo onde também estavam Portugal, Irão e Marrocos mas foi eliminada logo nos oitavos de final, pela anfitriã Rússia).

Lopetegui foi despedido do comando da seleção espanhola após anunciar que seria o próximo treinador do Real Madrid

Menos de 24 horas depois de deixar Moscovo, Julen Lopetegui estava a ser apresentado enquanto novo treinador do Real Madrid na sala de conferências do Santiago Bernabéu. O treinador espanhol pegou numa equipa orfã de treinador e depressa ficou sem a principal figura, Ronaldo, que saiu antes ainda de Lopetegui se estrear no comando técnico dos merengues. O legado era desde logo complicado de igualar: é verdade que o Real Madrid não foi campeão espanhol na temporada passada nem venceu a Taça do Rei, mas o terceiro triunfo consecutivo na Liga dos Campeões, competição onde o clube é o mais bem sucedido da história e cuja travessia está intrinsecamente ligada aos merengues, deixava nas mãos de Lopetegui a responsabilidade de voltar a levantar o mais conceituado título europeu.

A uma convincente vitória no Olímpico de Roma por 3-0, que cimentava a ideia de que o Real é uma equipa diferente sempre que é altura de jogar para a Champions, seguiram-se quatro jogos sem vencer a nível interno. A derrota em casa do Sevilha, o empate a zeros com o Atl. Madrid, a nova derrota no Santiago Bernabéu com o CSKA e os desaires frente ao modesto Alavés e Levante estabeleceram um recorde negativo histórico que dificilmente voltará a ser repetido: os merengues estiveram sete horas e 45 minutos sem marcar qualquer golo, superando a anterior pior marca que datava da temporada 1984/85. Os espanhóis ainda venceram o Viktoria Plzen no terceiro jogo da fase de grupos da Champions e a vitória que parecia colocar fim a um período complicado até foi interpretada como um balão de oxigénio de Lopetegui — no dia seguinte, porém, soube-se que Florentino Pérez estava apostado em despedir o treinador antes ainda da visita a Camp Nou, logo no domingo seguinte, mas foi impedido pelo diretor-geral do clube, José Ángel Sánchez.

Na opinião de Sánchez, era necessário “congelar” a decisão e esperar pelo resultado do Clásico para ponderar sobre o perfil pretendido para o novo ocupante do comando técnico dos merengues. Florentino aceitou a proposta e aguardou: o Real Madrid foi a Barcelona ser goleado por 5-1 e Lopetegui não resistiu à humilhação imposta pelos principais rivais. Fim de linha para o treinador espanhol, que deixou o Santiago Bernabéu sem deixar saudades e com um registo de seis vitórias, seis derrotas e dois empates.

O primeiro troféu perdido que foi o prenúncio de uma época perdida

Uma dessas derrotas, logo no jogo de estreia, ditou o primeiro troféu perdido da temporada — algo que, num salto temporal de sete meses, torna agora magro o palmarés do Real Madrid na temporada 2018/19 e restrito à conquista do Mundial de Clubes, em dezembro. Em agosto, Lopetegui teve o primeiro teste de fogo e logo contra os rivais de Madrid, que haviam vencido a Liga Europa e reservado um lugar na Supertaça Europeia, frente aos tricampeões europeus. O Real, que durante a campanha europeia eliminou PSG, Juventus, Bayern Munique e Liverpool, caiu com estrondo frente aos colchoneros de Simeone ao perder por 4-2 e estava dado o primeiro aviso para aquilo que acabaria por acontecer nos meses seguintes.

O Atl. Madrid venceu e venceu bem mas, principalmente e de forma inequívoca, o Real Madrid perdeu. Era o arrancar de uma temporada “profundamente desapontante”, como lhe chama esta segunda-feira Sergio Ramos, e cuja explicação está assente em diversos, controversos e intrincados motivos: desde a saída sem aparente razão de Zidane à contratação da quarta/quinta escolha Julen Lopetegui, que abriu graves cisões no próprio futebol espanhol e que levou à subida de Hierro ao comando durante o Mundial; da venda de Cristiano Ronaldo à Juventus sem a contratação sonhada de Neymar para abrir um novo ciclo de galácticos; da saída de Kovacic à falta de reforços que possam lutar por um lugar na equipa; da vontade de mudar de ares de Modric ao investimento de 40 milhões numa posição que não era propriamente uma prioridade (guarda-redes, Courtois, que lutará por uma vaga na baliza com Navas).

Solari enquanto realizador de novelas: de Isco a Bale

Lopetegui saiu em outubro e a tundra de nomes que havia surgido em maio voltou a aparecer: Conte era o favorito, Klopp era uma possibilidade, Allegri parecia ser uma boa ideia. A solução, porém, estava dentro de casa. Santiago Solari, argentino que representou o Real Madrid durante vários anos como jogador e que à altura orientava a equipa B merengue, foi o escolhido para comandar de forma interina uma equipa que ainda estava, pelo menos de forma matemática, com possibilidades de ser campeã, que ainda estava na taça do Rei e que estava prestes a garantir o apuramento para os oitavos de final da Liga dos Campeões.

O arranque auspicioso de Solari, que trouxe quatro vitórias consecutivas (Melilla, Valladolid, Viktoria Plzen e Celta Vigo) e foi o melhor começo de um treinador do clube em 116 anos, levou Florentino Pérez a olhar para o técnico argentino como uma solução de futuro e a longo prazo. Solari assinou um contrato de treinador principal efetivo que previa um vínculo até junho de 2021 e a afición olhava para o treinador como uma espécie de Zidane 2.0: afinal, Solari também tinha jogado pelos merengues, também tinha treinado a equipa B e também tinha chegado ao comando técnico depois de um período menos bom e de aparente revolução no cerne do clube. Aparentemente, o argentino tinha tudo para vingar, desde a relação pessoal e de largos anos com o Real Madrid até à proximidade com o balneário, por ter terminado a carreira há escassos oito anos. Mas o projeto — ou a inexistência de um — acabou por fracassar em toda a linha.

A polémica com Isco foi um dos episódios que mais desgastou Solari: tanto na opinião pública como no interior do balneário

Os problemas começaram com Isco. O virtuoso espanhol, que sempre teve fama de ter problemas com os treinadores mas encontrou em Zidane alguém que o compreendia e aparava os golpes sem anular consequências, foi desaparecendo das convocatórias de Solari e somando polémicas, desde o dia em que recusou utilizar a braçadeira de capitão (ainda que depois se tenha justificado) até um gesto inusitado para com os adeptos que o criticavam quando falhou um golo de forma clamorosa. Apesar do comportamento de Isco, a ausência do jogador — considerado um dos mais talentosos do plantel merengue — nunca foi alvo de compreensão por parte dos adeptos e dos opinion makers ligados ao Real, que consideravam inexplicável e prejudicial a opção de Solari de manter o internacional espanhol de fora.

A Isco juntou-se Bale. O avançado galês, que no pós-saída de Ronaldo e face ao falhanço na contratação de sonho que sempre foi Neymar era a aposta de Florentino Pérez para ser a figura de proa de um novo Real Madrid, não correspondeu às expectativas e às lesões juntou exibições pouco conseguidas, influência muito abaixo da média e até a perda de titularidade, favorecendo Vinícius e Lucas Vázquez. Bale tornou-se, a par de Isco, o exemplo maior de um balneário em ebulição onde Solari não tinha qualquer controlo: o avançado deixou o Santiago Bernabéu enquanto o Real Madrid ainda perdia com a Real Sociedad e recusou festejar um golo com Lucas Vázquez já no final de fevereiro, atitudes às quais se juntaram as críticas da comunicação social espanhola, para quem Bale se tornou um alvo preferencial, principalmente por recusar falar aos jornalistas e não saber falar espanhol (seis anos depois de chegar a Madrid).

Solari nunca teve mão num balneário liderado por Sergio Ramos que sempre olhou para o capitão como o principal timoneiro e para o treinador enquanto situação de passagem. O último episódio, que antecipou de forma clara a saída do argentino do Santiago Bernabéu, aconteceu este domingo: Marcelo, lateral que é associado a uma transferência para a Juventus já no verão, recusou cumprimentar o técnico quando este o chamou para entrar em campo aos 89 minutos da vitória merengue frente ao Valladolid.

Três dias, duas derrotas com o Barcelona e dois objetivos perdidos

É costume dizer-se que os títulos não se ganham contra os principais rivais e as equipas mais poderosas mas sim em todos os outros jogos. No caso do Real Madrid e desta temporada, porém, a lógica nunca poderá ser assim tão linear. O calendário ditou que Barcelona e Real Madrid se encontrassem três vezes no espaço de apenas 25 dias e se o primeiro jogo, que terminou empatado 1-1, até deixava antever um certo equilíbrio que tornaria ainda mais interessante uma tripla jornada, as duas partidas seguintes confirmaram a crise merengue e sentenciaram, ainda que não por si só, o destino de Solari.

A primeira mão da meia-final da Taça do Rei, o tal primeiro jogo que até acalentou as esperanças dos merengues de chegar ao final da Taça como ofereceu confiança para o encontro a contar para a Liga, mostrou um Real Madrid motivado e superior à espaços, principalmente pela mão de Vinícius, que face à ausência de Bale se assumia como o principal criativo da equipa. Dias depois, a equipa de Solari até venceu de forma convincente o Atl. Madrid no Wanda Metropolitano, foi a Amesterdão bater o Ajax na primeira mão dos oitavos da Champions e reagiu a uma derrota com o Girona ao vencer o Levante na antecâmara de nova receção ao Barcelona. O Real voltou a começar melhor, dominou toda a primeira parte mas falhou na eficácia e foi derrotado por um super Luis Suárez que bisou e ainda esteve no lance do auto golo de Varane. O Barça vencia por 3-0 no Bernabéu — num jogo onde os números até poderiam ter sido mais expressivos — e chegava à sexta final consecutiva da Taça do Rei; o Real perdia um dos objetivos da temporada e tinha de recuperar forças e orientar o foco para novo confronto com os catalães, daí a três dias.

As duas derrotas consecutivas com o Barcelona no Santiago Bernabéu deixaram os merengues fora da Taça do Rei e sem hipóteses na Liga

Dessa vez, um golo solitário de Rakitic chegou para o Barcelona vencer pela segunda vez consecutiva em casa do principal adversário e deixar o Real Madrid a 12 pontos da liderança, completamente arredado da conquista do Campeonato. No espaço de três dias, os merengues perderam a possibilidade de conquistar a Taça do Rei e a Liga espanhola: restava a inevitável Liga dos Campeões.

A Champions e o fim da única coisa que restava

Sem objetivos internos, o Real Madrid recebia o Ajax depois de ter vencido por 2-1 na Holanda. O resultado, ainda que perigoso, parecia sólido o suficiente para apurar os merengues para os quartos de final — e, mais do que isso, o fracasso a nível nacional não permitia quaisquer deslizes europeus. A Liga dos Campeões, o ex libris do clube, tinha ido parar ao museu do Bernabéu nos últimos três anos e este não poderia ser exceção.

Mas o Ajax tinha outras ideias. A armada comandada por Erik ten Hag, sob a batuta de Tadic, De Jong, De Ligt e companhia, venceu com estrondo por 4-1 e eliminou e humilhou um Real Madrid que nunca foi digno de passar à próxima fase da Champions. De um momento para o outro, no início de março, o clube merengue havia perdido todos os objetivos delineados para a temporada — incluindo a competição que o sagrou tricampeão europeu. A derrocada da passada terça-feira nada mais foi do que a confirmação de uma crise há muito anunciada e antecipada, uma espécie de culminar de uma novela que começou com a má escolha do sucessor de Zidane e se arrastou até uma equipa em clara quebra de rendimento, sem confiança nem proximidade com o treinador.

O Ajax foi a Madrid dar a volta à eliminatória e deixar o tricampeão europeu fora da Liga dos Campeões

Florentino e um novo projeto que falhou em toda a linha

O presidente merengue, responsável por garantir ao clube novos períodos de glória durante as duas passagens pela liderança, tem sido o principal alvo das críticas da afición. Desde pedidos de demissão aos lenços brancos para a tribuna no final da goleada sofrida aos pés do Ajax, Pérez não tem escapado à consideração geral de que errou, em toda a linha, na construção de um ciclo pós-Zidane e Ronaldo. O erro começou na escolha do treinador, com a ainda hoje incompreensível opção por Lopetegui, continuou quando não chegou numa “estrela” que substituísse, pelo menos de forma moral, Cristiano Ronaldo, e culminou na falta de coragem que o levou a optar pela efetividade de Solari, nome querido dos adeptos, ao invés de ir à procura de um nome novo que refrescasse uma equipa que começou a cheirar a mofo logo a meio do verão.

Modric até conseguiu quebrar a hegemonia do português e de Messi na Bola de Ouro mas está, de forma indireta, ligado a um dos maiores problemas que Zidane terá para resolver: o meio-campo. Kroos é o melhor exemplo de como o rendimento de um jogador porque cair a pique de uma temporada para outra, Casemiro também já viveu melhores dias – apesar de ter marcado alguns golos recentemente, o que nem é habitual, chegou a andar pelo banco – e o croata, um dos mais inconformados da equipa, não consegue desequilibrar sozinho – como Ronaldo muitas vezes conseguia, em jogos de menor inspiração no conjunto merengue quando Zizou era o treinador. Com o motor central gripado, todo o carro foi abaixo. Atrás porque há muito que o Real não sofria tantos golos, à frente porque há muito que o Real não marcava tão poucos golos.

A saída de Solari terá ficado acertada logo nas horas que se seguiram à eliminação da Liga dos Campeões, quando Florentino reuniu o gabinete de crise e decidiu dispensar o treinador — ainda que só após o jogo do passado domingo, com o Valladolid. O corrupio de nomes passíveis de aterrar em Madrid voltou a aparecer: Conte, Allegri, Klopp. O circo mediático criado à volta do comando técnico do Real Madrid, porém, tinha desta vez uma novidade. José Mourinho, que tanto no verão como em outubro estava ainda no Manchester United, aparecia agora como agente livre e dizia até à televisão inglesa que “é bonito voltar aos sítios onde já fomos felizes”. O treinador português, que durante a primeira passagem por Madrid nunca teve uma relação ótima com Cristiano Ronaldo e não fala com Sergio Ramos, surgia como aposta forte para suceder a Solari.

A opção Mourinho

O treinador português agradava a Florentino principalmente num fator: o facto de ter pulso no balneário. As polémicas no cerne da equipa, com Isco e Bale à cabeça, levavam o presidente merengue a acreditar que era necessário alguém que controlasse com pulso de ferro um conjunto de jogadores que estava cada vez desmotivado, afetado por crescentes rumores de saídas e habituado a duas lideranças frágeis, primeiro com Lopetegui e depois com Solari. A imprensa espanhola e inglesa, à exceção do jornal Marca, dava como confirmadas as notícias de que o Real Madrid estava em contacto com Jorge Mendes para averiguar a situação de Mourinho e perceber se o português tinha interesse num regresso romântico a um Santiago Bernabéu onde nem sempre foi feliz.

O papel de Sergio Ramos — jogador com quem Mourinho ficou de relações cortadas nos últimos tempos em Madrid — enquanto capitão e líder de balneário, contudo, terá dificultado o reatar sempre forçado de uma relação que teve continuamente Zidane como terceira parte interessada. O jogador espanhol, que depois de uma discussão com o presidente e outra com Marcelo decidiu esta segunda-feira fazer uma auto-entrevista no Twitter e assumir a figura de quase porta-voz da equipa (com um documentário filmado no camarote do Bernabéu enquanto o Real perdia com o Ajax à mistura), é cada mais o líder incontestado e não oficial dos merengues. O que, confirmando-se o regresso de Mourinho, iria novamente complicar a afirmação do terceiro treinador em nove meses.

Sergio Ramos tem sido um dos protagonistas dos últimos dias de crise em Madrid

A junção de forças que convenceu Zidane

Com Mourinho descartado e Zidane enquanto principal solução assumida, existia apenas um problema: o francês não estava completamente convencido de que a decisão certa passava por regressar a Madrid apenas nove meses depois de se ter demitido. A tentação de um outro regresso, desta feita à Juventus — onde, caso a equipa italiana seja esta terça-feira eliminada da Champions, Allegri fica também em maus lençóis –, apelava ao treinador, que também tinha em mente a possibilidade de assumir o comando técnico do Manchester United no verão, já que Solskjaer está em Old Trafford apenas a título de empréstimo do clube norueguês que orientava até ao despedimento de Mourinho.

Assim sendo, foi então necessário reunir o trio que lidera o futebol do Real Madrid para convencer o treinador tricampeão europeu a voltar ao leme do clube. Depois de, numa primeira instância, os contactos terem falhado, Florentino Pérez, José Ángel Sánchez e Emilio Butrageño (ex-glória e atual responsável pelas Relações Institucionais) conseguiram finalmente convencer o francês a voltar ao Santiago Bernabéu – que assinou contrato válido por três temporadas e é apresentado já esta segunda-feira. O ABC garante desde já que será a estrutura diretiva a tratar de todas as dispensas e vendas na próxima janela de mercado, por forma a que o técnico se mantenha resguardado na relação com o balneário. Nove meses depois, Zidane está de volta ao clube, ao plantel e à afición que não chegaram a esquecê-lo.