Abusos na Igreja

Abusos sexuais. Cardeal de Boston esteve em Fátima e falou de tolerância zero aos bispos portugueses

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Presidente da Comissão Pontifícia para a Proteção de Menores, Seán O'Malley esteve em Fátima a orientar o retiro dos bispos portugueses. Sublinhou importância da tolerância zero nos abusos sexuais.

Seán O'Malley é o arcebispo de Boston desde 2003

ANTÓNIO COTRIM/LUSA

O cardeal norte-americano Seán O’Malley, arcebispo de Boston e presidente da Comissão Pontifícia para a Proteção dos Menores, esteve esta semana em Fátima para orientar o retiro de Quaresma dos bispos portugueses. Durante a reunião, que se dedicou essencialmente a temas espirituais e à reflexão sobre o papel dos bispos na Igreja, o cardeal — que assumiu a diocese de Boston em 2003, na sequência do escândalo dos abusos sexuais que abalou os EUA — sublinhou a importância da tolerância zero no combate aos abusos e assinalou que uma das funções dos bispos é precisamente a segurança das crianças e adolescentes.

“Durante o retiro, o tema foi a espiritualidade e o ministério do bispo e falámos da proteção dos menores como uma das nossas obrigações“, disse o cardeal norte-americano ao Observador à saída do último dia deste retiro, que terminou com a apresentação do seu livro Procura-se amigos e lavadores de pés. Nesta obra, O’Malley faz uma reflexão teológica sobre vários temas, incluindo sobre os abusos sexuais na Igreja Católica, tema com que tem lidado desde a sua nomeação como bispo de Fall River, em 1992, e se deparou com o caso de um pedófilo em série, o padre James Porter, que havia abusado de centenas de crianças naquela diocese.

“Para mim, era incompreensível que esse problema pudesse ter ficado oculto por tanto tempo. Por mais dolorosa e penosa que seja a atenção dos media, colocando um holofote sobre o abuso sexual clerical, isso prestou, na verdade, um grande serviço à Igreja. Obrigou-nos a reconhecer os nossos crimes e pecados que causaram tanto dano a crianças e pessoas vulneráveis“, escreve o cardeal O’Malley na obra, que foi lançada esta sexta-feira em Portugal pela editora Paulinas.

O arcebispo de Évora, D. Francisco Senra Coelho, um dos participantes neste encontro, explicou em entrevista ao Observador que apesar de a questão dos abusos sexuais não ter sido o tema o central do retiro — que se focou essencialmente na “oração, contemplação e silêncio” —, o cardeal norte-americano, que é também um dos membros do exclusivo conselho de cardeais que aconselha o Papa Francisco, evidenciou sempre a sua experiência e a “vivência que ele assumiu nas dioceses de Fall River e depois de Boston”.

“Percebemos nitidamente a sua objetividade numa consciência absolutamente clara de que a tolerância é zero em todas as circunstâncias, de que devemos fomentar na vida da Igreja, por todos os meios e com todas as forças, a segurança das nossas crianças, que não podemos nunca permitir que uma criança seja utilizada por qualquer forma de violência ou de violação. Percebemos nitidamente que tem de ser um assunto trabalhado de uma maneira especializada, que são circunstâncias que não se improvisam. Por isso, nós temos de fazer acontecer a segurança das nossas crianças na Igreja a partir de uma prevenção especializada, que, enfim, todos temos de adquirir“, explicou o arcebispo de Évora ao Observador.

D. Francisco Senra Coelho insistiu ainda que “o cardeal O’Malley deixou, nas entrelinhas das suas experiências, com toda a sua personalidade, com toda a sua riqueza, entender a sua vivência”. “E a sua vivência é esta: tolerância zero, uma atenção muito profunda à prevenção, uma prevenção que gera segurança, uma segurança que tem de ser a grande preocupação da Igreja. Dos bispos e de todas as comunidades cristãs, que precisamos de readquirir a confiança do povo de Deus. O povo de Deus, certamente, nestas circunstâncias, sentiu a sua confiança abalada”, acrescentou o bispo.

O retiro contou com a presença dos cerca de 40 bispos portugueses (entre bispos titulares, auxiliares e eméritos), começou na última segunda-feira e terminou esta sexta-feira. Os bispos de Portugal reúnem-se todos os anos no início do período da Quaresma (os 40 dias de preparação para a Páscoa) para refletirem, em silêncio e oração, sobre diversos temas da vida eclesial.

O encontro deste ano aconteceu num contexto particular, menos de um mês depois de os presidentes das conferências episcopais de todo o mundo se terem reunido no Vaticano para uma cimeira inédita dedicada à responsabilidade da Igreja no escândalo dos abusos sexuais de menores. Nessa reunião participou, em representação de Portugal, o cardeal-patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente. A cimeira também contou com a presença do cardeal Seán O’Malley, que, em 2014, foi nomeado pelo Papa Francisco como presidente da Comissão Pontifícia para a Proteção dos Menores, um organismo criado pelo Papa argentino para estudar e propor reformas na Igreja Católica, no sentido de combater os abusos sexuais.

A relação de Seán O’Malley com Portugal já é longa. O cardeal sempre trabalhou com emigrantes portugueses  e com comunidades luso-americanas nos Estados Unidos, fala português e já recebeu várias condecorações do Estado português.

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