Enviado especial ao Vaticano

Denunciar casos de abuso sexual às autoridades civis é uma “obrigação moral” de todos os bispos e responsáveis da Igreja Católica, argumentou esta sexta-feira o cardeal-norte americano Seán O’Malley, arcebispo de Boston e presidente da Comissão Pontifícia para a Proteção dos Menores.

O’Malley falava aos jornalistas ao final da manhã, no final da primeira parte dos trabalhos do segundo dia da cimeira inédita que reúne no Vaticano 190 líderes católicos para debater com o Papa Francisco a responsabilidade da hierarquia da Igreja Católica na resposta aos casos de abuso sexual de menores por parte do clero.

O cardeal norte-americano, que preside à comissão especializada criada em 2014 pelo Papa Francisco para estudar este problema da Igreja, sublinhou que a dimensão da “crise terrível” pela qual a Igreja passa neste momento se deve, em grande parte, ao facto de, “durante muito tempo, estes crimes não terem sido reportados” de forma apropriada.

Cimeira inédita convocada pelo Papa reúne os líderes católicos de todo o mundo, num debate sobre o problema dos abusos sexuais na Igreja (AFP/Getty Images)

O’Malley, que sucedeu ao cardeal Bernard Francis Law na liderança da diocese de Boston quando este último teve de resignar por causa dos abusos denunciados pelo Boston Globe em 2002, sublinhou que nos Estados Unidos os bispos já assumiram esta obrigação moral para garantir “a segurança das crianças” que contactam com a Igreja.

Também o arcebispo Charles Scicluna, secretário adjunto da Congregação para a Doutrina da Fé (organismo do Vaticano que investiga os abusos sexuais), afirmou que “em todos os casos a denúncia às autoridades é uma prioridade”, sempre respeitando a lei de cada país no que diz respeito a esta matéria.

As declarações dos prelados surgem um dia depois de o Papa Francisco ter entregue a todos os participantes na cimeira um documento com 21 “pontos de reflexão” — resultantes de uma análise de todas as informações enviadas nos últimos meses para o Vaticano pelos bispos de todo o mundo — sobre o que deve a Igreja fazer em casos de abuso sexual. O ponto número 5 referia-se precisamente a esta questão: “Informar as autoridades civis e as autoridades eclesiásticas superiores, em conformidade com as normas civis e canónicas”.

Estes pensamentos do Papa Francisco, encarados como um “ponto de partida” para a elaboração de normas formais pelas conferências episcopais de todo o mundo, deverão ficar cristalizados nas linhas orientadoras eclesiásticas resultantes desta cimeira, o que significa que, nos próximos tempos, a Igreja Católica poderá adotar uma política que passe pela obrigação formal de entregar os casos de abuso sexual às autoridades civis.

A ideia de “obrigação moral” de denúncia também não é nova. Numa entrevista ao Observador na semana passada, o padre Hans Zollner, responsável do comité organizador desta reunião inédita, tinha afirmado precisamente que os bispos e os superiores religiosos católicos têm uma “enorme obrigação moral” de denunciar os casos à polícia, sublinhando mesmo que “a Igreja tem de respeitar a lei e tem de fazer tudo o que puder ser feito para ajudar a polícia a descobrir a verdade”. Palavras que ganham agora um peso maior por terem sido sublinhadas pelo cardeal de topo do Vaticano para as questões do abuso de menores.

Relativamente à forma como a Igreja investiga e pune os clérigos abusadores sexuais, e respondendo às críticas de algumas associações de vítimas que defendem que a única forma de aplicar a tolerância zero é expulsar do sacerdócio todos os padres que cometeram abusos, o arcebispo Charles Scicluna argumentou que a demissão do estado clerical não tem como objetivo punir o sacerdote, mas proteger as vítimas.

Scicluna sublinhou que, em determinadas circunstâncias, é mais eficaz manter um sacerdote vinculado à Igreja e suspendê-lo das funções, podendo assim o bispo decidir colocá-lo numa casa eclesiástica onde estará afastado de menores, do que simplesmente demiti-lo do estado clerical, deixando de ter qualquer jurisdição sobre ele e deixando-o em plena liberdade de movimentos.

O arcebispo Charles Scicluna insiste que, em determinadas circunstâncias, é mais eficaz manter um sacerdote vinculado à Igreja e suspendê-lo das funções do que expulsá-lo (ALBERTO VALDES/EPA)

“A questão da prudência e da idoneidade é mais fundamental do que a questão penal. Não impedimos uma pessoa de exercer o ministério [sacerdotal] público para o punir, mas sim para proteger a Igreja”, afirmou Scicluna, acrescentando: “Não podemos permitir que continue no ministério alguém que faça mal aos mais novos”.

O cardeal norte-americano Blase Cupich, arcebispo de Chicago e membro da comissão organizadora da cimeira, alertou na mesma conferência de imprensa para a necessidade de haver “passos concretos” dados nesta cimeira. Cupich, que, durante a sessão da manhã, apresentou aos bispos uma proposta de procedimentos concretos a adotar pelos bispos em casos de abuso sexual, lembrou que “o Papa foi muito claro com o grupo organizador, dizendo: quero passos concretos”.

Ainda assim, Cupich advertiu para a importância de os bispos assumirem a responsabilidade pela resposta aos abusos. “Podemos passar quantas leis quisermos, mas, se não houver motivação, se não houver este sentido de assumir a responsabilidade, não vamos a lado nenhum. Essa é a força motriz desta reunião. Garantir que criamos esse sentido de assumir a responsabilidade”, disse.

Com o tema do dia a ser a dimensão da colegialidade na responsabilidade dos bispos, o arcebispo Charles Scicluna sublinhou que os bispos não podem ser apenas responsáveis pelo que acontece nas suas dioceses. “Somos uma equipa, somos responsáveis em conjunto pela Igreja Universal”, afirmou.

Scicluna, que é o principal investigador do Vaticano para a questão dos abusos sexuais, manifestou ainda a intenção da Santa Sé de trabalhar em estatísticas internacionais sobre a dimensão dos abusos sexuais, mas lembrou que é um trabalho ainda em curso.

Papa agradeceu à primeira mulher a falar na cimeira

Durante a tarde de sexta-feira, falou perante os líderes católicos a primeira das três mulheres que estão previstas como oradoras na cimeira: Linda Ghisoni, que é sub-secretária no Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida, um dos organismos da cúpula do Vaticano. Ghisoni falou sobre a necessidade de colocar toda a prioridade nas vítimas.

No final, o Papa Francisco tomou a palavra apesar de não estar prevista uma intervenção do Papa, para agradecer à oradora. “Senti a Igreja a falar de si própria”, disse o Papa, lembrando que “convidar uma mulher a falar não é entrar na modalidade de um feminismo eclesiástico”. “Convidar uma mulher a falar sobre as feridas da Igreja é convidar a Igreja a falar de si própria, sobre as feridas que tem”, disse Francisco, lembrando que também a Igreja é “mulher, esposa e mãe”.

“A lógica do pensamento da doutora Ghisoni é própria da de uma mãe”, disse ainda, sublinhando que “é o mistério feminino da Igreja, que é esposa e mãe”. “Não se trata de dar mais funções à mulher na Igreja – sim, isso é bom, mas isso não resolve o problema – trata-se de integrar a mulher como imagem da Igreja, no nosso pensamento. E pensar também na Igreja com as categorias de uma mulher. Obrigado pelo seu testemunho”, rematou Francisco.

A cimeira, inédita, decorre até domingo no Vaticano e foi convocada em setembro pelo Papa Francisco, após um dos piores anos de sempre para a Igreja no que diz respeito aos abusos sexuais — sobretudo nos Estados Unidos, onde, pela primeira vez, um cardeal foi expulso do sacerdócio por ter abusado de crianças. Os líderes católicos, incluindo o cardeal português D. Manuel Clemente, debatem a responsabilidade da Igreja na prevenção dos abusos e no apoio às vítimas.